DE QUEM É O OLHAR

A democracia que temos

E quem é que controla os políticos?


Por:Monika Dresing

imagem do Parlamento Europeu
2016-03-11
A própria sobrevivência é o objectivo principal dos partidos. Basta olhar para as campanhas eleitorais, um verdadeiro circo com música, bandeiras e palavras ocas

À partida, a democracia – o governo em que o povo exerce a soberania – pode ter várias formas diferentes, mas nós, países ocidentais capitalistas, conhecemos apenas uma das formas: a democracia representativa. A ideia desta forma é a de que os cidadãos elegem os seus representantes e que, em nome deles, discutem os problemas existentes para, no fim, chegarem à melhor solução para todos. Pela representação, as discussões tornam-se viáveis, visto que uma discussão entre milhões de pessoas nunca chegaria a um fim.

 

Num mundo ideal, isto poderia funcionar, mas infelizmente não vivemos neste paraíso e a democracia representativa traz consigo vários pontos fracos que muitas vezes impedem que se chegue à melhor solução para a sociedade.

 

Primeiro – não existe um sistema representativo sem os partidos políticos. Estes, no entanto, começaram desde o seu surgimento a desenvolver uma vida própria, sendo o olhar para o número de eleitores quase sempre o facto mais importante e que evita uma deliberação isenta. A própria sobrevivência é o objectivo principal dos partidos. Basta olhar para as campanhas eleitorais, um verdadeiro circo com música, bandeiras e palavras ocas, para nos apercebermos de que isto tem pouco a ver com uma aproximação séria aos problemas a resolver.

 

Segundo – ligado ao sistema partidário, apareceu o fenómeno da subida social dos deputados. Também isto é um facto que surgiu já há mais de cem anos. Muitos dos deputados, especialmente os dos partidos da esquerda, têm origens em camadas sociais mais baixas. O estatuto de deputado oferece-lhes algumas regalias e, a partir de certo momento, muitos deles, mesmo sem querer, começam a defender ideias contrárias às suas ideias originais. Começam a chamar a isto “realidade sem alternativa”. Receiam, talvez inconscientemente, a perda dos privilégios.

 

Terceiro – e isto é o problema muito mais grave e que dá um golpe mortífero a qualquer forma de democracia: existe a corrupção. Os deputados podem muito bem e de forma isenta discutir os assuntos mas no momento em que aparece alguém com uma mala cheia de dinheiro ou benefícios equivalentes, oferecendo-os em troca de favores, qualquer discussão isenta chega ao fim. Começam os jogos sujos, compram-se as deliberações, fazem-se calúnias. Todos nós conhecemos os exemplos existentes em todos os níveis da política e sempre com resultados muito negativos. O dinheiro público, o nosso dinheiro, é muitas vezes gasto em projectos sem qualquer necessidade ou, pior ainda, mesmo danosos e que só dão lucro aos respectivos produtores ou serviços. E este dinheiro faz falta nas áreas essenciais.

 

O que podemos fazer para tentar melhorar esta situação? Também aqui há vários pontos a considerar:

 

Primeiro – exigir transparência, sempre e em todos os níveis da política. Não pode ser que os nossos representantes, que tomam decisões em nosso nome, façam isso de forma secreta. Só com transparência total pode evitar-se a influência clandestina dos lobistas e de pessoas com interesses particulares.

 

Segundo – desenvolver um método como o mandato imperativo em que os deputados se têm que responsabilizar perante os eleitores quando tomam decisões contrárias às que tinham defendido nas campanhas eleitorais.

 

Terceiro – organizar-nos em iniciativas básicas fora das assembleias dos deputados para podermos discutir os assuntos sem a influência dos partidos políticos. Este tipo de oposição cívica que se organiza à volta de temas específicos pode ganhar bastante influência através de acções de esclarecimento e mobilização de outras pessoas, acções de boicote, etc. Acções estas que perturbam o decorrer habitual e muitas vezes negativo da vida política e que vão ser tomadas em conta pelos partidos que não querem perder os seus eleitores. Existem vários exemplos que mostram a eficácia destes movimentos cívicos. Vamos a isso!

 

por Monika Dresing