NA PRIMEIRA PESSOA

Mas se está tudo aqui tão perto...

Por Manuel Cruz


Por:Manuel Cruz

2015-11-06
As distâncias não são importantes; importantes são existirem os meios para as percorrerem

Recordo quando tinha 9 anos e morava no Castelão, freguesia de S. Luís, e todos os anos, a 7 de Outubro, ocorria um evento, importante na vida dos meus pais, que me encantava e enchia de alegria, assim como ao meu irmão.

 

Na véspera, os quatro, logo pela manhã, caminhando pé ante pé, descíamos pelas veredas, por entre o montado de sobreiros, até à Ribeira do Torgal. Um tronco de madeira ligava as duas margens da ribeira e com muito cuidado, para manter o equilíbrio, lá transpúnhamos aquele obstáculo. De seguida descansávamos um pouco. Recomeçando a jornada subíamos, em terreno aberto, trilhando os caminhos até à portelinha e entrávamos na charneca dos Ameixiais. Com metade do caminho andado, iniciávamos a descida até à ribeira do mesmo nome. Lá chegados, encantados com o rebuliço da fauna da ribeira, onde se podia ver peixes, cágados e aves, subíamos a sua margem esquerda até à casa do meu tio Manuel, lavrador na herdade dos Ameixiais do Meio, onde pernoitávamos o que nos permitia, a mim e ao meu irmão, o contacto com os animais existentes. Em rebuliço, corríamos atrás das cabras, ovelhas, porcos e vacas e tentávamos apanhar as galinhas, perus e pavões. Que graça achávamos às cores brilhantes desta espécie e logo descobríamos penas lindas com que depois enfeitávamos as cintas dos nossos chapéus.

 

Na manhã seguinte ansiosos passávamos pelos Cabaços, comíamos figos duma enorme figueira, propriedade do meu pai e continuando chegávamos a casa da minha tia Maria. Estávamos na feira de Vale Ferro, a terra do meu pai. E como era bela e encantadora aquela feira onde tudo se vendia e comprava e animação não faltava.

 

No terceiro dia enfim…. vínhamos embora percorrendo o trajecto mais directo para casa.

 

Nada que se comparasse com o que a minha mãe nos contava: dizia que quando era nova ia, com os seus pais, vender animais à feira de Garvão ou da Abela e eram necessários 8 dias com pernoitas debaixo das carretas de bois. Mas de verdade eram precisos apenas três dias para tão importante jornada.

 

Como o tempo passou. Com ele chegou o transporte público para todo o lado. Todas as feiras e mercados tiveram direito a “camioneta” que levava as pessoas para a feira e depois retornava-as a casa. O expresso chegou e leva e traz, num só dia, pessoas a Lisboa. O homem chegou à lua. Coisas do progresso e de um serviço de transportes ao serviço de todos.

 

O desenvolvimento económico das famílias proporcionou-lhes o transporte individual, este substituiu o público e hoje a mobilidade no concelho, para quem não tem o seu próprio transporte está a retornar àqueles tempos que recordo da minha infância.

 

Hoje, a oferta dos transportes públicos, ferroviários ou rodoviários, é escassa. Fecharam estações dos comboios e o transporte rodoviário entre as freguesias do concelho pouco mais oferece que o transporte escolar.

 

As acessibilidades e a mobilidade são factores fundamentais para o desenvolvimento integrado do concelho. O interior tem que aproveitar as oportunidades que o litoral oferece. A mão-de-obra existente nas nossas aldeias tem o direito de poder ir trabalhar ao litoral e regressar ao lar depois da jornada de trabalho. Os Odemirenses que tiveram de procurar trabalho noutras paragens têm o direito de poder regressar.

 

As actividades agrícolas, florícolas ou frutícolas nos campos da charneca do Mira, irrigados com a água da barragem de Santa Clara-a-Velha, estão plenos de fertilidade produzindo alimentos, de grande qualidade, que depois chegam aos mercados do país ou, na grande maioria, são exportados para abastecer os supermercados do centro e norte da Europa.

 

Para que isso aconteça são fundamentais os braços de homens e mulheres, que com sabedoria, semeiam, acarinham e colhem, embalam e enviam todas essas produções.

 

Analisando a problemática do emprego no concelho, verificamos que hoje somos um concelho com um crescendo de imigrantes, que chegam de longínquas paragens desde o leste Europeu, do Sudoeste Asiático ou do tecto do Mundo dos Himalaias.

 

Como é fácil chegar de tão longe ao encontro do trabalho existente no concelho de Odemira.

 

Como se torna tão difícil, para quem não tem transporte próprio, sair das freguesias do Vale de Santiago, São Martinho das Amoreiras, Luzianes-Gare, Santa Clara-a-Velha, Sabóia, Relíquias ou São Luís para chegar aos locais com a oferta de trabalho do perímetro de rega do Mira, pois transporte público não existe.

 

A vinda de trabalhadores para o litoral leva à falta de oferta habitacional, com dignidade para alojar esses trabalhadores. Mas o concelho tem tantas casas vazias nas suas freguesias do interior. Algo não está bem.

 

Na minha opinião, compete à Câmara Municipal defender a qualidade de vida dos seus residentes, permanentes ou dos imigrantes que cá trabalham e agir dentro das suas responsabilidades e competências.

 

Quanto às debilidades mencionadas, parecem-me fáceis de resolver, basta promover a mobilidade, tornando possível que as pessoas do interior do concelho tenham transporte para chegarem ao trabalho existente no litoral, regressando depois a casa após o dia de trabalho.

 

Talvez reduzindo algumas festas ou festinhas, almoços ou jantarinhos, o Município tivesse mais meios para ajudar a resolver este problema da mobilidade, ajudando o desenvolvimento económico e o emprego. Contribuiria também para o repovoamento deste território, imenso, que nos orgulha mas também nos responsabiliza.

 

As distâncias não são importantes; importantes são existirem os meios para as percorrerem.