MIRADOIRO

Treze numa dúzia

O assunto tem sido muito debatido


Por:António Quaresma

2016-02-12
Quero apenas deixar aqui uma breve opinião

A língua portuguesa, como qualquer outra, tem mudado ao longo do tempo e naturalmente vai continuar a mudar. Ela é influenciada por factores diversos e tende a assimilar os contributos induzidos pela evolução da sociedade. O reconhecimento deste facto e o caso de já ter havido outras reformas ortográficas levam muita gente a pensar que o recente acordo ortográfico é natural e desejável, mais ainda, que a sua recusa é sinal de um conservadorismo sem sentido.

 

O assunto tem sido muito debatido mas eu quero apenas deixar aqui uma breve opinião: desde logo que o acordo nada tem a ver com a evolução da língua, sequer com a aquisição de novos vocábulos, mas tão-só com a ideia de que é importante haver uma aproximação da grafia à fonia e uma uniformização da ortografia entre os diversos usuários do português. Ambições que, aliás, o acordo não conseguiu alcançar.

 

Na realidade, trata-se de uma decisão política, baseada na opinião de alguns linguistas, com objectivos mais do que discutíveis e, sobretudo, sem necessidade visível. Aliás, a própria reforma de 1911, mais justificada, já tinha tido algumas decisões pouco sustentáveis.

 

A palavra “fase”, por exemplo, deixou de se escrever “phase”. Qual a vantagem? Agora estamos habituados, mas línguas como o inglês, o francês e o alemão mantiveram o “ph” nesta palavra, e não me parece que haja mal por isso. “Baía” deixou de ser “bahia”. Mais uma vez já estamos habituados, mas qual foi o proveito? Nenhum e, ao querer-se expurgar o “h”, introduziu-se, a martelo, um acento agudo. A oralidade e a “escrituralidade” são aspectos diferentes da língua; não há que forçar, pois cada uma tem a sua via.

 

Se olharmos para muitas palavras que o actual acordo modificou, parece que os responsáveis se inspiraram no Facebook, esse quadro exemplar onde se ilustra a iliteracia de um povo. Mas o acordo vai vencer: a sua aplicação é obrigatória nas escolas e, em breve, só alguns velhos vão escrever “à moda antiga”.

 

A língua é dinâmica. Um dos aspectos desse dinamismo é a criação ou adopção de novos vocábulos. É natural que, por exemplo, palavras como “futebol” (já aportuguesado), “software”, etc. entrem na língua portuguesa, acompanhando as realidades correspondentes, vindas de país ou países onde se falam outras línguas. 

 

Já acho absolutamente pacóvio o acolhimento do verbo “colapsar”, tradução livre do inglês “(to) collapse”, adoptado, creio, pelos magníficos jornalistas da televisão portuguesa, aquando do ataque às Torres Gémeas, de Nova Iorque, em 2001. Podiam utilizar os verbos portugueses “ruir”, “desabar”, “desmoronar”, entre outros, mas não: “colapsar” é, para uma televisão inculta, muito mais fino, embora o seu sentido fuja ao da palavra portuguesa “colapso”. Claro, fez escola.

 

Como as palavras são como as cerejas, já estava a encadear e a fugir ao tema. Sabe-se que a língua vai mudando e, portanto, ganhando e perdendo palavras e expressões, por vezes injustamente (se a justiça é para aqui chamada), pois encontramos, nas normais mudanças, “más” coisas que se ganham e “boas” que se perdem. Dou o exemplo de uma boa hipérbole, hoje desusada.

 

Em 1638, um notável de Milfontes, de seu nome António Afonso, viu-se a braços com a Inquisição. Ele era um homem com vício da bebida e, sob a influência do álcool, dava-lhe para o disparate e para a iconoclastia, num discurso imparável e desbragado, estivesse onde estivesse. Pois o nosso homem apareceu num casamento cuja boda decorria no interior da igreja de Milfontes (nessa altura acontecia) e desatou a meter-se com os noivos, a injuriar os Santos e a pôr em dúvida a virgindade de Maria. A certa altura, sobre a noiva, bradou, na saborosa forma arcaica usual: “Quem me dera pôr-me em cima de vós; houvera de dar treze por dúzia”.

 

Não interessa aqui o que faria António Afonso em cima da noiva do outro, mas apenas a expressão “treze por dúzia”. Esta é naturalmente uma hipérbole, emanada da relação inteligente do falante com a língua, um bom exemplo de criatividade linguística, até com uma certa dimensão poética. E, embora com a Inquisição de permeio, livre de jornalistas e linguistas a produzirem novas normas.