CAIXA DE PANDORA

Os Facho-Comunas

por Paulo Barros Trindade


Por:Paulo Barros Trindade

2015-11-06
As sociedades devem ter como figura central o Homem; os ditos mercados, por serem um meio e não um fim, não podem ser a figura central da sociedade

Tenho procurado ter nestas crónicas uma abordagem construtiva, que desperte os leitores para os problemas que estão escondidos por trás de intenções, muitas vezes trasvestidas de boas, mas que um olhar mais apurado percebe que não passam de ilusões e de procurar trazer uma forma diferente de olhar as coisas. As temáticas têm sido normalmente regionais, mas nesta crónica não resisto a abordar um tema mais abrangente, que é o do actual cenário político nacional. Não me interessa abordar uma perspectiva partidária da coisa, tanto mais que sou independente e portanto não filiado partidariamente, mas ir para além do superficial. 

 

O dia 4 de Outubro trouxe um ponto de viragem na sociedade portuguesa. O candidato socialista, derrotado nas eleições, numa manobra de objectivos ainda por esclarecer, lançou a ponte aos partidos da dita esquerda, para a criação de uma maioria de governação, acenando com uma “moção de rejeição” ao governo do partido mais votado. É uma realidade que cabe ao parlamento decidir sobre a possibilidade de constituir maiorias capazes de governar e, como dizia o outro, a tradição já não é o que era. Não me parece fazer sentido que se entenda não ser legítimo, num sistema parlamentarista como o nosso, que uma determinada maioria governe, mesmo que constituída pelos partidos que perderam, apenas porque não é tradição que isso aconteça.

 

Claro que quebrar a tradição, não o tendo dito de forma clara aos portugueses, parece-me algo ilegítimo, mas no futuro a sociedade portuguesa mostrará a quem de direito que se mantém uma sociedade tradicionalista, porque indesmentivelmente sabemos que o é e, provavelmente, irá deixá-lo bem claro em novo processo eleitoral, surja ele quando surgir.

 

Mas voltando ao ponto de viragem e ao que considero mais importante, o que todo este cenário trouxe foi uma clivagem da sociedade no sentido da bipolarização, como se todos tivéssemos uma ideologia política perfeitamente definida de preto ou branco ou, neste caso, de esquerda ou direita. Nas redes sociais é particularmente patente esta clivagem, com o voltar da linguagem revolucionária dos tempos do PREC, em que só existiam duas classes de Portugueses: os fachos ou os comunas.

 

Para quem não sabe, parece que esta coisa da esquerda e da direita nasce com a Revolução Francesa do final do séc. XVIII, uma vez que no parlamento francês se sentavam do lado direito os mais próximos da burguesia e aristocracia e do lado esquerdo os que estavam mais próximos do chamado povo. Esta é uma visão política com mais de 200 anos e portanto, parece-me difícil que possa continuar a ser transposta para a realidade dos dias de hoje. No entanto foi para aqui que a nossa sociedade foi empurrada nas últimas semanas, com ambos os lados da barricada a bramir uma espiral de argumentação, que a certos momentos tem rasado o patético.

 

No meio deste tumulto político e na sua maioria, pseudoideológico, dei comigo a pensar em que lado da barricada realmente estarei, quando se divide tão claramente a sociedade em esquerda e direita. Sei que em surdina já fui apelidado de facho, uma ou outra vez, talvez por algumas difíceis decisões que tenho tomado enquanto empresário e por não tolerar gente encostada ao sistema, a comer do sistema, sem realmente trabalhar ou produzir algo de útil para a sociedade. 

 

Defendo a iniciativa privada, não tolero a preguiça como justificação para apoios sociais provenientes dos meus impostos, considero que o Estado é algo abstracto e que deve ter, na maior parte das situações, um papel de regulação, de manutenção das regras da sociedade onde todos vivemos e que a economia deve ter um papel fundamental na criação de riqueza e de emprego.

 

Aparentemente parece que serei realmente uma espécie de facho.

 

Mas no meio desta reflexão constatei mais umas coisas. Que acho que as sociedades devem ter como figura central o Homem; Que os ditos mercados, por serem um meio e não um fim, não podem ser a figura central da sociedade; Que acredito num sistema de solidariedade social, não baseado na caridade nem em apoios cegos, mas sim num sistema de apoios sociais justos; Que considero que existem sectores básicos para a sobrevivência humana que não podem estar na mão de privados, mas sim sobre a gestão do Estado, enquanto representante de todos na sociedade, como é o caso concreto da água; e Que certos sectores geridos por privados, como o sector energético, financeiro, de transportes ou da alimentação, têm de estar sujeitos a regulação clara que assegure o interesse público. Parece portanto, que afinal também não estarei longe de algumas ideias da tal esquerda e portanto, na linguagem PRECiana tão em voga actualmente, serei uma espécie de comuna.

 

Perante tal reflexão, concluo apenas uma coisa: isto de dividir a sociedade portuguesa em esquerda e direita, comunas e fachos é algo primário, absurdo, contranatura e, acima de tudo, artificial. Se os caros leitores perderem um pouco de tempo a reflectir sobre este assunto, a maioria vai chegar à conclusão que se revê em características da dita esquerda e da dita direita, não conseguindo afirmar-se claramente de um lado ou de outro.

 

Sendo assim e dirigindo-me ao conjunto de senhores que nos querem partir a meio e obrigar-nos a escolher um dos lados, como fazíamos na primária, quando dividíamos a turma para a futebolada de rua – “eu fico deste lado e tu daquele” – digo-vos: saiam da caixinha mental onde se encontram. Se não conseguem ver a sociedade para além da forma primária do preto e do branco, da esquerda e da direita, do facho e do comuna, então deixem-me dizer-vos que existe uma parte substancial da sociedade que é moderada politicamente e que não se revê em extremismos, sejam eles de índole liberal ou de índole marxista. Usando a mesma linguagem PRECiana, podem chamar-lhes facho-comunas. E um destes dias, ainda se assustam, quando constatarem que afinal são estes que são a maioria...