MIRADOIRO

Direito à asneira

Um cordeiro com pele de raposo


Por:António Quaresma

2016-03-11
Qualquer coisa que, suposta ou efectivamente, ofende as suas crenças profundas, saltam imediatamente multidões em fúria

Decidiu o Pingo Doce, via Fundação Francisco Manuel dos Santos, publicar um livro sobre o Alentejo e os alentejanos da autoria dum sujeito de nome Raposo, nativo, ao que parece, dos lados de Santiago do Cacém. Não li o livro, nem está na minha lista de prioridades lê-lo. No entanto, o próprio autor fez dele uma apresentação num programa da SIC Radical, o que permite apreciação prévia: em resumo, uma perfeita colecção de disparates.

 

Vai daí, propagou-se, imediatamente, uma vaga de ira contra o escriba, em especial nas redes sociais, como se o homem tivesse cometido um crime nefando. A coisa tomou, já há quem diga, foros de “intifada”, com gente a insultar e a ameaçar Raposo.

 

Nada de novo: regularmente surgem estas ondas de indignação, com os seus justiceiros de vanguarda a exigirem ou, pelo menos, a sugerirem penas exemplares. Por causa dum livro, dum filme, dum cartaz, dum artigo de jornal, enfim por qualquer coisa que, suposta ou efectivamente, ofende as suas crenças profundas, saltam imediatamente multidões em fúria, às vezes apoiadas por gurus defensores da ortodoxia do pensamento. Como se sabe, é desta a massa que se fazem as “guerras santas” e outras perversidades. O passar ou não à fase da chacina depende de haver ou não condições sociais objectivas.

 

Se é verdade que, por esta e por outras, Raposo não merece exactamente grande comiseração, também é certo que toda a barulheira a que se assiste é deveras lastimável. Que se demonstrem as asneiras debitadas por Raposo justifica-se, em nome do debate de ideias. Que lhe chamem néscio até se compreende, pois ele pôs-se a jeito. Mas mais do que isso, como querer impedir a apresentação do livro e até bater no homem, é ainda mais desatinado do que qualquer desatino contido no “ensaio”. Ademais a agitação acaba por fazer publicidade grátis ao livro e por transformar o seu autor numa espécie de mártir, o que seguramente nenhum dos seus acérrimos críticos desejaria.

 

Claro que daqui a pouco já ninguém se lembrará deste assunto, pois estamos num País de memória curta e, neste tipo de coisas, de muita vociferação e pouca acção. Não há, portanto, felizmente, qualquer risco para Raposo, nem para a sua produção literária. A médio e a longo prazo, o seu texto possivelmente até se tornará um case study, inclusive com diligentes estudantes a descobrirem na obra predicados insuspeitados.

 

Vendo bem, só uma verdadeira cultura democrática possibilita colocar as questões nos lugares certos e evitar o fanatismo. Ela falta, porém, como está visível, a muita gente e afecta a sociedade de forma transversal. Recordam-se de um certo sub-secretário de Estado que ficou indelevelmente associado à “censura”, por motivos ideológicos, do único prémio Nobel da Literatura português?

 

por António Quaresma