DE QUEM É O OLHAR

Viva a Cultura

Por Monika Dresing


Por:Monika Dresing

2015-11-06
Desde o “princípio do mundo” que a expressão artística faz parte da vida humana

Desde o “princípio do mundo” que a expressão artística faz parte da vida humana, quer dizer, existiam sempre actividades, para além do trabalho necessário para a sobrevivência, em que as pessoas queriam exprimir pensamentos e sentimentos. Parece ser uma necessidade da nossa espécie.

 

Quando passei a viver neste concelho de Odemira, nos anos oitenta, havia poucas actividades culturais em que os habitantes podiam participar activamente. Havia dois ou três grupos corais tradicionais, grupos de homens que, por assim dizer, já não eram muito jovens e que na altura não conseguiam captar o interesse das gerações mais novas. Nalgumas tascas mantinha-se ainda a tradição das cantigas improvisadas acompanhadas por viola campaniça ou acordeão, uma tradição que depois foi desaparecendo, embora tenha ressurgido nos últimos anos. E em 1989, foi fundada a banda filarmónica de Odemira, tanto quanto sei o único grupo instrumental. E mais? Não me lembro de mais nada.

 

Participar activamente em iniciativas culturais é muito satisfatório: dá força, faz bem à saúde mental, dá alegria, enriquece a vida

 

Depois, nos anos noventa, veio o Teatro ao Largo que durante vinte anos levou a arte do teatro a todas as povoações. Nunca me vou esquecer da primeira peça que vi no sítio do Cavaleiro. Quando o espectáculo começou, havia pouca gente nos bancos. Alguns habitantes preferiram olhar através das portas semifechadas, numa mistura de curiosidade e medo das coisas desconhecidas. Deve ter sido semelhante em muitos outros lugares. Mas logo depois tudo mudou, a chegada do Teatro ao Largo tornou-se num evento a não perder em todos os sítios do concelho. O espaço nos bancos já não era suficiente para tantas pessoas. Eram sempre momentos de grande alegria para toda a gente.

 

E pela actuação deste teatro itinerante foram-se espalhando muitas sementes. Hoje existem não sei quantos grupos de teatro neste concelho. Dezenas de pessoas de todas as idades tornaram-se actores amadores, descobrindo dentro de si forças e capacidades novas, ganhando autoconfiança, perdendo o medo de agir. Fazem igualmente a experiência de actuar num grupo, com todas as dificuldades e vantagens inerentes ao trabalho em grupo, uma experiência muito importante numa sociedade democrática.

 

Além dos grupos de teatro, há agora muitas outras iniciativas culturais onde as pessoas podem participar activamente: Há vários grupos musicais onde os jovens (e não só) podem estudar música, aprender a tocar instrumentos, tocar em conjunto. Existe a associação dos artistas plásticos Sopa dos Artistas que dá suporte aos artistas locais, promovendo também uma colaboração internacional. Há cursos de pintura. Formaram-se vários coros de música tradicional e/ou música internacional. Está em curso a formação duma orquestra internacional. Existe a associação cultural Fábrica das Artes, ponto de partida para as actividades mais variadas. Recuperou-se a tradição das marchas. Existem muitos grupos de dança, etc., etc.

 

Quase todos estes grupos nasceram sem incentivo vindo “de cima”. Foi a vontade e a energia de certas pessoas que mudou a realidade, pessoas estas com sonhos e projectos que correspondiam à vontade de muita gente. E ainda há espaço para mais ideias e iniciativas, a cultura tem muitas outras vertentes além da música, do teatro e da arte plástica: literatura, poesia, culinária, artesanato, costura... é só começar e falar com os outros. Participar activamente em iniciativas culturais é muito satisfatório: dá força, faz bem à saúde mental, dá alegria, enriquece a vida. Assim podemos conhecer mais pessoas, fazer novas amizades, alargar os horizontes, tudo isto tão importante para uma boa vida, para nós próprios e para os outros.