A CAIXA DE PANDORA

O paradigma da Imigração


Por:Paulo Barros Trindade

2015-06-03
A solução passa obrigatoriamente por uma estratégia de captação de pessoal noutras regiões do país, nomeadamente no Norte, onde a taxa de desemprego se mantém elevada e cujas populações estão habituadas a deslocaliz

Há vários anos que defendo a necessidade de uma estratégia de atracção de população para o concelho de Odemira, pois um território com 15 habitantes por Km2 nunca terá massa crítica suficiente para conseguir exigir do Estado Central os apoios necessários para o seu desenvolvimento e não terá mão-de-obra suficiente para atrair mais empresas para o território, condenando Odemira ao desenvolvimento próprio das regiões de interior, o que não deveria ser a realidade deste concelho. Em tom meio brincalhão, nomeei esta ideia de “Odemira 50.000”, referindo-me deste modo à necessidade de se procurar duplicar a população, ainda que o número não seja o mais importante e seja meramente indicativo (este número não é nada de novo, pois há 50 anos atrás Odemira tinha 44.000 habitantes).

 

Sejam mais 3.000, 10.000 ou 15.000, o facto importante a reter é que Odemira precisa de mais pessoas, pessoas com ideias que criem emprego e sustentabilidade e que ajudem na criação de um modelo de desenvolvimento que traga para esta terra o mesmo desenvolvimento que existe noutras regiões do país. Os Odemirenses não são menos portugueses que os Lisboetas ou os Portuenses, pelo que também temos o mesmo direito que todos os outros à qualidade de vida, ao equipamento público, às infra-estruturas públicas, como qualquer outra região do país.

 

Esta ideia ganha redobrada importância se tivermos em atenção o elevado número de imigrantes que se encontra a trabalhar nas empresas agrícolas de Odemira e que terá tendência a aumentar, com as inerentes dificuldades de adaptação e inserção na comunidade local. Esses imigrantes procuram, na sua maioria, juntar dinheiro suficiente para, muito legitimamente, melhorar a sua vida e a das suas famílias e voltar aos países de origem, pelo que não constituem nenhuma solução sustentável no médio-longo prazo.

 

A solução passa obrigatoriamente por uma estratégia de captação de pessoal noutras regiões do país, nomeadamente no Norte, onde a taxa de desemprego se mantém elevada e cujas populações estão habituadas a deslocalizar-se. O próprio governo central atribui subsídios para a deslocalização de pessoas de regiões de Portugal onde não têm emprego, para outras regiões onde este existe, como é o caso de Odemira. Se existe emprego disponível e incentivos à deslocalização, julgo que aquilo que está em falta é apenas uma estratégia concertada.

 

Já existe neste momento uma empresa de recursos humanos a seguir a opção da contratação de portugueses noutras regiões e outras a irão copiar.

 

É aqui que se torna obrigatório que a autarquia tenha um papel activo e, em vez de se limitar a promover reuniões e debates sobre o tema, favorecendo o aparecimento de iniciativas caridosas de apoio aos imigrantes, criando assim mais uns empregos sem sustentabilidade, apoiados como sempre pelos subsídios camarários, poderá realmente prestar um serviço importante à comunidade, ao promover em conjunto com outras entidades nacionais, como a Segurança Social, o Instituto do Emprego e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) uma verdadeira estratégia concertada de atracção de mão-de-obra portuguesa que se fixe permanentemente na região, resolvendo o problema da falta de população e da falta de mão-de-obra do sector agrícola (a necessidade de mão-de-obra temporária irá manter-se, continuando a existir necessidade de contratar imigrantes, mas esse fluxo pode ser reduzido substancialmente com esta solução).

 

Nesta estratégia a autarquia poderia ir ainda mais longe, promovendo inclusive o aparecimento de outras soluções de habitação, resolvendo com isto dois problemas. Refiro-me, por exemplo, ao que se passa no centro da Vila de Odemira, onde a desertificação é cada vez maior e onde cada vez mais edifícios estão devolutos. Em vez de a autarquia seguir a estratégia actual de adquirir edifícios no centro da Vila para permanecerem devolutos ou transforma-los para serviços, contribuindo ainda mais para a desertificação do centro (basta visitar Odemira no fim de semana para se perceber do que estou a falar), a estratégia alternativa que parece fazer sentido e que está baseada na atracção de nova população, poderia complementarmente passar por converter os edifícios adquiridos pela autarquia em habitação, a conceder em arrendamento ou noutro regime enquadrável na lei a famílias mais carenciadas, diferenciando positivamente os Odemirenses na corrida a essas casas e contribuindo para o renascimento do centro da vila de Odemira. Atrás dessa repovoação viria o comércio e teríamos novamente uma Vila viva e dinâmica.

 

Uma autarquia tem realmente o poder de mudar a vida das pessoas para melhor, pelo que não se pode demitir das suas responsabilidades em matérias tão importantes como esta. E o assumir dessas responsabilidades só é possível com uma verdadeira estratégia, com muita vontade de fazer e com o empenho de todos. Será a autarquia capaz de fazer isto? Para o bem de todos nós que vivemos em Odemira, esperemos que sim.