NA PRIMEIRA PESSOA

E depois do adeus


Por:Manuel Cruz

2015-06-03
Cravos Vermelhos floridos numa primavera de esperan├ža, deram cor e perfume ao Portugal Glorioso renascido no 25 de Abril de 1974

Pelas seis da madrugada de 25 de Abril de 1974, acordei, com os meus camaradas, em sobressalto, porque a sirene do quartel debitava decibéis que ensurdeciam.

 

Entre os espaços do alarme, na caserna, entrava uma voz nervosa que nos dava o aviso: “se houver tiroteio abriguem-se debaixo das camas”.

 

Era recruta há quatro dias no quartel de infantaria 7, em Leiria, e ainda nem me tinham distribuído o fardamento.

 

Começámos a ouvir o pequeno rádio a pilhas. As notícias eram poucas e só mais tarde, encontrámos a praça da parada e todo o quartel com um aparato bélico disposto a entrar em acção. Fomo-nos apercebendo de que algo importante estava a acontecer.

 

Os receios continuaram durante dois dias pois o comando não aderiu de imediato ao movimento das forças Armadas que iniciou a revolução.

 

Apesar dos meus 20 anos, de ter vivido na freguesia de S. Luís e antes do serviço militar ter ido uma única vez a Lisboa, já dispunha, da convicção de que algo estava para acontecer.

 

Trabalhava numa loja durante o dia e estudava à noite.

 

Durante as aulas com o professor António Gonçalves Gama, (grande opositor ao Estado novo com ideais e convicções comunistas. Viria a ser o presidente da Comissão Executiva do Concelho de Odemira pós 25 Abril) ouvíamos, nas emissões em português, a rádio Voz da Alemanha e a BBC, em Onda Curta, e discutíamos a situação politica.

 

Acordava com as emissões “Voz da Liberdade/Rádio Portugal Livre”. Ao ouvir as emissões no radio de pilhas secas, que o meu pai tinha conseguido comprar quando recebeu uma pequena herança pela morte do meu avô , emitidas de Argel, e que o meu pai ligava para ouvir as mensagens da Oposição política ao governo, fui despertando para a luta pela democracia.

 

Na loja, onde trabalhava, havia uma tradição republicana e por lá passavam as conversas contra a situação politica e lia-se o jornal “Republica”. Na biblioteca com obras de autores proibidos foram distribuídas listas da oposição para as eleições de 1969. Também pela loja passavam os viajantes que vendiam produtos e traziam informação, discutia-se o livro “Portugal e o Futuro” do Spínola, acompanhava-se o levantamento das Caldas da Rainha e as prisões dos militares que se sucederam.

 

Nesse tempo, amigos meus morriam em combate em Africa, outros fugiam para França à procura de uma vida melhor e não cumprir o serviço militar obrigatório, que os levaria para os horrores do Ultramar.

 

Tudo isto fez crescer em mim uma consciência cívica e democrática para o caminho que era urgente percorrer.

 

É indiscritível a emoção, a alegria e o contentamento que senti nesse memorável dia 25 de Abril de 1974.

 

Senti no meu coração que o desejo de viver em democracia tornava-se realidade. Estava para breve os dias da libertação, das grilhetas e do medo, da emancipação dos portugueses e das portuguesas. Um Mundo Novo a nascer, as prisões a abrir-se, os opositores do regime a sair em liberdade para continuar a a sua luta, por um Portugal democrático, pelo conhecimento, pela igualdade e pela  fraternidade.

 

 E o Povo saiu à rua e gritou para os militares “ Soldado Amigo o Povo Está Contigo” “Os Soldados São Filhos do Povo”  “Liberdade…Liberdade…Liberdade”  e consumou a revolução.

 

Enfim…

 

Nesse glorioso dia caiu uma ditadura que perdurou 48 anos e os cravos mudaram de cor!, “ de encarnados da vergonha e do medo, para vermelho da esperança da alegria e da fraternidade”.

 

E quando andam pela nossa terra lampejos do que o 25 Abril derrubou é muito necessário regarmos o jardim para que os Cravos não murchem e voltem a mudar de côr… e como diria o poeta “a liberdade continue a passar por aqui”.