NA PRIMEIRA PESSOA

Medo? Maldade? Ou simplesmente insegurança?

Os donos da bola


Por:Manuel Cruz

2016-03-11
Recomendo que reformulem a informação de quem é dono de quê e peçam desculpa aos Odemirenses e reponham a verdade

Desde muito jovem interrogo-me sobre o porquê de acontecimentos que levaram a actos talvez inexplicáveis.

 

Deveria ter cerca de 10 ou 11 anos e um dos meus amigos tinha recebido de um familiar, que vivia na cidade, uma bola de futebol. Era uma bola especial, de couro, igual às que os adultos jogavam no campo improvisado da terra. Nós, putos, que só tínhamos acesso a bolas que as nossas mães faziam com recurso aos trapos velhos que já não eram utilizáveis - mas satisfaziam o desejo de jogar as peladinhas que tomavam grande parte dos nossos tempos livres - quando éramos convidados e podíamos chutar aquela bola eram momentos de deleite indescritível. O que ainda hoje me intriga é o porquê, do nosso amigo, “dono da bola”, sem motivo aparente, fazer por vezes birras e então… pegava na bola e saía do jogo com a dita debaixo do braço e repentinamente… acabava-se o jogo.

 

Aos onze anos, fui trabalhar no pequeno comércio do sítio onde morava - taberna, mercearia e venda de outros produtos diversos. Recordo desses tempos, momentos em que, em voz muito baixa, como se de um segredo se tratasse, para que o puto não ouvisse, os adultos comentavam sobre o facto de não haver liberdade de falar, de os jornais serem censurados, de não serem permitidos ajuntamentos e de que, a coberto da madrugada, Salazar mandava a pide a casa e prendia pessoas. O puto, querendo crescer e aprender a vida dos adultos, ficava de ouvido muito atento, mas não lhe seria permitida a ousadia de perguntar fosse o que fosse e ficava a interrogação do porquê de tamanha malvadez. Devo confessar que nessas noites acordava e ficava em sobressalto muitas vezes até ao alvorecer.

 

Ao longo da minha vida e da minha aprendizagem fui tendo conhecimento de acontecimentos no mundo que originaram guerras. Umas com a desculpa da religião, outras da economia, outras por razões de limites de fronteiras e muitas outras simplesmente por ambições de poder. Frequentemente tiranos e ditadores privaram das mais amplas liberdades homens e mulheres que ousaram pensar ou agir diferente. Hoje mesmo, somos confrontados com exemplos dessa natureza onde a pretexto da defesa de credos religiosos são praticados actos sem sentido que levam ao mau trato e sacrifício de vidas humanas, como é exemplo o crime praticado sobre os trabalhadores do Jornal francês “Charlie Hebdo”. O poder económico cria monstros que levam à falência bancos e empresas e destrói as poupanças das pessoas, ganhas com sacrifício ao longo das suas vidas, como foi o caso BES. E interrogo-me sobre o que leva a que tudo isto tenha acontecido e o porquê de continuar a acontecer. Qual a razão? O que move os seus autores? Medo? Maldade? Fraqueza?

 

Vieram-se à memória estes pensamentos e interrogações após ter sido confrontado com uma “Declaração Política” dos eleitos da maioria na Câmara Municipal de Odemira, onde em vários momentos escrevem sobre a minha pessoa.

 

Num primeiro momento achei-me muito importante, por ter tido a honra de veneráveis eleitos do município me quererem tirar do jogo “levando a bola” e reagi comigo próprio… “Hoje a bola é omnipresente, está em todo o lado… faltam é jogadores….” logo não vou ter dificuldade em encontrar outra.

 

Mas depois voltei a ser incomodado pela permanente interrogação, que o meu subconsciente foi buscar ao digerir o conteúdo da tamanha declaração, com cinco páginas de texto recheada de grande imaginação e perguntei-me: Que pode levar eminentes pessoas a perder o seu tempo? Será certamente por não terem nada com que se preocupar pois o concelho de Odemira e as suas necessidades não serão tão importantes, pensei eu e relevei.

 

Porque omitem a verdade no que escreveram sobre empresários, donos de empresas, percentagens de capital na EPO donos de jornal, com um esclarecedor… “ esclarecemos a todos”…? Fiquei perplexo, pois eles sabem… mas todavia recomendo que reformulem a informação de quem é dono de quê e peçam desculpa aos Odemirenses e reponham a verdade, fora isso não me merecem quaisquer comentários, pois trata-se simplesmente de seus complexos pessoais sobre a vida real da sociedade em que vivemos.

 

Porque estão tão preocupados pela existência do jornal “Mercúrio”? Porque apontam o dedo acusador? Que medos os atormentam das notícias do jornal ou dos artigos de opinião dos colaboradores? Porque tentam denegrir o Director do jornal com insinuações de ter vivido de subsídios da Câmara quando o que o grupo de teatro a que pertenceu, efectivamente, prestava um serviço de cultura único, esquecendo até que aquele fez parte das suas listas para as autárquicas de 2013 em Vila Nova de Milfontes ajudando-os a ganhar? Querem amedrontar o jornal? Nunca se esqueçam dum pequeno, mas importante, pormenor: “de cada vez que se aponta o dedo acusador/apontador a alguém, pelo menos três dos cinco dedos da sua mão ficam apontados na direcção do acusador”.

 

Porque me incluem nas actividades da PLAS, insinuando uso indevido de destino de recolha de fundos desta Associação? Perguntei-me o porquê, pois eles sabem que não pertenço à sua Direcção, e deveriam saber, para o mencionarem, que nem tão pouco participei em qualquer evento de recolha de fundos. Todavia quero dizer que é muito louvável o trabalho que a PLAS vem desenvolvendo e é um bom exemplo de que é possível fazer muito boas coisas sem ter que ser sob a tutela do poder do Município, e terei muito orgulho em ajudar nas suas actividades em prol dos mais desfavorecidos do nosso concelho.

 

Da reflexão destas interrogações outras preocupações se levantaram no meu pensamento. O que leva pessoas com responsabilidades na vida do concelho a agir desta maneira?

 

O que leva uma ampla maioria a tentar prejudicar, com mentiras, um seu opositor?

 

Como se permitem ver críticas à sua gestão na Câmara Municipal em opiniões no “Mercúrio” como se não houvesse sempre o “outro lado da moeda”. Que eu tenha conhecimento, ainda não existe nenhum dono da verdade absoluta, ou serão eles?

 

Quererão simplesmente ser “Os donos da Bola”?

 

Quererão ser “os donos disto tudo”?

 

E se não vivêssemos em democracia como agiriam?

 

Terão medo? Mas de quê ou de quem?

 

Enfim… Acho que é simplesmente insegurança que os leva a ver fantasmas e ter medo de tudo o que na sociedade mexe (talvez até da sua própria sombra).

 

Se fosse católico diria: que Deus os ajude, pois estão a precisar.

 

O meu lema é viver, com verdade, em liberdade, com responsabilidade, e podem crer que não me amedrontarão.

 

(Por respeito, propositadamente, não menciono o partido pelo qual foram eleitos)

 

(Quanto à Escola Profissional, oportunamente escreverei sobre a sua vida e responsabilidades nestes 25 anos de existência).

 

por Manuel Cruz