A CAIXA DE PANDORA

A maleita do baixo alentejanismo

o eleitoralismo traz esta doença


Por:Paulo Barros Trindade

2015-10-09
Odemira só ganharia ligando-se à dinâmica do litoral alentejano e de Setúbal e só não se liga porque as razões eleitoralistas falam mais alto

Caros leitores, tenho de vos fazer um aviso prévio: estou a escrever esta crónica a 12.000 m de altitude, dentro de um cilindro voador a abarrotar de gente e com o ar condicionado meio avariado, pelo que admito que a altitude e o calor possam vir a afectar os meus filtros sociais e aguçar o espírito irónico que mora em mim. De qualquer forma arrisco, mais não seja para que o meu vizinho do lado, alemão pelo que me parece, se entretenha a olhar por cima do meu braço a tentar adivinhar que raio escrevo eu com tanto fervor, contribuindo assim para o afastar do tédio da viagem. Se fosse escuteiro já estaria a atar um nó no lenço por esta boa acção.

 

Enfim no domingo votámos, soubemos os resultados e agora vamos ver o que isto dá. Fiquei muito feliz por assistir a uma nova fase da nossa evolução como sociedade. Estamos finalmente a afastarmo-nos do estigma de desgraçados, de tristes, do povo do fado. Na noite das eleições assistimos a uma vitória generalizada de todos os partidos - todos vieram cantar-nos a sua vitória na noite eleitoral ao melhor estilo dos Lusíadas, envoltos na maior glória. Transformar uma derrota vergonhosa numa vitória, é um feito histórico.

 

Bem, mas o tema desta crónica não é propriamente as eleições ou o rescaldo destas. Esse já foi feito e continuará a ser feito horas a fio nas televisões, rádios e jornais portugueses por gente muito mais habilitada para o fazer do que eu. O tema que trago este mês poderia confundir-se com uma doença (ou quem sabe se não será mesmo) e é o baixo alentejanismo.

 

Nunca ouvi um alentejano de Portalegre dizer que era nordeste-alentejano, ou um alentejano de Alcácer do Sal dizer que é litoral-alentejano, ou um alentejano de Évora dizer que é central-alentejano. Deus nos livre. Mas em Odemira querem obrigar-nos a ser baixo-alentejanos. Não basta ser alentejano, querem que sejamos duma estirpe diferente, de uma espécie de elite dentro do restante rancho de compadres. Ora, por nenhuma razão encontro justificação para que queiram à força colocar aos Odemirenses o carimbo de baixo-alentejanos. Pessoalmente até me parece ofensivo – com o meu mais de metro e oitenta não quero ser apelidado de baixote por nenhum Pinhal Litoralense, Baixo Vouguense ou Península de Setubalense, dos que se espalham por este País (sem esquecer os  Dão-Lafoenses e os Médio-Tejenses), que perante tão acérrima defesa dos baixo-alentejanos também quererão com certeza afirmar a sua origem NUTsiana.

 

 

Agora a sério, Odemira só é lembrado em Beja quando há eleições. Somos uma espécie de enclave, como Cabinda, em que somos esquecidos por Beja, que não quer saber de nós nem no Verão, quando migra em força para Monte Gordo e pelo litoral alentejano, que tem os outros 4 concelhos ligados à dinâmica de Sines e Setúbal e portanto pouco se importa connosco cá em “baixo”. O que é uma infelicidade, digo eu, porque Odemira só ganharia ligando-se à dinâmica do litoral alentejano e de Setúbal e só não se liga porque as razões eleitoralistas falam mais alto.

 

Também o eleitoralismo nos traz esta doença do baixo-alentejanismo, que felizmente parece-me estar circunscrita a um pequeníssimo grupo de iluminados. Se calhar o estarem iluminados já será um sintoma da doença, Deus nos livre.

 

Só o dividir para reinar, o caciquismo das capelinhas se lembraria desta. O Alentejo com uma área correspondente a um terço do País, tem cerca de 727.000 habitantes (se não considerarmos os concelhos do Ribatejo que foram integrados por questões de acesso aos fundos comunitários), tantos quantos os que moram em apenas 3 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa – Sintra, Amadora e Loures. E agora há quem queira afirmar apenas uma fatia do Alentejo, para que em vez de podermos comparar-nos com concelhos, possamos começar a ser comparados com os bairros existentes nesses concelhos – toda a população do Baixo Alentejo corresponde a 1/3 da população que reside no concelho de Sintra, ou seja, corresponde a pouco mais que uma dúzia de bairros. Acham que algum governo central se preocupa com os problemas específicos do bairro X ou Y? Então porquê preocuparem-se com os problemas do bairro baixo-alentejano? Qual a vantagem? Estarmos orgulhosamente sós para podermos ser mais facilmente encaminhados para o ovil?

 

Caros leitores, não sei o que pensam disto, mas sugiro-vos que reflictam. Os tempos de aceitarmos tudo aquilo que nos põem a frente já lá vão. 

 

Por mim, recuso-me a ser baixote-alentejano. Fico-me apenas pelo simples alentejano.