NA PRIMEIRA PESSOA

A união multiplica a força


Por:Manuel Cruz

2015-08-05
1976 foi um ano histórico no movimento associativo da minha terra.

Tinha regressado do serviço militar obrigatório e a angustia de viver diariamente a iminência de receber uma guia de marcha e partir para a guerra tinha finalmente terminado e era tempo de voltar às iniciativas da comunidade.

 

Tive o privilégio de viver intensamente o desabrochar da democracia em S. Luís e na região da grande Lisboa. O movimento associativo renasceu com o perfume dos cravos de Abril, e o povo saindo da “casca” lançou as mãos à obra com uma ansiedade e consciência do tempo perdido que era urgente recuperar.

 

Os projectos de trabalho comunitário com iniciativas na construção de estradas, caminhos e fontanários, entreajuda na construção de habitações, projectos de cariz cultural, desportivo e recreativo, cresciam com a força primaveril, como searas de trigo verdejantes repletas de coloridas papoilas vermelhas, ondulando na planície.

 

Criaram-se associações de moradores e as colectividades (re)nasciam. Eramos um grupo de cerca de meia centena de jovens e decidimos reabrir a colectividade da terra. A semente multiplicada renasce e hoje muitos outros continuam a fazer acontecer coisas belas, interessantes e inovadoras.

 

Realço o trabalho hoje desenvolvido por muitas colectividades do nosso concelho, onde homens e mulheres se entregam com verdadeiro amor no desenvolvimento desportivo, cultural ou recreativo. É prazer o que sinto ao acompanhar estes trabalhos cujos projectos continuam com a vitalidade das exigências dos tempos modernos, assentes na qualidade construída com sabedoria, adaptando as experiências do passado, com o objectivo de sempre melhor fazer.

 

Foi preciso deixar cair complexos e superioridades “bacocas” e tornar as colectividades elitistas em verdadeiras associações populares. Recordo o exemplo da Dona Ausenda, criada de servir em casa dum dos sócios da Sociedade Recreativa da minha terra. Certo dia, antes do 25 de Abril, a ‘Senhora’ mandou-a levar um bolo à colectividade, que comemorava mais um aniversário, ao que ela ripostou - “ Não vou! Uma vez que não é permitida a entrada de criados na festa e no baile, também não vai ser permitida a minha ida à colectividade para entregar o bolo”. (em muitas colectividades era assim: umas para ricos outras para pobres).

 

Deixando de haver amarras e dependências e criando o sentimento de que quando o grupo sonha, discute e decide avançar, dando os braços ao trabalho, o sonho torna-se realidade, pois a união e a força tudo consegue. Só o amor e entrega voluntária possibilitam o acontecimento, pois exemplos existem que quando qualquer tutela paternalista pretende substituir esse voluntarismo acabam esses eventos por decair e muitas vezes até, morrer.

 

Para melhorar a qualidade e a quantidade das actividades é importante que o poder comparticipe com melhores apoios monetários e logísticos. Essa é mesmo uma obrigação de Lei que reparte dessa forma os impostos que pagamos. O apoio não pode ser considerado uma regalia ou benesse, que a caridade do presidente ou vereador municipal atribui, mas sim um direito devido a quem desenvolve actividade de interesse comunitário. Não se pode permitir que os apoios estejam sujeitos a critérios discricionários, nem dependentes de favores ou prestação de vassalagem. Quando se trata da sua atribuição o poder absoluto, mais evidente quando em maioria partidária, não consegue, muitas vezes, distanciar-se das simpatias e das amizades, e isso, além de tremenda injustiça, é uma atitude censurável e ilegítima.

 

A criação cultural e a preservação das tradições são cada vez mais a marca indelével que nos separa e nos diferencia dos outros povos.

 

O concelho de Odemira é exemplo da dedicação das suas gentes ao trabalho associativo nos campos desportivo, cultural, ambiental, social ou recreativo, que com o seu trabalho, alegria e criatividade, contribuem para o puxar para cima deste povo residente entre a planície e a serra e banhado pelas águas cristalinas do oceano atlântico. Trabalho que marca a diferença, num mundo globalizado que alguns pretendem uniformizar à sua imagem fria, cinzenta e impessoal, e consolida a razão de que somos diferentes e queremos que nos permitam que permaneçamos diferentes.

 

À força do trabalho de equipa que multiplica o resultado das associações de Bombeiros, desportivas, ambientais, sociais, de apoio aos jovens, incapacitados e idosos, cientificas e culturais e de promoção do desenvolvimento económico, quero exprimir o meu reconhecimento, modesto é certo, mas sentido, pois é no continuar desse trabalho que está uma grande parte da solução para elevar o bem estar e o desenvolvimento desta região que amamos sentidamente. Aos dirigentes dessas associações incentivo que continuem a Vossa independência, com a exigência e o rigor a marcar o rumo que defendem para os vossos projectos.

 

Continuemos o trabalho!