CRÓNICAS DA ANTIGUIDADE

O Triângulo das Bermudas

Esta zona parece o Triângulo das Bermudas


Por:Artur Efigénio

2016-02-12
Porventura esta região possui mesmo algum campo magnético de sinal negativo

Esta é designação da área formada pela conjugação de três vértices: Ilhas Bermudas, Porto-Rico e Flórida. Este triângulo tornou-se verdadeiramente um mito após a publicação em 1974 de um livro de Charles Berlitz, cujo título era precisamente esse, e onde foram compilados vários textos, descrições e passagens de outros autores, onde eram relatados alguns eventos trágicos e misteriosos relacionados com desaparecimentos de navios, aviões e até submarinos que ocorreram nessas paragens.

 

Por nada lá existir que mereça relevância geográfica, atmosférica ou humana a não ser água, o mito foi evoluindo, sem que exista uma explicação científica credível, continuando a ser uma zona misteriosa que atemoriza.

 

Por vezes, aquilo que se passa no nosso Concelho de Odemira e nesta região do Sudoeste Alentejano, remete-me para uma expressão que a minha mulher costuma utilizar em jeito de piada, que esta zona parece o Triângulo das Bermudas, levando-me a refletir se não viveremos mesmo numa área cujos fenómenos também não devam ser dignos de referências a um qualquer tipo de mistério triangular, dadas as características daquilo que por cá se passa em vários domínios. 

 

Pensemos na área da Saúde. Situemo-nos num qualquer ponto central do Concelho e tentemos aceder ao Hospital mais próximo. O de Beja dista mais coisa menos coisa 100 Km, o de Portimão também distará os tais quase 100 km, bem como o de Santiago que também não serão muito menos. Assim, qualquer evento trágico que por cá nos ocorra é bom que não seja mesmo muito grave, pois a horita de caminho que ninguém nos tirará nesse dia ou noite, poderá fazer a diferença entre a vida e a morte. 

 

Existe um centro de saúde em Odemira aberto 24 horas, mas só quem não foi lá é que ainda não sentiu o receio de, lá chegado, caso seja grave ou necessite de um diagnóstico mais aprofundado, saber que terá ainda de fazer os tais 100 km, com a consciência que após isso, passadas as duas horas da praxe, a ambulância que o transportou o abandonará, ficando dependente de terceiros. Agora imagine que tem 75 anos, vive sozinho com uma mísera reforma num qualquer monte isolado do Concelho e que se encontra numa dessas situações. É trágico.

 

Outra área na qual se poderá estabelecer a analogia com o triângulo são as vias rodoviárias. Fixemos num mapa Sines, Ourique e a rotunda da entrada da Via do Infante em Bensafrim como vértices. Agora observe o tipo de estradas que estão contidas neste triângulo. São estreitas, esburacadas e muito mal sinalizadas. São vergonhosas e inibem qualquer estratégia concertada de desenvolvimento económico e social. Vindos do exterior, dá até a sensação de estar a entrar numa outra dimensão ou país. Agora pense que é também através delas que terá que percorrer os tais 100 km para chegar a um local onde poderá ter acesso a um conjunto de serviços da chamada “Civilização”, tanto sociais como comerciais e até culturais. É desmotivante.

 

Num plano tecnológico, há um exemplo de pormenor mas que é sintomático. Por certo ainda se lembram da passagem do sinal de televisão analógico para digital. O chamado TDT. O que se passou nesta região em algumas zonas foi um mistério onde os mais desprotegidos, principalmente idosos, habitantes de zonas isoladas, sem qualquer tipo de poder económico, e assim argumentativo, ficaram sem acesso a TV gratuita, talvez única distração dissuasora da solidão mais profunda. Talvez hoje, alguns já só ouçam rádio. Ou se tenham matado.

 

No domínio da educação, seguindo uma política de concentração, que genericamente até faz sentido, não tem em consideração as especificidades de um concelho com estas dimensões e com estas estradas, obrigando alunos a saírem de casa às seis da manhã e regressando às oito da noite. Provavelmente noutras regiões do país queixar-se-ão do mesmo, mas olhando novamente para o mapa dos concelhos portugueses ficamos esclarecidos. 

 

Poderia continuar com mais alguns exemplos ilustrativos deste nosso triângulo das Bermudas. Mas porventura esta região possui mesmo algum campo magnético de sinal negativo que afasta qualquer possibilidade de concertação do poder local com as estruturas empresariais, associações, cidadãos e concelhos limítrofes para gizarem uma linha conjunta de desenvolvimento estratégico que nos retire do isolamento e do atraso a que estamos votados, fazendo valer a singularidade das potencialidades da região e da marca Sudoeste na aplicação de políticas focadas nas empresas, na agricultura, no turismo e na economia em geral. 

 

Já os Romanos consideravam as suas vias o seu principal equipamento estratégico!