NA PRIMEIRA PESSOA

Nunca de Tantos Votaram Tantos em Tantos

primeira eleições livres


Por:Manuel Cruz

2015-10-09
Preocupa-me o alheamento de muitos eleitores (43,07 %) e as razões que os leva a não votar

25 de abril de 1975, Primeiras Eleições Livres para a Assembleia Constituinte da República Portuguesa depois de decorridos cerca de 50 anos de ditadura do Estado Novo.

 

Cumpria o Serviço Militar Obrigatório no Quartel do RAAF em Porto Brandão, juntinho à margem sul do rio Tejo.

 

O quartel estava de prevenção pois era dia de eleições. Apesar disso foi programada a saída dos militares para que pudessem exercer o seu direito cívico de votar. Por grupos, nas Berliet´s do exército, rumámos à Escola da Sobreda para exercermos, pela primeira vez, esse direito. Naquela manhã, ao chegarmos junto das Assembleias de voto, deparámo-nos com um mar de gente que em longas filas esperavam pela sua vez. Respirava-se um ar de felicidade e paz, que se reflectia na ordem, respeito e paciência, com que todos esperavam pelo momento de dizer presente e realizarem, em plena liberdade, o sonho de contribuírem para a escolha dos deputados, seus representantes na Assembleia da República.

 

Senti, com um contido orgulho, estar a presenciar e a participar nesse momento histórico da nossa cidadania. Emergia em mim uma alegria imensa ao constatar que a liberdade estava a consolidar-se no país.

 

O boletim de voto, entregue, com um sentimento de muito respeito e responsabilidade, um documento repleto de valor solene, continha um grande número de símbolos representativos dos Partidos políticos concorrentes.

 

Para garantir que não fosse perturbado o direito de reflexão e uso do direito de votar, o Governo Provisório decretou que todos os estabelecimentos comerciais ou de serviços fechassem e que não fossem permitidos quaisquer eventos de animação.

 

Apurados os resultados, apraz-me recordar com saudade, a frase inscrita numa medalha criada para comemorar esse dia: “Nunca de Tantos votaram Tantos em Tantos”. Nessas eleições estavam inscritos 6.231.372 eleitores e votaram 5.711.829, ou seja 91,66% (facto digno de registo) escolheram os seus representantes entre 12 partidos candidatos de Portugal Continental e 2 de Macau. 7 Partidos elegeram deputados que se sentaram na Assembleia da Republica, da esquerda para direita: UDP- 1, PCP- 30, CDE-5, PS-116, PPD-81, CDS-16, CDM-1.

 

Passados 40 anos desse momento, este fim de semana decorreu mais um acto eleitoral para a Assembleia da República.

 

A nossa democracia cresceu e consolidou-se e entretanto tanta coisa também mudou.

 

O dia das eleições, apesar de continuar a ser ao Domingo, é hoje um dia normalíssimo, veja-se que até futebol, que arrasta multidões, se jogou neste dia.

 

As propostas de programas partidários evoluíram de propostas individuais. Hoje existem também propostas de coligações de partidos.

 

Comparando estes dois marcos constatamos que hoje o número de eleitores cresceu muito, para 9.439.711 inscritos. E também a  possibilidade de escolha aumentou em número de listas com programas e propostas politicas variadas de 17 partidos ou coligações.

 

5.374.343 eleitores votaram. Do apuramento, ainda provisório por faltar o resultado dos círculos da emigração, resultou a eleição de 226 deputados representantes de 6 Partidos ou Coligações que terão assento na Assembleia da Republica: B.E. – 19 , CDU-17, PS – 85, PPD/PSD-CDS/PP – 104, PAN-1 + (falta atribuir 4 mandatos).

 

Dos resultados, ressalta uma situação que reflecte um problema, que me intriga e preocupa, podendo ser um sintoma de debilidade ou de desilusão da pratica partidária da democracia. Preocupa-me o alheamento de muitos eleitores (43,07 %) e também as razões que os leva a não participar na votação.

 

O voto, cujo direito de o exercer levou a que muitos lutassem durante muitos anos e alguns até por ele dessem a vida, é o meio de escolha da política que pretendemos para o país, deveria ser exercido e ninguém civicamente responsável deveria  excluir-se.

 

Podendo até, não encontrando no vasto leque partidário resposta para o que ambicionam para o país, ou se sentem desiludidos com o resultado da utilização em actos eleitorais anteriores do seu voto, votassem nulo ou em branco, mas exercendo o direito de participação - o principal acto que reflecte a saúde da democracia.

 

Sinto que os partidos também têm responsabilidade, pelos seus actos ou omissões, pelo alheamento dos cidadãos ao exercício da politica. Mas a obrigação de cidadania obriga-nos à reflexão e ao empenhamento. Ajudando, dentro ou fora dos partidos, com responsabilidade, e contribuindo para que tenhamos um país melhor e uma democracia saudável e participativa.

 

Democracia e Liberdade Sempre.