CAIXA DE PANDORA

Uma década de desafios

Ação em vez de reação é o que se pretende


Por:Paulo Barros Trindade

2015-12-09
A quantidade enorme de investimento que se está a concentrar em Odemira, em especial na zona abrangida pelo Perímetro de Rega do Mira, faz adivinhar uma “revolução” a vários níveis

Há algum tempo que queria escrever neste espaço sobre o futuro de Odemira e este mês surgiu essa oportunidade. O mote foi o texto publicado nesta edição do Mercúrio e intitulado “Odemira – Grandes desafios para os próximos 10 anos”, que constituiu uma reflexão sobre os desafios resultantes da verdadeira “revolução agrícola” que o concelho esta a experienciar no último ano.

 

A quantidade enorme de investimento que se está a concentrar em Odemira, em especial na zona abrangida pelo Perímetro de Rega do Mira, faz adivinhar uma “revolução” a vários níveis, mas sobretudo a nível económico e social e que, a meu ver, é imparável e, atrevo-me mesmo a dizer, desejada.

 

Os leitores mais pacientes e que queiram analisar essa peça sobre os desafios de Odemira no futuro próximo, perceberão que a resposta a uma boa parte destes dependerá apenas da autarquia. Assim, o papel do executivo camarário, seja ele qual for, será fundamental para que Odemira, neste novo contexto de desenvolvimento, seja capaz de evoluir positivamente enquanto comunidade. Não havendo espaço para comentar todos os desafios que Odemira irá enfrentar, abordarei apenas os que me parecem mais importantes.

 

Ao nível do emprego, a responsabilidade da autarquia passa pela atracção de novo investimento na área industrial e de comércio/serviços, que são os sectores de apetência da população activa local. Mas essa atracção tem de ser activa, procurando investidores e não se compadece com os atrasos inexplicáveis na atribuição de lotes nas zonas industriais de génese camarária ou com os atrasos nos licenciamentos de projectos, ficando estes pendentes durante meses ou mesmo anos. O tão apregoado processo de simplificação administrativa simplesmente não funciona.

 

Ainda ao nível do emprego, é premente a intervenção da autarquia com um novo plano estratégico, integrando os vários intervenientes (associações sectoriais, empresas, IEFP, Segurança Social) e que atraia Portugueses de outras regiões para se fixarem em Odemira e trabalharem na agricultura.

 

Ao nível do Turismo deixo uma sugestão – o tempo não está para descurar oportunidades. Em 2014 cerca de 113.000 turistas chineses visitaram o nosso país gastando 54 milhões de euros. Um total de 109 milhões de turistas chineses, saíram da China nesse ano e espalharam-se pelos vários destinos turísticos mundiais, gastando 454 mil milhões de euros (2,6 vezes o PIB Nacional). Isto tudo num ano e o turismo proveniente deste País não pára de crescer. Esta semana o Presidente da China Tourism Academy veio a Lisboa lançar a certificação turística para acolher Chineses (Welcome Chinese). O Freeport em Alcochete tem esta certificação e, segundo o Expresso, este ano o seu volume de negócios cresceu 81%. Se calhar em vez de inexplicáveis e inconsequentes candidaturas à UNESCO, existiria aqui uma verdadeira oportunidade de atracção de mais turismo para Odemira, trabalhando esta certificação com os agentes económicos locais e encetando diálogo com as agências de viagens responsáveis por estes fluxos de turistas. Não duvido que muitos municípios já estarão a preparar as suas estratégias neste campo.

 

Ao nível da mobilidade, parece-me inexplicável que Odemira ainda não tenha uma solução efectiva para este problema. Não me parece que a solução passe por criar uma empresa de transportes públicos municipais, como outras Câmaras fizeram e com grandes desastres financeiros, mas pelo menos promover junto do sector privado um concurso de exploração de uma rede de minibus que ligue as sedes de freguesia à sede de concelho, durante todo o ano, que terá de contar obviamente com a comparticipação municipal. Uma coisa é certa, sem mobilidade dentro do concelho, será impossível travar a desertificação das freguesias de interior que, por mais destilarias de medronho que tenham, irão continuar a perder população.

 

Já agora e porque o momento político parece o ideal, fica o apelo ao executivo camarário para exercer pressão política sobre o Governo Central no sentido de incluir no Plano Rodoviário Nacional a beneficiação da EN 263, para que Odemira possa deixar de ser um dos poucos concelhos nacionais sem um acesso decente a uma auto-estrada. A propósito caros leitores, já imaginaram qual será o trânsito de camiões a sair e entrar em Odemira, quando todas as explorações que se estão a instalar estiverem em plena produção? É premente a solução.

 

Os desafios que a população de Odemira vai enfrentar são evidentes e estão à vista de todos. Neste momento, o mais importante não é saber se a cor política que ganhará as próximas eleições autárquicas é a rosa ou a laranja, a azul ou a vermelha, a magenta ou a lilás com pintinhas amarelas. O que interessa é que a equipa que ganhe seja composta por pessoas motivadas, bem formadas, focadas exclusivamente em Odemira, com real sentido de serviço público e que olhe para o futuro de forma estratégica.

 

Os jardins, as ciclovias ou os estacionamentos de praia são importantes, mas constituem as obras básicas que se esperam de qualquer executivo. Onde um executivo pode realmente fazer a diferença é na criação de uma estratégia coerente de desenvolvimento e na sua aplicação prática, em conjunto com os agentes económicos e sociais, pondo de lado os interesses partidários e de personalidade e colocando o enfoque na antecipação dos problemas e não reagindo a eles apenas quando aparecem.

 

Infelizmente isso ainda não vemos em Odemira.