Encontro de regantes discute agricultura, ambiente e território Ministra da Agricultura marca presença num evento onde se prevêem protestos

Evento organizado pela FENAREG – Federação Nacional de Regantes de Portugal e pela ABMira – Associação de Beneficiários do Mira, realiza-se no auditório do ZMar, a 6 e 7 de Novembro, e é presidido pela Ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque

É já amanhã que se inicia o Encontro Regadio 2019-XII Jornadas FENAREG, onde se vão abordar as questões mais prementes na gestão dos recursos hídricos e do aproveitamento da água a nível nacional, articulando Agricultura, Ambiente e Território, tendo como foco principal o Perímetro de Rega do Mira (PRM).

Contando com um painel de especialistas e empresários ligados ao sector, o encontro que assinala meio século de existência do PRM abre o debate com os olhos postos no futuro, face à grande questão das alterações climáticas, lançando o desafio para a exploração dos recursos hídricos de modo sustentável e com uma estratégia clara para o território, na conciliação entre a agricultura e a protecção do ambiente e da orla costeira.

Com origem na barragem de Santa Clara, esta rede de canais serve uma área com cerca de 12.000 hectares e influencia a agricultura de regadio produzida em todo o concelho de Odemira. Para além de garantirem a disponibilidade de água para abastecimento público, através da barragem, as infraestruturas são o suporte para o desenvolvimento sócio-económico de grande parte do território do sudoeste alentejano e da Costa vicentina, em paralelo com o turismo.

A criação de uma certificação de exploração sustentável estará também em discussão neste encontro como um dos objectivos a alcançar no futuro, para as empresas que incorporem na sua actividade a protecção dos recursos hídricos, a conservação do solo, o contributo para a biodiversidade (habitats e espécies) e a melhoria da sustentabilidade carbónica. Com esta medida prevê-se que até 2027 se possa criar uma área agrícola de regadio sustentável com cerca de 100.000 hectares a nível nacional. A modernização do regadio em Portugal estará de igual modo na ordem do dia, com a apresentação de um estudo que aponta caminhos orientadores das políticas públicas de regadio até 2050.

PROTESTO CONTRA AS ESTUFAS

Criado em 1969, o PRM integra o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina em 94% da sua área, zona com restrições ambientais criada em 1988 e posteriormente classificada como Rede Natura. Esta articulação nem sempre tem sido consensual, levando a vários conflitos de interesses com os regantes, de um lado, que reclamam por mais zonas de rega, e os ambientalistas, do outro, que apontam armas à rápida multiplicação das estufas e abrindo guerra ao plástico, argumentando a falta de rigor do Parque que deve ser ainda mais limitador.

Neste cenário, aproveitando a presença da Ministra da Agricultura – planeada inicialmente para a abertura do Encontro mas alterada para o meio da tarde – um grupo de residentes do concelho pretende levar a cabo uma acção de protesto durante a realização do evento no ZMar. Com o nome de “Nem mais uma estufa em Odemira”, o protesto foi alavancado no Facebook e intenta requisitar a sociedade civil contra a “invasão do plástico em Odemira”, perante a recente resolução do Governo em “autorizar a expansão de mais estufas, estufins, túneis na área do Parque”. Na tentativa de chegarem à fala com Maria do Céu Albuquerque, pretendem desviar a política do governo deste “modelo agrícola que já se mostrou desastroso a muitos níveis para esta região do Alentejo Litoral”, lê-se na rede social. “Não queremos ser outra Almería!”, exigem.

Por outro lado, os regantes e os empresários agrícolas da região reclamam a revisão do traçado do PRM, atendendo a uma maior eficiência no regadio. “Pretendemos que sejam redefinidos os limites do Aproveitamento Hidroagrícola do Mira, tendo em conta os constrangimentos de natureza ambiental que existam, isto é, que se classifiquem as zonas em conflito e que se definam novas zonas onde a agricultura de regadio seja autorizada para compensar a proibição noutras zonas”, afirma Manuel Amaro Figueira, director executivo da ABMira.

“Há terra e água disponíveis para irrigar os 12.000 hectares, mas o condicionalismo são as áreas onde o regadio pode ser praticado. Fora do perímetro inicialmente traçado, e que hoje em dia não tem qualquer sentido, não são autorizados novos investimentos agrícolas, e mesmo dentro do perímetro há limitações à actividade agrícola”, explica ainda o responsável pela associação, estimando que nos últimos anos tenham sido inviabilizados entre 1.500 a 2.000 hectares de regadio devido às restrições impostas pelo Parque Natural.

Os dados estão lançados, este será um dia que se prevê agitado. Para o segundo dia do Encontro, será realizada uma visita a explorações agrícolas e pontos de interesse da infraestrutura do Aproveitamento Hidroagrícola do Mira.


MONOGRAMAS

A FENAREG é uma associação de utilidade pública, sem fins lucrativos, de âmbito nacional, fundada em 2005, que agrupa entidades dedicadas à gestão da água para rega, tanto superficial como subterrânea, com o objectivo de unir esforços e vontades na defesa dos seus legítimos interesses e na promoção do desenvolvimento sustentável e da competitividade do regadio. Atualmente conta com 27 associados que representam mais de 25 mil agricultores regantes, que significa mais de 90% do regadio organizado nacional.

A ABMira é uma associação de direito público, fundada em 1970, tutelada pelo Ministério da Agricultura, concessionária dos Aproveitamentos Hidroagrícolas do Mira e de Corte Brique, sendo responsável pela sua gestão, exploração e conservação. Actualmente conta com cerca de 1300 agricultores regantes que exploram efectivamente 7.000 hectares colocando o nível de utilização do aproveitamento hidroagrícola perto dos 60%.

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Em 2015, mercúrio nascia em Odemira como jornal mensal em papel; libertando-se para uma existência apenas digital, com uma presença online renovada e dinâmica, quatro anos depois, corria o mês de Outubro.

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