DE QUEM É O OLHAR

Bandeiras, ideologias

Limites do pensamento


Por:Monika Dresing

2015-09-02
Há algumas semanas assisti a uma discussão na rádio e a certa altura uma senhora disse: -Eu sou benfiquista, não percebo nada de futebol, mas sou benfiquista.

Fiquei muito espantada com esta afirmação. Porque é que esta senhora sente a necessidade de fazer uma escolha entre grupos desportivos para se integrar num deles quando não se interessa pelos objectivos destes grupos? Será que toda a família sempre foi benfiquista e ela assumiu naturalmente esta posição sem pensar no significado ou não-significado desta escolha?

 

Lembrei-me da minha infância. Nos primeiros anos da minha vida vivemos no norte da Alemanha onde quase toda a gente era protestante. Na pequena aldeia onde vivíamos havia uma família católica. Achei a filha, que andava na escola comigo, um pouco esquisita, diferente, ela até usava brincos ... Não me lembro se alguma vez falei com ela. Depois passámos a viver numa cidade maioritariamente católica e quase de imediato aprendi que na realidade não havia diferenças entre as crianças católicas e protestantes. O novo ambiente abriu novas hipóteses de pensamento.

 

Quando vivi em São Luís, duas senhoras costumavam visitar-me de vez em quando. Uma delas disse que era socialista, a outra que era comunista. Às vezes acontecia que uma das senhoras entrava em minha casa quando estava lá a outra. Aquela que tinha chegado primeiro fugia logo como se tivesse visto o diabo. Tenho a certeza que nenhuma delas sabia o que significava ser-se socialista ou comunista, mas para elas tudo o que estava fora do seu “grupo ideológico” era terreno inimigo.

 

Todos nós nascemos e crescemos num certo ambiente ideológico, num sistema de pensamentos e ideias mais ou menos fechado.

 

Em criança ou jovem não somos capazes de ver que existem outros sistemas de pensamento, piores ou melhores, mas sempre tão válidos como o nosso para as pessoas que crescem neles. 

 

Depois, em adulto, ficamos capazes – deveríamos ficar capazes – de ver que todos os sistemas de pensamento se desenvolveram ao longo da história de cada sociedade (família, grupo religioso...), sendo quase sempre a expressão das relações de produção dominantes e não de “valores globais”. Num país socialista as pessoas crescem com outra convicção sobre os valores importantes da sociedade do que as pessoas que vivem num país capitalista. Só quando tentamos ultrapassar os limites do nosso “sistema” concreto, podem abrir-se novos caminhos para as soluções dos problemas da sociedade, diferentes daqueles que nos são transmitidos todos os dias por grande parte da comunicação social, também ela presa da ideologia dominante.

 

Antes de discutirmos temas políticos ou sociais, antes de votarmos nas eleições deveríamos sempre ganhar consciência sobre a nossa própria ideologia. Que sociedade é que queremos ter? Uma sociedade social, solidária, com poucas desigualdades, mas com maiores custos para os contribuintes? Uma sociedade em que grande parte da riqueza produzida fica em mãos privadas ou uma sociedade em que esta riqueza é redistribuída? Uma sociedade que aposta mais e mais na iniciativa privada ou uma sociedade que promove uma vida comunitária? Há muito mais perguntas, mas no fundo todas elas levam à pergunta essencial: Quem deveria dispor das riquezas produzidas, as pessoas privadas ou toda uma sociedade? 

 

No entanto, existe um grande obstáculo que muitas vezes impede o olhar para além dos limites do nosso pensamento: o medo. Um medo confuso de perder o que temos, perder o que conhecemos, perder a segurança. Só que hoje em dia é muito urgente ultrapassarmos este medo porque os problemas à nossa frente são cada vez maiores e globais e a “segurança” não existe. Já não podemos continuar a pensar em estruturas antigas. Temos que sair das limitações ideológicas e desenvolver novas visões. Há muito para ganhar.