DE QUEM É O OLHAR

A marcha (in)evitável

Nenhum ser humano é ilegal


Por:Monika Dresing

2015-10-09
Estes refugiados não são aventureiros, mas sim pessoas que fogem duma realidade que não lhes dá hipóteses de sobreviver nos seus países

FOTO: UNHCR / I. Prickett

 

A Marcha (The March) é um filme de ficção produzido pela BBC em 1990. Neste filme, as pessoas a viver num campo de refugiados no sul do Sudão, que tinham fugido da miséria nos seus países, pedem à União Europeia alterações significativas em relação a ajuda e cooperação. Chegaram à conclusão: - Nós somos pobres porque vocês são ricos. E perante a falta de acção do lado da UE decidem caminhar até a Europa para a Europa as ver morrer. Acreditam que os europeus não iam deixar isto acontecer, que assim podiam atingir os seus objectivos, ou seja, uma forma de cooperação económica mais justa. O filme termina quando as pessoas – 250.000 – chegam a uma praia no sul da Espanha onde são recebidas por soldados com espingardas e tanques.

 

Este filme visionário descreve a realidade que hoje estamos a viver. Eles vêm às centenas de milhares: por um lado os refugiados das guerras que nós, os europeus e outros países ricos, de uma ou outra forma provocámos ou influenciámos, fornecendo armamento, subsidiando ditadores, aprofundando diferenças étnicas, e sempre à procura de vantagens económicas. E por outro lado os eufemicamente chamados refugiados económicos, pessoas que para além da própria vida já não têm mais nada a perder. São pessoas que “ganham” menos de um euro por dia, cujos filhos “brincam” em lixeiras cheias de lixo tóxico, que bebem água poluída... pessoas que estão a sofrer as consequências da economia global que está fora de controlo.

 

Se nada mudar, estes refugiados, sejam eles refugiados de guerras ou de miséria, vão continuar a chegar à Europa, e vão ser cada vez mais. Não são aventureiros, mas sim pessoas que fogem duma realidade que não lhes dá hipóteses de sobreviver nos seus países.

 

Portanto, o que fazer? Deixá-las morrer? Esta frase parece muito cínica, no entanto, é o que está a acontecer. 5,9 milhões de crianças até aos cinco anos morrem anualmente, metade delas devido à subnutrição. Ficamos gravemente afectados por números deste tipo? Imaginamos o que isto significa para cada pessoa em concreto? A foto duma criança morta numa praia do Mediterrâneo chocou todo o mundo. E todos os outros milhares que morrem afogados sem serem fotografados? Sejamos honestos: conseguimos muito bem fechar os olhos e ouvidos perante esta enorme catástrofe.

 

Portugal faz parte da Europa que tem de encontrar soluções. E faz parte do sistema económico global que leva a estas desigualdades horríveis. O que se está a passar à escala global – o hemisfério norte rico contra o hemisfério sul pobre – repete-se na Europa – os países do norte contra os países do sul – repetindo-se igualmente em cada país. As desigualdades estão a crescer em todo o lado. Na própria Alemanha há milhões de pessoas que não conseguem viver do seu emprego, pessoas que recebem subsídios do estado, comida do banco alimentar, que não conseguem pagar a renda da casa, luz, água, etc. E são cada vez mais. Nunca antes vi lá tantas pessoas mexer nos caixotes de lixo, muitas vezes pessoas “como nós”, não apenas os sem-abrigo.

 

Mais uma vez: O que fazer? Sentimo-nos impotentes, mas há sempre alguma coisa que se possa fazer: p.ex. lutar contra as desigualdades existentes no nosso país, pressionar os políticos, nacionais e europeus, para mudarem de atitude em relação aos refugiados e para alterarem a política económica. E mais concreto: preparar já a chegada dos refugiados e a sua integração, começando com os imigrantes que já cá estão. Surgiu a ideia de formar uma orquestra internacional, sendo a música a língua em que todos podem comunicar. Boa!

 

Neste momento existe o perigo real da Europa se desmoronar com um possível ressurgimento de xenofobia e racismo. Não deixemos isto acontecer! E não esqueçamos: Nenhum ser humano é ilegal!