na primeira pessoa

Uma aventura de Natal

Custou mas compensou


Por:Manuel Cruz

2016-01-08
É muito bom sentir o prazer de ser avô. Diz-se com razão que representa ser pai duas vezes

Nesta quadra de Natal fui impelido na aventura de descobrir brinquedos que pudessem encantar os meus netos. Sempre deixei a tarefa das compras para a Isabel, pois a sua sabedoria encontra o que melhor serve o gosto dos nossos filhos e também dos nossos netos, mas desta vez ela decidiu passá-la para mim. Devo confessar desde já que apesar de estar habituado a decidir matérias tão diversas, que envolvem assuntos de responsabilidade imensa, no desempenho da minha profissão e das atividades públicas ou sociais que desempenho, confesso que no que se refere a compras para casa não tenho a mínima vocação. Não foi fácil, o que me levou a dar mais valor à tarefa da Isabel que durante muitos anos se deparou certamente com a mesma dificuldade quanto a estas escolhas assim como à missão das compras para a casa.

 

A tarefa levou-me a rebuscar na memória o encanto que o Natal nos trazia quando eu e o meu irmão éramos muito pequenos. O ritual, na noite da consoada antes de a nossa mãe nos aconchegar na cama, de irmos junto da lareira, que se encontrava a um canto da cozinha que era também casa de entrada e de refeições. Lá deixávamos as pequenas botas de cabedal que usávamos, aguardando que o menino Jesus passasse pela casa, descendo a chaminé, e nelas deixasse algum presente, (não sei porquê mas os meus pais não mencionavam Pai Natal. A minha mãe, que era muito religiosa e temente a Deus, referia-se sempre a Menino Jesus). De manhã corríamos para a lareira e de facto lá estava o pequeno chocolate com a efígie comemorativa do Natal, que muito me satisfazia e deliciava e também uma peça de vestuário que a minha mãe fazia questão que “estreássemos no Natal”.

 

Na memória recordei o encanto que os brinquedos me davam e a imaginação e fantasia que proporcionavam.

 

Brinquedos que só tínhamos quando da feira anual de S. Luís ou de Odemira, que se realizavam em setembro e eram, normalmente, pequenas camionetas de lata todas bem coloridas. Lembro-me do encanto de poder desmontá-las e a tristeza de que as pequenas ligações se partiam e passava a ter camioneta sem taipais. Lembrei-me de como era preciso ter imaginação, e engenho, para construir os meus próprios brinquedos. Como era bom montar carrinhos das latas de conserva em que as rodas eram as tampas das garrafas de pirolitos (pirolito era um refresco gasoso cuja garrafa tinha no gargalo um berlinde), o eixo um arame de fardo e um cordel que servia para o fazer deslocar. Duas pedras e um prego eram as ferramentas utilizadas para tamanha tarefa. Como me dava um gozo enorme construir gaiolas para os pássaros ou para grilos. Arame de fardo, cana e faca de cozinha e imaginação e eis as matérias-primas e ferramentas necessárias.

 

Como é de prever não encontrei nessas recordações soluções para a missão que tinha de cumprir, vieram sim reavivar a responsabilidade, pois tinha que encontrar algo que pudesse também criar nos meus netos a magia e o encanto.

 

Principalmente o Pedro, que com os seus três aninhos é muito exigente e imaginativo, pois a Sofia e a Inês ainda não sabem dizer ao avô que não gostam da sua escolha.

 

É muito bom sentir o prazer de ser avô. Diz-se com razão que representa ser pai duas vezes. Não o sendo, é todavia a oportunidade de podermos redimir eventuais falhas que possamos ter tido com a criação dos nossos filhos. E posso começar a pensar, com descanso, que um dia quando chegar ao fim da minha jornada, partirei com a certeza de que o caminho continuará a ser percorrido e a presença dos genes da família continuará na vida da terra. Dá-me também a esperança de que, quando crescerem, se interessem pelo próximo e ajudem a criar um mundo melhor, com amor e fraternidade.

 

O encanto foi repartido em dois períodos. Na noite da consoada não tiveram tarefa fácil para desembrulhar os presentes. Aí começou a grande trabalheira de, com imaginação, proceder à montagem de alguns dos presentes entre os quais o brinquedo oferta do avô. No dia de Natal, seguindo a tradição, lá estavam no sapatinho outros dos presentes, que o “Pai Natal” deixou. Como foi deleitante o prazer de apreciador o brilho no olhar e o encanto dos meus netos ao descobrirem novos meios de brincar e a certeza que eles contribuirão para o seu crescimento e o desejo de que mais tarde recordarão esses momentos de encantamento. E… uma lágrima no canto do olho não impeço que brote… quando o meu neto Pedro me diz “anda brincar comigo avô”, que de imediato acedo, ou quando a minha neta Sofia, ainda mais pequena, com destreza manuseia os brinquedos e, no meio da sala, em conjunto nos rebolamos a brincar, e no dia de Natal deu os seus dois primeiros passos sem apoio em direcção ao avô, ou ainda quando observo o dormir calmo da neta Inês.

 

Não sei se consegui cumprir a missão com êxito, mas sei que é preciso que criemos as condições para que todas as crianças do mundo possam sonhar, possam brincar, possam crescer e ter uma vida com dignidade. 

 

Uma certeza tenho: Os tempos mudam, as condições sociais e económicas também podem alterar-se, mas o encanto e o sonho das crianças continua a ser o que de melhor existe do mundo vencendo gerações.

 

Que o ano de 2016 seja o ano da esperança e da afirmação dos direitos das crianças e das famílias, que o amor e a dignidade prevaleçam é um desígnio digno de todos nós.

 

Um bom Ano Novo.