MIRADOIRO

Ano Novo

Novas vindas


Por:António Quaresma

Fotografia: José Amador
2016-01-08
A festa começava imediatamente à chegada e tinha um programa simples: bebedeira geral e permanente

Quem se lembra do período da passagem do ano em Vila Nova de Milfontes, nas décadas de 1980 e 1990, não pode deixar de fazer comparações com o que se passa hoje. As características que assumiu nos finais do século passado têm desaparecido, com relativa rapidez, nos últimos anos. 

 

Nesses anos idos, o ano-novo, isto é as comemorações da passagem para o ano novo, iniciava-se alguns dias antes do dito. Verificava-se, na altura, uma extraordinária afluência a Milfontes, sobretudo de gente nova. Muitos vinham em carros ligeiros, apinhados; outros, de autocarro, que, com carreiras desdobradas, despejavam torrentes de jovens urbanos e suburbanos. Alojavam-se aos magotes, em casas de aluguer e residenciais, mas havia quem dormisse ao relento, com saco-cama ou sem ele.

 

A festa começava imediatamente à chegada e tinha um programa simples: bebedeira geral e permanente. Tive sempre alguma dúvida sobre a razão da escolha de um belo lugar por quem não estava minimamente disposto a apreciar nos seus valores estéticos, nem para isso estava capaz uma hora depois de chegar. Decerto, consciente ou inconscientemente, a resposta estava no simbolismo de uma estância balnear, com uma dimensão hedonista associada, e até com certa imagem de terra recém-descoberta que toda esta costa então tinha. Por outro lado, havia capacidade de servir a procura intensa de alojamento, alimentação e bebidas alcoólicas.

 

Naqueles dias, grupos de jovens etilizados percorriam as ruas, de garrafa na mão, dia e noite, fazendo-se ouvir de variadas formas. De temer eram os automobilizados, acelerando inconsciente e impunemente. Em algumas ruas, logo que anoitecia a multidão ficava compacta e, embora pouco violenta, dedicava-se, parte dela, a depredar o património. Esta atmosfera caótica constituía, para muitos, um momento de liberdade juvenil, de transgressão à norma, mesmo de iniciação à puberdade. As gentes locais, com algum desconforto, achavam, contudo, que era o progresso, no máximo o preço do progresso. Quando os mesmos jovens voltavam às casas paternas, deixavam para trás, nos braços dos trabalhadores autárquicos, o fedor a vómito e a urina, os vidros das garrafas espalhados, enfim um ambiente de ressaca.

 

Depois, a “cena” começou a mudar. A própria GNR equipou-se com cavalaria para fazer frente aos mais agitados. A certa altura, quando demos por isso, o ciclo tinha mudado: acabara o paradigma faroeste.

 

Hoje, não pode ser mais diferente: o ambiente é calmo, sem multidões, nem balbúrdia. O programa é feito sobretudo por jantares de amigos, nos restaurantes, de forma disciplinada, mesmo que o álcool corra com abundância. Apenas à meia-noite de 31 de dezembro para 1 de janeiro, aflui uma densa massa de apreciadores de fogo-de-artifício, lançado junto ao rio. Nada que se pareça com uma ilha Madeira, mas começa a impor-se enquanto momento alto para naturais e visitantes, inclusive com gente das redondezas de Milfontes a afluir, atraída pelo fogo.

 

É verdade que ainda persistem alguns velhos resquícios, inclusive na “oferta” de serviços, mas o clima de “fronteira” praticamente desapareceu. O Litoral Alentejano está a impor-se com os seus produtos de qualidade.