NA PRIMEIRA PESSOA

Nós e os outros

Todos merecemos e queremos a modernidade


Por:Manuel Cruz

2016-02-12
O que deveriam ser as prioridades

Que a beleza dum novo jardim e qualquer brilho duma rua com calçada não escondam ou substituam os direitos básicos das pessoas

 

Eu teria onze ou doze anos e trabalhava, num estabelecimento comercial, junto à paragem da Transportadora Setubalense de João Cândido Belo.

 

Tempos em que a “camioneta da carreira” era o transporte para sair rumo ao exterior da vida pacata local. O único transporte que os moradores da minha terra tinham para ir comprar os seus produtos, nomeadamente nas feiras de Odemira ou de São Luís.

 

Como a oferta de transportes era pouca, acontecia que as pessoas se atropelavam na sofreguidão de poderem entrar e assegurar o seu lugar. Nesses tempos não estava estabelecida a regra, quem primeiro chegasse teria a prioridade de entrada, então era a agilidade e força que mandava.

 

Ficou-me na memória, desses tempos, um acontecimento que levou a comentários críticos, jocosos até, num dia da feira de Setembro em Odemira, que para mim foi uma lição de vida e incutiu valores que me têm acompanhado ao longo da vida.

 

Uma senhora, na tentativa de assegurar a sua entrada, no meio da confusão e turbilhão de pessoas a quererem entrar primeiro, acabou por ser surpreendida pelo levantar da sua saia rodada, que deixou expostas, a nu, as suas pernas acima dos joelhos.

 

Naquela época este descuido era visto como algo imoral, mas o motivo que levou às mais amplas críticas, dos adultos presentes, foi o facto das pernas desnudadas, que se esperava poderem revelar uma brancura de encanto, mostrou todavia uma grande falta de higiene com “lazeira” em abundância.

 

Nada valeu à senhora a vistosa roupa de ocasião, própria do uso em momentos importantes, festivos o que a ida à feira justificava. Nem tão pouco relevou em seu favor nesse descuido, o facto de ter sido um verão de estio e um ano de muita seca, em que a água faltou na maioria dos poços, e ter sido necessário percorrer a pé longas distâncias para encontrar o precioso líquido para matar a sede e cozinhar as refeições.

 

A crítica, ou mal dizer, versava no viver das aparências e nos hábitos de higiene corporal e limpeza das suas vestes e sobre o que deveriam ser as prioridades.

 

O que valia à senhora apresentar exteriormente um ar “finesse”, quando sob a saia havia descuido e falta da elementar prioridade higiene corporal? A aparência exterior não condizia com a realidade sob o vestuário.

 

Analisando o que se passa na freguesia de Vila Nova de Milfontes, onde resido, veio-me à memória este facto pois encontro semelhanças, que retractam, com situações diferentes, o mesmo critério de escolha quanto a prioridades no que incide sobre o bem-estar da população residente.

 

Estamos a acompanhar com expectativa e gosto as melhorias que a vila está a ter. O jardim junto ao campo de futebol, esperado pela população durante muitos anos, já foi construído. As obras de remodelação das ruas da vila estão a decorrer. Estes melhoramentos, espero, darão à vila uma imagem de modernidade e bem-estar para quem nela reside ou a visite.

 

Orgulhamo-nos destas realizações que nós achamos com direito e como população as merecemos.

 

Acontece, porém, que habitam na freguesia um grande número de homens, mulheres e crianças, neste mundo de desenvolvimento social, que ainda vivem sem poderem usufruir dos bens mais essenciais à vida.

 

As redes públicas de abastecimento de água, a recolha dos esgotos ou simplesmente os acessos às suas casas em vias pavimentadas, nunca mais chegam às suas ruas.

 

A angústia diária e o receio de que, a qualquer momento, possa acontecer um foco epidémico, que afecte a saúde pública que infecte as suas famílias, derivada da falta destes bens essenciais à vida, é uma constante.

 

As despesas, com o desgaste e a manutenção dos seus meios de transporte, provocados pela falta de estradas pavimentadas, são também uma grande penalização para esses habitantes deserdados de direitos.

 

Vivem em aglomerados com nome: Ribeira da Azenha, Foros do Galeado, Brunheiras, Pereirinha, Foros da Pereira, Lagoa das Gansas, Pousadas Velhas, Malhadinhas; locais dispersos pela freguesia; mas também dentro da vila, pois até as casas à entrada da vila não têm esses bens essenciais embora estejam mesmo em frente dos depósitos da água.

 

Todos merecemos e queremos a modernidade e temos esse direito logo os melhoramentos na vila só podem pecar por tardios.

 

Mas o poder do Município de Odemira tem também a obrigação de olhar para aqueles que pouco, ou quase nada, têm. São também cidadãos de corpo inteiro que cumprem as obrigações e têm direitos. Neste caso  têm o direito de beneficiarem destes bens básicos e também, além destes, dos outros melhoramentos complementares idênticos aos que os habitantes da vila estão a obter.

 

Mais importante que as obras vistosas, deveria ser a preocupação com a resolução de problemas, graves, como a falta de condições básicas de vida das populações, que o Município tem a obrigação de resolver, pois é da sua responsabilidade e competência.

 

Que apresentemos a cara lavada, maquilhagem a gosto e vestuário a condizer, também temos esse direito. Mas não podemos esconder a coberto deste exterior belo, estas debilidades que neste século XXI, nos devem envergonhar.