NA PRIMEIRA PESSOA

Querer é Poder

“Só o conhecimento pode transformar o futuro”


Por:Manuel Cruz

2015-07-08
Em meados do mês de Junho de 1964, com dez anos, na escola primária da sede da freguesia, junto ao posto dos Correios, em S. Luís, fiz o exame da 4ª Classe

E concluí com êxito a aprendizagem, que na escola do Castelão, tinha iniciado no dia 07 de Outubro de 1960.

 

Tinha sido um estudante aplicado e a minha professora achava que poderia ter êxito em estudos futuros pois apresentava uma capacidade de trabalho e inteligência interessantes.

 

Os meus pais concordavam com a professora, mas… em 1964 o ensino público, além da 4ª.classe, não era para todos e não estava disponível nas pequenas localidades. Ir para Odemira, para o colégio particular, ou para Beja, para o liceu, era algo que a sua situação económica não permitia.

 

A aprendizagem passou a ser, desde o dia 29 do mês de Agosto desse ano, o trabalho. Iniciei nesse dia o meu percurso profissional e a frequência da escola da vida, o que até hoje a saúde e trabalho, só interrompido pelo serviço militar, permitiram.

 

Mais tarde, quando atingi os dezoito anos, voltei ao contacto com os livros escolares e à noite, depois do dia de trabalho, voltei a estudar.

 

O senhor Eliseu, carteiro dos CTT em S. Luís, o José Manuel, meu colega caixeiro numa loja da aldeia, a Barbinha Fortunato, a Lidinha Oliveira e a Laurinha Bernardo, foram os meus colegas nessa aventura de querer saber mais. A Rosarinho Serralha, uma jovem professora do ensino primário, natural da aldeia, tinha sido colocada numa escola da freguesia. Preocupada com o ensino, predispôs-se a dar-nos explicações e a preparar-nos para efectuar o exame. Nesses tempos, os adultos podiam auto propor-se a exame mas tinham que fazer exames conjuntamente com os jovens e as provas decorriam na sede do distrito em Beja.

 

Eram tempos muito diferentes dos dias de hoje. A casa onde vivia não tinha electricidade e o estudo dos trabalhos de casatinha que ser feita à luz de um candeeiro a petróleo, o que dificultava aquela aventura. No comércio onde trabalhava entrava-se às 09 horas e saía-se às 20 horas nos dias de semana e ao Sábado entrava-se às 09 horas e saía-se às 23 horas e só a grande ajuda dos patrões, que foram verdadeiros amigos, ao permitir os livros em cima do balcão e o estudo quando não havia clientes, tornou possível ter êxito.

 

Esse momento de voltar a sentir os livros foi importante pois permitiu retomar o gosto e o seu sabor , com a ambição de mais conhecer. O conhecimento transforma as pessoas; o saber dá competências; estas criam condições de transformação dos percursos profissionais; por sua vez, estes permitem ganhar valor económico, este é tão importante para poder adquirir mais competências e também ajudar os filhos para que, sem percalços, possam adquirir as suas formações a seu tempo.

 

Pensando que o “querer é poder” e que todos têm o direito à aprendizagem e acesso ao conhecimento e, como consequência, a uma vida digna com sucesso, gostaria de olhar nos olhos de todos aqueles que desistiram desiludidos com alguns insucessos nos seu percursos escolares e dizer-lhes, de coração aberto, que eles são capazes e tudo ainda está ao seu alcance, nunca sendo tarde para retomar à escola.

 

E para que tudo esteja ao seu alcance é preciso que estejamos também disponíveis, dentro do conhecimento e dos meios de que possamos dispor, para que tenham os equipamentos, os espaços e os meios de ajuda a que possam acorrer nesse seu trabalho de aquisição de conhecimento e saber, quero dizer presente.

 

 Olhando para trás podemos dizer que, com o 25 de Abril, se democratizou o ensino e o acesso se universalizou. Hoje o ensino obrigatório chegou ao 12º ano e a Universidade está mais acessível. Todos temos à mão um conjunto de espaços escolares, desde o pré-escolar ao ensino secundário do ensino regular e uma escola do ensino profissional. Mas se olharmos para as estatísticas somos confrontados com a perturbante e impiedosa realidade. O Concelho de Odemira não descola e tem os piores índices de sucesso dos concelhos do litoral alentejano e do país (...).

 

O que certamente é o reflexo das políticas sociais implementadas e da falta de atenção que os responsáveis concelhios tem dado à escola e ao conhecimento dos cidadãos deste nosso concelho. No tempo do Salazar queria-se o povo sem conhecimento para melhor o oprimir. E , em democracia, qual será a razão?

 

É tempo de cerrar fileiras e dizer não ao obscurantismo. É urgente adquirirmos formação e conhecimento para garantir um futuro com dignidade e progresso. Está na hora de exigir ao poder um olhar para o problema, um levantamento das razões e das carências, exigir que se dê ao ensino os meios que levem ao sucesso e que invertam essa realidade, pois, como diria o poeta, “amanhã pode ser tarde de mais”.

 

“Só o conhecimento pode transformar o futuro”