na primeira pessoa

Contra Ventos e Marés

Venceu o “Vamos Experimentar”


Por:Manuel Cruz

2015-09-02
O Verão deste ano trouxe-me à memória os dias de calor à antiga, que há anos não acontecia

Proporcionou-nos dias de calor que se estendeu pela noite, convidando a deambular pelas ruas, a descansar nas esplanadas, bebericar refrescos no convívio com os amigos, observando a múltipla mistura de gentes, de raças e línguas diferentes, revelando a importância da região como ponto de encontro de civilizações.

 

Ouve-se frequentemente, na conversa com veraneantes ou com comerciantes, que o verão na Costa Alentejana já não é o que era. As férias têm encurtado e a crise obrigou os veraneantes a usufruir das nossas praias por períodos cada vez menores, reduzindo os gastos no descanso e no laser. O período de veraneio passou de três meses para poucos mais do que o mês de Agosto. De facto, está muita gente nas praias durante Agosto. Estão muitos turistas no concelho.

 

O turismo é uma das actividades importantes na economia do concelho. Importa dar-lhe atenção e tudo fazer para que cresça, crie valor, emprego efectivo, sustente investimentos e permita que outros investimentos venham enriquecer a oferta e que se multipliquem, criando valor no concelho.

 

A “Rota Vicentina”, tem contribuído para valorizar e internacionalizar o “turismo natureza” trazendo à região novos visitantes quebrando o ciclo sazonal do tradicional “Sol e Praia” com iniciativas que vieram adicionar valor ao turismo do concelho.

 

Os Produtos Turísticos ligados, aos Passeios a Cavalo e de Bicicleta e a Pesca Desportiva têm trazido novos turistas à região e têm grande possibilidade de crescimento, e estão a deixar valor na região.

 

O Festival Sudoeste tem contribuído para o conhecimento da costa do concelho, nomeadamente da Zambujeira do Mar, quer pelos festivaleiros que passam pelo recinto e pela região, quer pela publicidade da sua divulgação. Diz-se que este ano estiveram 180.000 (?) almas, número que acho exagerado, mas como a alma é invisível… Mas posso escrever, sem receio de errar, que estiveram presentes dezenas de milhar de amantes da musica, logo muita gente, e muito jovem.

 

Passados todos estes anos, está na hora de fazermos o balanço e reflectirmos para que lado da “balança” pende o resultado. Dum lado colocando o reflexo positivo para o concelho, nomeadamente na economia e no emprego local. Do outro os aspectos e impactos negativos e os interesses externos ao concelho. Devem ser reflectidas as situações de desigualdade de tratamento que favorecem a empresa que explora o festival (redução de taxas e alocação de meios públicos municipais), em comparação com os outros operadores turísticos do concelho. Para a reflexão: o campismo do festival justifica ter tantos dias? Será que tem as mesmas condições de segurança a que se obrigam (e bem) os parques de campismo do concelho? Nos dias do festival, os parques do concelho, que fizeram investimentos notáveis e têm níveis de grande qualidade, tinham menos de 50% da sua capacidade de instalação de tendas, e sentiram uma concorrência desleal. E a recolha de lixo e taxa de resíduos que os parques contratualizam e pagam ao município como é taxada à empresa do festival?

 

Aplicando critérios de razoabilidade e bom senso, não se deveria sobrelotar o espaço improvisado para os campistas, permitindo-se apenas o espaço campista previsto na lei. Essa medida permitiria a dispersão de alojamento pelos parques de campismo do concelho, ficando por cá algum do dinheiro dos gastos dos amantes do festival. Os investimentos deste sector estão dependentes das receitas do mês de Agosto, daí a importância que esses potenciais clientes têm para a sua subsistência.

 

Sou a favor da realização do Festival, e se ele existe foi porque, contra “ventos e marés”, dei a cara e empenhamento por ele, enquanto vereador do município de Odemira, com os pelouros da cultura e do turismo.

 

Foram momentos difíceis, enfrentando manifestações, com a sala de reuniões do município completamente cheia de munícipes, argumentando contra o festival e o perigo que este traria na contaminação dos nossos jovens. De referir que outros promotores também apresentaram projectos de realização de festivais, nomeadamente com propostas de localização na barragem de Santa Clara a Velha.

 

Achei a proposta interessante e defendi, junto dos meus camaradas na Câmara, que valia a pena experimentarmos. A proposta apresentada continha a intenção da realização ano sim, ano não e que a actividade de apoio ao festival se destinava aos empresários e à economia local, a exemplo do que, disseram, à altura se verificava no festival de Vilar de mouros.

 

Comprovou-se que os receios eram infundados e que foi bom termos tido a ousadia de experimentar, e o êxito do promotor levou-o à realização do festival todos os anos. Mas também se comprovou que a possibilidade de benefício dos empresários locais foi rapidamente substituída pelo beneficio do promotor e outros de fora. Grandes músicos mundiais passaram pelo concelho de Odemira.

 

Realço a escolha diversificada das bandas que atraíam ao festival públicos heterogéneos com música para jovens, adultos e seniores. Mas nos últimos festivais esse critério foi-se alterando. E hoje? Ainda é assim? Outras modas, outros públicos são alvo dos promotores, certamente não menos louváveis, até porque pudemos apreciar a generosidade dos muitos jovens que, à saída do festival, doaram à “PLAS” os alimentos (cerca de meia tonelada) que não consumiram. Mas apesar destes factores positivos, o interesse do concelho e da região encaixam no período escolhido?

 

Pergunto-me: na data em que se realiza acrescenta valor à economia da região? Fica cá alguma coisa relevante além da possibilidade de ver concertos?

 

Lanço o desafio ao executivo do município, para que, com tempo, se faça uma reflexão, também com o promotor, sobre todos estes anos de festival. Não deixando, à partida, de dizer muito claramente que não aceito as ameaças, por parte do promotor, de relocalizar o festival noutro concelho, pois facilmente o substituímos por outro.

 

É altura de exigir ao promotor que o Festival saia do mês de Agosto, pois o Festival também tem que ser um produto que acrescente valor à economia existente no concelho.

 

O turismo não resolverá todos os problemas que a nossa economia enfrenta, mas, pela sua importância, pode dar um grande contributo. É urgente a valência de um Hotel, de 4 ou mais estrelas, que complemente a oferta à grande qualidade da valência turística em espaço rural, de apartamentos turísticos e alojamento local. Seria relevante para o sector a construção de uma Marina no estuário do Mira, ou atlântica, quiçá, na pequena baía junto ao porto de pesca de Vila Nova de Milfontes ou noutro local abrigado da nossa costa marítima.

 

“Contra Ventos e Marés” continuemos a luta pela criação de valor e emprego no sector.