A CAIXA DE PANDORA

“Feira de Carrossel?”


Por:Paulo Barros Trindade

2015-08-05
Provavelmente não será apenas este caldo ideológico que tem transformado e desvirtuado a FACECO.

No início deste ano fez 16 anos que comprei parte de uma empresa sediada em S. Teotónio, decisão que conduziu de forma não premeditada a que acabasse por assumir Odemira como a minha casa, local para onde transferi a sede das minhas empresas, tendo já passado quase dois terços da minha vida adulta nesta terra.

 

Estando em S. Teotónio, era incontornável que essa empresa estivesse representada no único evento anual concelhio onde fazia sentido apresentar os seus serviços – a FACECO.

 

Foi na FACECO que conheci muitos dos empresários de Odemira, numa fase onde a zona sul da feira se destinava apenas ao gado e parte dos stand’s das empresas ainda se localizavam nas proximidades da zona onde se localiza hoje em dia o recinto da imprensa. Nessa altura os stand’s do Bruno Pedroso & Irmão e da AHSA-Associação de Horticultores do Sudoeste Alentejano destacavam-se sempre pela sua elaboração e as empresas Odemirenses marcavam forte presença.

 

Ao longo dos anos assisti ao fenómeno de ver desaparecer os stand’s das empresas locais e de ver estes substituídos pelas mesmas tascas e tasquinhas, pelas mesmas lojas e lojinhas que se vê em todas as feiras e que rodam todas as feiras. Nos últimos anos até os restaurantes deixaram de ser exclusivamente da terra, para passarem a acomodar outros, dos que vão a todas. Vemos uma feira que deveria ser supostamente uma feira de actividades económicas locais, transformar-se num evento de entretenimento de massas, ao estilo feira de Verão, quer para entreter os locais com umas comprinhas de ocasião nas ditas lojas e lojinhas, quer para entreter os veraneantes com umas cantigas alentejanas e umas cervejas geladas.

 

Aliás nos últimos anos a centragem nas actividades sociais do concelho, que teve o seu apogeu este ano, ainda torna mais distantes os objectivos da feira, parecendo transparecer aquilo que julgo ser a ideologia reinante, que olha desconfiada para as empresas.

 

Provavelmente não será apenas este caldo ideológico que tem transformado e desvirtuado a FACECO. Não é só nesta feira que tem acontecido este fenómeno. Um pouco por todo o País estas feiras temáticas ligadas às actividades empresariais locais têm-se convertido em feiras de entretenimento e em feiras de vaidades, políticas ou outras, onde a pressão de manter o número elevado de visitantes é grande, pois é esse número que traduz uma avaliação do sucesso.

 

Em alguns concelhos onde tal aconteceu, a solução para combater este fenómeno foi entregar a gestão das feiras a associações de desenvolvimento local ou a associações empresariais.

Mas a questão que se coloca antes de mais, é o que se pretende da FACECO? Se a resposta é ter um espaço de entretenimento de 3 dias por ano, onde as pessoas veem as “montras”, bebem umas cervejas com os amigos e comem umas farturas, ao som da banda da moda, então realmente estamos no caminho certo. E se é isso que se pretende, então a ausência cada vez maior de empresas justifica-se e, aliás, a sua presença seria algo desajustado.

 

Se pelo contrário, o que se pretende é não abdicar da presença das empresas locais e manter o espírito da criação do espaço, que era o de ser um espaço para a mostra do que se faz em termos empresariais e culturais no concelho, então chegou a altura de arrepiar caminho e mudar o paradigma.

 

Que soluções poderão então existir? A solução parece-me passar por um maior envolvimento das empresas e dos empresários na organização do certame. Aliás não me parece que faça sentido que o Município organize sozinho o certame, sem o envolvimento daqueles que supostamente teriam de mostrar as suas actividades. Não vejo necessidade de criação de grandes estruturas de gestão, para uma feira que ocupa 3 dias por ano, mas um pequeno grupo de trabalho com um elemento do Município e elementos das associações de desenvolvimento local e dos empresários dos vários sectores poderá ser mais do que suficiente para inverter o fenómeno de desertificação empresarial e, mesmo, cultural (veja-se o desaparecimento das actividades de animação de rua que eram frequentes em edições anteriores, como os palhaços de rua e o teatro).

 

Por último, estando pensado o modelo de organização, resta ir procurar os empresários e convidá-los activamente a participar. Não creio que um email de aviso de abertura de inscrições seja suficiente para atrair os empresários do concelho a estarem presentes, como tem acontecido nas últimas edições. Se as pessoas forem directamente envolvidas na organização, poderíamos chegar a um ponto onde haveria um pavilhão dedicado a cada uma das duas actividades principais do concelho – a agricultura e o turismo. Claro que essa atração não é possível, quando se cobram valores ridículos pelos stand’s (cerca de 100 euros por dia) o que faz com que as empresas, na sua maioria de pequena dimensão, entendam que os custos associados não justificam a sua presença (ao valor do stand é necessário somar os custos com o layout do stand e com o merchandising).

 

De uma forma construtiva, deixava aqui neste espaço uma sugestão à autarquia -  incluir no programa Odemira Empreende o apoio aos empresários para estarem presentes neste certame. Os montantes em causa são pequenos, não afectariam de forma considerável o orçamento camarário e contribuiriam significativamente para uma mudança no certame, permitindo que os Odemirenses e demais visitantes realmente conhecessem o que de bom se faz em Odemira no mundo empresarial, não obstante poderem continuar a existir as actividades complementares de entretenimento. Tenho a certeza que muitos ficariam surpreendidos com o que Odemira tem para oferecer neste campo. Fica o contributo...