A CAIXA DE PANDORA

A tentação do neo-feudalismo


Por:Paulo Barros Trindade

2015-06-03
Quem quer fazer algo nas “Terras do Senhor” e não se sujeita ao beija-mão e a todo o ritual de vassalagem encontra inúmeros obstáculos. É neste tipo de sistema que pretendemos viver? /br>

O papel das autarquias no desenvolvimento das comunidades locais do pós 25 de Abril, sobretudo nas regiões mais desfavorecidas, é uma das maiores conquistas de Abril, pois a descentralização do poder, com atribuição de novas competências às autarquias, aproximou a gestão pública das pessoas, tornando-a supostamente mais eficiente, efectiva e presente.

Mas, as máquinas partidárias que se foram estabelecendo e que têm desvirtuado o sistema democrático nacional e local, precisam de alimentar com tachos e tachinhos as hordas de boys e girls que se habituaram a viver do erário público, muito menos exigente do ponto de vista do mérito ou da capacidade profissional e muito mais dependente do seguidismo cego da cor partidária. Isto determinou que o modelo autárquico crie situações de caciquismo e de abuso de poder, com desvirtuamento dos princípios que presidiram à sua criação.

 

A diabolização dos políticos e o desgaste do conceito de causa pública, afastou da política pessoas bem preparadas, dando lugar ao aparecimento de gente das quartas ou quintas linhas, na sua maioria formada nas fileiras das jotas partidárias, com fraca ou nenhuma experiência de gestão e sem formação base credível, a quem nenhum empresário contrataria para director ou coordenador, por insuficiência de curriculum, mas que as máquinas partidárias conseguem eleger e a quem os cidadãos deste País, a nível central ou local, entregam dezenas e centenas de milhões de euros dos cofres públicos para gerirem num absurdo contra-senso.

 

A escassez de gente preparada e disponível para a causa pública, associada à forma feroz dos boys e girls se agarrarem aos seus lugares, lutando por aquilo a que chamam os seus postos de trabalho, uma vez que não sendo eleitos e sem ajuda partidária, cairiam no desemprego ou teriam de se contentar com um emprego compatível com a sua formação e experiência e portanto menos remunerado, faz com que os agentes autárquicos se eternizem nos lugares, facilitando o aparecimento do clientelismo e dos vícios de poder.

 

Estes fenómenos contribuíram para que algumas autarquias tenham evoluído para verdadeiros sistemas de base feudalista, em que os eleitos pelo povo se esquecem da obrigação e da razão da sua eleição e se convertem em senhores feudais, rodeando-se de vassalos, cumpridores escrupulosos das suas ordens e para quem sobra de vez em quando e sempre que necessário umas benesses que já nem procuram disfarçar, tal o sentimento de poder absoluto e de impunidade que impera. Ao melhor estilo feudalista, quem quer fazer algo nas “Terras do Senhor” e não se sujeita ao beija-mão e a todo o ritual de vassalagem, encontra inúmeros obstáculos erigidos directamente pelos ditos senhores ou por indefectíveis lugares tenentes.

 

Instala-se assim na sociedade local uma das principais bases do sistema feudal: o medo. O medo de falar, de criticar, de ter ideias diferentes. Criam-se redes de vassalagem, constituídas por entidades controladas e financiadas de forma engenhosa pelo erário público, onde se amontoam boys e girls e onde se instalam filhos, netos ou irmãos de elementos alegadamente não-alinhados, para comprar silêncios e reforçar a rede do medo. Mas não só. Tal como nos tempos medievais, hoje impera o medo entre aqueles que têm negócios, em especial os de base local, que ficam aterrorizados perante a possibilidade de perderem clientes, nomeadamente a autarquia, preferindo prescindir de direitos básicos como a liberdade de expressão.

 

E o medo é promovido através de agentes directos ou indirectos que passam subliminarmente os recados dos senhores, alertando para os perigos do desalinhamento. E alimentando-se do medo, o sistema vai ficando mais forte, mais consolidado, mais atrevido. 

 

Resta perguntar: é neste tipo de sistema que pretendemos viver? E como a cobardia também alimenta este sistema, não terá chegado a altura de dizer aquilo que há muito se repudia em surdina? De apontar os seus defeitos? De obrigar quem foi eleito a não esquecer que o foi para servir a comunidade e não para colocar a comunidade ao seu serviço ou dos seus apaniguados?

 

Infelizmente, caímos naquilo que designo de neo-feudalismo e que grassa um pouco por todo o lado.

 

Termino como comecei, falando de Abril e relembrando que Abril não é só festança e discursos ocos para o povo, para fazer esquecer tudo o que se prometeu e não cumpriu. Abril deu-nos o poder de escolher e de exigir resultados. Não elegemos políticos para se tornarem senhores feudais, elegemo-los para servir a comunidade local e melhorar a sua qualidade de vida. E devemos, todos os dias, exigir aos órgãos eleitos que não aceitamos menos do que isso, tomando nas nossas mãos a responsabilidade de os relembrar, com todas as formas ao nosso dispor, sempre que nos pareçam mais esquecidos.