CAIXA DE PANDORA

Perdoem-me!

(ou a anatomia de um pé furado)


Por:Paulo Barros Trindade

2016-02-12
Uma Lição de Vida Democrática abrangente

Começo a crónica deste mês pedindo desculpa aos leitores do Mercúrio, uma vez que tinha preparado um texto que constituía uma reflexão sobre a Humanização da Paisagem e sobre até onde essa humanização deverá incidir em paisagens que ainda estavam muito naturais, inspirando-me no caso da intervenção do POLIS no Malhão. Infelizmente esse tema terá de ficar para outras edições, se existir essa disponibilidade, pois a Crónica desta semana terá obrigatoriamente de versar sobre a posição política que os membros do executivo camarário da maioria assumiram no final da semana passada em relação ao projecto do Mercúrio, dos seus proprietários e de alguns dos seus colaboradores.

 

Começo por me dirigir aos veneradíssimos membros do executivo camarário da maioria, veneradíssimas excelências, dizendo-vos que escrevo este texto com os olhos marejados de lágrimas. E não é para menos. Vossas excelências pacientemente deram-me a mim e a alguns colegas aquilo que não posso deixar de chamar, uma verdadeira Lição de Vida Democrática. Peço-vos desde já desculpa antecipada por centrar esta crónica na minha pessoa e na Lição que aprendi, mas o facto é que apesar de já terem passado alguns dias sobre a vossa Lição, não deixo de sentir que tenho feito muito para merecê-la.

 

Confesso que não sei onde tinha a cabeça quando comecei a pensar, a ter opinião e a escrever sobre o desenvolvimento de Odemira e sobre aquilo que considero estar por fazer ou estar a ser mal feito. Eu!!? Um mero empresário que devia de estar dedicado às suas empresas, misturo política com gestão e atrevo-me a entrar no campo que está destinado a políticos com exclusividade. Hoje sei que o que tenho escrito foram meros devaneios, que nunca deviam ter existido.

 

Passei a minha juventude com a minha mãe a dizer-me para me afastar das más companhias. E não obstante, eu deixo que um líder comunista se torne um bom amigo e oiço-lhe as conversas sobre a liberdade e o 25 de Abril. Venerados senhores, não quero de forma nenhuma com isto desculpar-me das minhas responsabilidades – Sim! Eu pensei pela minha cabeça! Sim, eu dediquei horas ao pensamento sobre alternativas de desenvolvimento para o concelho de Odemira! Sim, eu tive opinião! Sim, eu entrei em campos de pensamento para os quais não sou chamado! Ousei invadir o espaço destinado aos políticos com exclusividade e agora... 

 

Sofro... As minhas mais sinceras desculpas...

 

Quando penso nas pressões que tenho sofrido às mãos do Director deste jornal, ao longo destes últimos meses que, como um ditador empedernido, recusa sistematicamente os meus textos, vezes sem conta, por ultrapassarem o número de caracteres estabelecido, só me apetece dizer a “esse senhor” – coloque os olhos nesta Lição de Vida Democrática!! Veja que quando os assuntos são verdadeiramente importantes para o desenvolvimento de Odemira e para a qualidade de vida das suas populações, o executivo camarário da maioria não poupa caracteres e disserta ao longo de 5 páginas sobre esses assuntos importantes. Tudo por Odemira! Aprenda Sr. Director!

 

Esta Lição de Vida Democrática é, felizmente, abrangente. Para além de ser uma Lição para alguns cronistas do Mercúrio, é igualmente uma Lição de Vida Democrática para todos os Odemirenses, que deverão aprender de uma vez por todas a deixar o pensamento e a opinião sobre Odemira, sobre o desenvolvimento, sobre o seu futuro, nas boas mãos dos políticos exclusivos, evitando assim a necessidade de futuras Lições. E atenção! O mal não está em receber uma Lição de Vida Democrática dos nossos governantes, porque essa todos devemos acolher de braços abertos, como quem bebe água numa cascata de saber, o mal é obrigarmos quem zela por nós, quem sabe o que é melhor para nós, quem pensa por nós, quem é um Pai para nós, a ter de perder tempo com estas miudezas.

 

Veneradíssimos senhores, trabalho normalmente 10 horas por dia, 6 dias por semana e isto ao longo dos últimos 21 anos, pelo que peço que aceitem mais este facto como abonatório para justificar os meus devaneios. Não tenho tido tempo para assistir aos colóquios e workshops educativos que vossas excelências têm promovido e o resultado dessa minha falta de educação democrática ficou à vista. Valha-me a vossa Lição de Vida Democrática.

 

Tudo isto já determinou uma decisão importante. Nos últimos meses muito tenho falado com os meus mais próximos sobre a falta de tempo que tenho e sobre a necessidade que tinha de reduzir em 2016 a minha intervenção neste jornal, nomeadamente, intercalar a minha crónica com outro cronista, fazendo-a apenas de dois em dois meses. Com esta Lição de Vida Democrática percebi que agora terei de fazer tudo o que está ao meu alcance para me redimir aos Vossos olhos. Por isso, decidi afastar-me de um conjunto de projectos aos quais estou ligado para poder dedicar mais tempo ao Mercúrio, na busca da redenção perante V. Exas.

 

Por tudo isto só lamento que a SIC tenha deixado de exibir o importante programa “Perdoa-me” porque senão, eu, perante o mundo, acreditem, iria cheio de desgosto e em sofrimento, pedir perdão por tanta opinião e pensamento. 

 

Mesmo não sendo possível fazê-lo... no meu coração é como se o tivesse feito...

 

Perdoem-me!!!...

 

PS: Não obstante o descrito neste texto, reservo-me o direito de sobre as difamações e insinuações de que sou alvo e que emanam da tal “Lição de Vida Democrática” responder a outro nível e noutros locais mais apropriados.