NA PRIMEIRA PESSOA

Todo o caminho, mesmo com pedras e pedrinhas, a algum lugar nos vai ligar

Todos temos a obrigação de lutar por um desenvolvimento equilibrado de todo o concelho.


Por:Manuel Cruz

2015-12-09
Usufruam também do esplendor e beleza do interior e, a ele, se aliem na ajuda ao seu desenvolvimento económico

Decorria o ano de 1981 e surgiu a oportunidade de descobrir como era viajar no Odemira profundo.

 

A Direcção da Acção Cultural do Ministério da Cultura, organizou um seminário que pretendia debater iniciativas, que comunidades locais desenvolviam, no âmbito da actividade cultural.

 

O seminário teve duas fases. A primeira semana decorreu no Museu de Etnologia em Belém e na Associação Ar.Co no Castelo de São Jorge, em Lisboa, e a segunda decorreu no Núcleo Desportivo e Cultural em Odemira.

 

Foram semanas de extraordinário trabalho e convívio. Participaram colectividades, Associações, Entidades Locais e representes da organização. Personalidades como Ernesto Veiga de Oliveira, Manuel Caldeira Cabral, Joaquim Pais de Brito, Orlando Ribeiro e gentes do Núcleo Cultural de Odemira, do Museu de Santiago do Cacém, dos Grupos do Ameixial de Estremoz, de Abrantes, da Barragem Nodor, de Vila Real, de Anta, do Parque Natural de Peneda Gerês, e eu e os meus companheiros representámos a Sociedade Recreativa e Musical Sanluisense, foi possível cruzar experiências, aprofundar conhecimentos e debater estratégias, de como melhorar o envolvimento dos agentes e das colectividades nas actividades potenciadoras do desenvolvimento sócio-cultural.

 

Foi importante verificar como não eram tão diferentes as actividades desenvolvidas, em regiões como a região Tejo e Alentejo e a Região Transmontana. Diria até que os transmontanos exprimiam cultura, forma de estar e receber, que irmana connosco os alentejanos.

 

Não pretendendo pormenorizar tudo o que se passou nesse encontro, quero todavia partilhar convosco um desses dias passado fora das mesas de trabalho.

 

O presidente da Câmara Municipal, Dr. Justino Santos, não sendo Odemirense de nascença, é das pessoas que, vindas de fora, certamente quem melhor assimilou a cultura alentejana. E quão grato lhe estou por ter no seu coração o amor pelo Alentejo e por ser um grande Odemirense.

 

Estava à nossa espera o Autocarro. O grupo deveria ter umas trinta pessoas. Chegámos ao portinho de pesca da Azenha do Mar. Os pequenos barcos chegavam da faina e foi um prazer podermos ajudar os pescadores na acostagem, descarga do pescado, na limpeza das redes e na arrumação dos aprestos.

 

Depois foi o recarregar baterias. Os mariscadores e os pescadores tinham preparado um pitéu divinal, daqueles que despertam o sentimento “alarve”de chorar por mais.

 

Os percebes e as navalheiras acabadas de capturar, cozinhados com o tempo e sal adequados, chegavam às nossas mãos acompanhado de um vinho “de catedral”. Uns polvinhos, fritos em azeite e alho, completaram as entradas. Depois - ainda me apetece relembrar o sabor… - a melhor caldeirada que, até hoje, comi. A diversidade de peixes fresquinhos, cozinhados com o esmero, requinte e sabedoria daqueles homens, que, além da arte da pesca, detêm o segredo, bem guardado, da arte de cozinhar.

 

A jornada ainda estava a meio. Para chegar a Odemira teríamos que vencer a serra do interior até Sabóia. Três tractores atrelavam três reboques. A servir de assento, duas filas de fardos de palha. Os caminhos sinuosos de terra batida, apesar do cuidado dos tractoristas, obrigava a estarmos alerta para mantermos um equilíbrio constante.

 

Depois do Mar Alto, a Casa Nova da Cruz e uma paragem para beber um medronho de produção local e limpar as gargantas, que já começavam a entupir com o pó que levantava do caminho. João de Ribeiras, Ribeira do Ruivo até chegar a Carapetos. Nova paragem, na taberna junto ao caminho, para limpar gargantas e saborear novo néctar de frutos de medronheiro acompanhado duns soberbos biscoitos, preparados para o mastro que seria erguido nesses dias. Moitinhas, Vale de Touriz, Corte Sevilha. Chegámos a estrada com alcatrão que nos levou até ao Viradouro. Nova aventura em caminho de terra batida. Sabóia, Portela da Fonte Santa, Camachos e Boavista dos Pinheiros. Enfim… Odemira. Um grande agradecimento aos motoristas, um respirar fundo, olhando o céu que começava a estrelar, numa bonita noite de Agosto.

 

O deleite, do apreciar todo o encanto da vida campestre. O testemunho da azáfama, dura, dos homens e das mulheres, que encontrámos no trabalho do campo deixou-nos com o sentimento de que, perante a dureza e o isolamento das gentes que viviam e labutavam naqueles campos íngremes, nunca mais seríamos os mesmos.

 

O presidente Justino Santos pretendia mostrar o quanto estava por fazer, o abandono deste território com 1721 Km2. Era preciso sensibilizar a luta pela mudança.

 

Testemunhei e participei nessa mudança e no encontrar soluções e financiamentos para abrir estradas e aproximar as gentes do interior e do litoral.

 

O tempo passa, o mundo muda, mas é preciso fazer sempre mais, porque há problemas que subsistem e o concelho tem ainda muitos habitantes com falta do mínimo de infra-estruturas básicas como o abastecimento de água ou o saneamento.

 

O pensamento e as opções dos responsáveis, de hoje, do Município de Odemira, também são diferentes.

 

O movimento associativo continua a fazer coisas bonitas e importantes para o desenvolvimento sócio-cultural. Os pescadores da Azenha do Mar continuam, na sua faina, com dificuldades imensas, mas com redobrado empenhamento na qualidade do que fazem, transmitindo o mesmo amor e carinho para com aqueles que os visitam. Mas no interior os seus habitantes continuam isolados e a ter dificuldades de acompanhar o desenvolvimento que cada vez mais pende para os lados do mar.

 

O que pretendia “o Justino”(recusando o Doutor), era que tornássemos o concelho de Odemira com um desenvolvimento integrado e o litoral fosse complementar do interior e vice versa. Um pensamento e querer altruístas a pensar em todos os Odemirenses, que me parece muito simples e correcto, ao qual me continuo a aliar.

 

Na divagação da lembrança daquele dia, lanço o desafio a todos aqueles que hoje saboreiam os encantos oferecidos pelas, muitas, “Azenhas do Concelho”. Usufruam também do esplendor e beleza do interior e, a ele, se aliem na ajuda ao seu desenvolvimento económico.

 

Todos temos a obrigação de lutar por um desenvolvimento equilibrado de todo o concelho.