OPINIÃO PÚBLICA

As mil caras da corrupção – os grandes e os outros

Não é só desvio de dinheiro é também desvio de competências


Por:Fernando Almeida

fotografia Pierre Rougier
2016-03-11
Nas sociedades dominadas pelo clientelismo não adianta muito o esforço, a qualidade, o mérito, ou mesmo a excelência

Que a corrupção praticada impunemente pelas nossas elites políticas (e não só) prejudica imensamente o bem comum, é coisa conhecida, mas geralmente pensa-se apenas nos danos que causa diretamente nas finanças públicas. Ora…

 

O principal prejuízo que a corrupção praticada pelas elites gera na comunidade, não se reduz a mais uns milhares de milhões que todos nós vamos ter que pagar, mas antes e fundamentalmente ao efeito de contágio que tem sobre a sociedade, na forma como degrada os bons princípios reguladores das relações entre as pessoas e as instituições no mundo em que vivemos. Dessa degradação moral resulta até a passividade com que aceitamos a substituição da cultura do “mérito” pela cultura do “favor”, ou como é habitual dizer-se, pela cultura da “cunha”.

 

Enquanto professor tenho percebido incontáveis vezes que os meus jovens alunos têm desde muito cedo a noção de que o sucesso do seu futuro profissional e pessoal depende mais da sua rede de contactos (antigamente falava-se em ter bons “padrinhos”) que da qualidade da sua prestação escolar. E poucas coisas poderão ser mais desmotivantes para um aluno que pensar que o sucesso será sempre uma miragem, a menos que compensem o berço pobre pela ascensão no mundo da política.

 

José Manuel Mendes e Elísio Estanque sobre a questão da mobilidade social diziam em 2006 que “são poucos os casos em que as oportunidades fundadas no mérito são uma realidade, uma vez que esse critério é muitas vezes pervertido por outros critérios, como as afinidades pessoais e familiares” e, acrescento eu, afinidades partidárias. Os estudantes frequentemente sabem-no ou pelo menos pressentem-no. Nas sociedades dominadas pelo clientelismo não adianta muito o esforço, a qualidade, o mérito, ou mesmo a excelência. Vivem-no na prática muitos dos nossos jovens emigrantes, que em países com outra moral coletiva vêm as suas qualidades reconhecidas e em pouco tempo ascendem na estrutura laboral e social. É comum ouvir-se aos nossos emigrantes que “lá fora reconhece-se o esforço e a qualidade de quem a tem”. Normalmente esses mesmos portugueses que obtêm reconhecimento e sucesso “lá fora”, por cá dificilmente teriam sequer possibilidade de mostrar as suas capacidades.

 

Mas o problema complica-se. Quem entre nós ascendeu pela colocação irregular (partidária, familiar ou qualquer outra moralmente inaceitável) tem geralmente uma espécie de “horror à competência”. Por isso mesmo costuma rodear-se para a tomada de decisões (supostamente importantes) de outros igualmente incapazes e incompetentes. Compreende-se, se os subalternos são capazes, o dirigente incapaz cai facilmente no ridículo. Portanto descarta a possibilidade de se rodear de gente útil e interessante, preferindo abastecer-se no alfobre dos que o bajularão e não lhe farão sombra. Por esta via a incompetência e a incapacidade acabam por se reproduzir em cascata ao longo da administração pública e da sociedade no geral. Também por este meio se produz o maior e mais permanente dano na sociedade.

 

 Esta coisa do “Sr. Cunha” é já bem antiga, mas com a democracia a situação nada melhorou, e parece mesmo que se tem vindo a degradar cada vez mais. Não são só os “afilhados” como antigamente. Hoje, não só se entregam aos amigos lugares da administração pública, como se chegam a criar organismos a propósito (quantas vezes de utilidade mais que duvidosa) para parentes próximos e distantes, para militantes e simpatizantes dos partidos do poder. E o Estado engorda, mas de gordura balofa e inútil, criando uma obesidade mórbida que o tolhe nos movimentos, e o transforma num ser pesado e lento que trava a própria vitalidade das gentes.

 

Se os desmandos e negócios realizados por quem nos tem governado ao mais alto nível nos causam danos, e por eles temos que todos nós pagar um custo elevadíssimo, os incapazes que penetram imoralmente na administração custam-nos outro tanto. Não é só aquilo que temos que pagar enquanto contribuintes, isso ainda seria o menos. O grave é que este tipo de gente tende a burocratizar, tende a complicar, criar mais um papel, um requerimento, um prazo, uma certidão, uma licença… e isso sim, trava e peia as empresas e as pessoas esgotando-as até à exaustão.

 

Inevitavelmente voltaremos ao assunto. É a própria realidade que o impõe.

 

por Fernando Almeida