MÚSICA

FESTIVAL TERRAS SEM SOMBRA

Anjos ou Demónios? Violões brasileiros na igreja de Odemira

2016-03-11
Festival traz o melhor da música sacra internacional a terras alentejanas, levando públicos e músicos a conhecer tesouros naturais

O guitarrista brasileiro Sidney Molina vem com o seu Quarteto Quaternaglia, dia 8 de Maio, às 21h30, à igreja matriz de São Salvador, em Odemira, para mostrar o concerto “Anjos ou Demónios? Novas Tendências da Música Brasileira”. Este é um dos destaques da edição deste ano do Festival Terras sem Sombra, uma iniciativa da sociedade civil que traz aos monumentos religiosos da diocese de Beja alguns dos mais reconhecidos artistas internacionais de música sacra.

 

José Costa Falcão, director do departamento do património histórico e artístico da diocese de Beja e director geral do festival assegura que este “é o melhor quarteto brasileiro de música sacra da actualidade” e que o concerto está a gerar “enorme expectativa. “Tivemos consultas de espectadores de França, Itália e Alemanha que querem deslocar-se de propósito e perguntam onde é que é Odemira”, desvenda. A razão é simples: o programa revela um concerto com composições de grandes compositores como Heitor Villa-Lobos, Ronaldo Miranda, Almeida Prado, Marco Pereira, Egberto Gismonti, Chrystian Dozza e Paulo Bellinati.

 

“Este é um reportório pouco escutado na Europa e em muitos aspectos uma première absoluta no que diz respeito à Europa”, aponta José Costa Falcão.

 

Os músicos do Quaternaglia utilizam três violões (guitarras) de seis cordas e um violão de sete cordas especialmente construídos pelo luthier brasileiro Sérgio Abreu. Ao longo de mais de duas décadas, vem estabelecendo um cânone de obras originais e arranjos audaciosos, o que inclui a colaboração com compositores como Leo Brouwer, Almeida Prado, Egberto Gismonti e Paulo Bellinati. O quarteto detém um Ensemble Prize no Concurso Internacional de Guitarra de Havana (Cuba) e participou em importantes séries de guitarra e música de câmara nos Estados Unidos da América. Actuou em vários países e em mais de 15 estados brasileiros, além de ministrar master classes e palestras na Universidade de Yale e no Conservatório de Coimbra, entre outras instituições. Chrystian Dozza, Fabio Ramazzina e Thiago Abdalla são os restantes músicos do quarteto.

 

Sidney Molina é natural de São Paulo, no Brasil. Especialista em musicologia e doutorado em Comunicação e Semiótica, Molina é o fundador deste quarteto. Trata-se de um músico multifacetado, sendo certo que também é professor universitário, palestrante, jurado em concursos guitarrísticos, radialista. É crítico de música clássica na Folha de S. Paulo, um dos mais conhecidos jornais diários do Brasil. Chrystian Dozza, Fabio Ramazzina e Thiago Abdalla são os restantes músicos do quarteto.

 

 

TORNA-VIAGEM

 

Sob o lema “Torna Viagem”, o festival segue uma lógica de programação que abrange um espectro vasto, da Idade Média ao século XXI. E abarca música de vários continentes, num leque que vai da Europa à América ou a África, com uma paragem privilegiada no Brasil, outrora destino de muitos alentejanos. José Costa Falcão considera que esta é “uma experiência única ao aliar património, música e biodiversidade”.

 

A cada espectáculo do festival associa-se uma acção de voluntariado para a salvaguarda da biodiversidade com a participação dos artistas, do público e das comunidades que o Festival percorre. “Há uma maneira muito familiar de acolher os artistas, de lhes dar a conhecer a nossa gastronomia, dar-lhes a provar o medronho, por exemplo, e proporcionar uma experiência de vários dias incluindo visitas às riquezas naturais, algo muito diferente de ir buscar os artistas ao aeroporto e levá-los logo de volta após o espectáculo”, explica a mesma fonte. 

 

Em Odemira, esta acção em prol da biodiversidade está programada para dia 8 de Maio, pelas 10h. Trata-se um percurso de cinco quilómetros a pé, partindo do Portinho do Canal, a Norte de Vila Nova de Milfontes, para reconhecimento das comunidades vegetais do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. A visita aos tesouros da biodiversidade local, tais como arribas, dunas, charnecas litorais e charcos temporários será guiada por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

 

Os artistas ficam rendidos e passam a palavra. De tal modo que, de acordo com a organização, uma das dificuldades é manter a fasquia de qualidade. “Temos uma tarefa difícil, mesmo com a ajuda dos municípios, voluntários e empresas locais, porque há desinvestimento público na área da Cultura”, relata Costa Falcão. “Em 2015, tivemos mais financiamento de Espanha do que de Portugal”, conta.

 

Ana Paula Amendoeira, Directora Regional de Cultura do Alentejo, destaca o apoio institucional da DRCA reconhecendo que o apoio financeiro fica aquém do desejável. “O apoio não é tão grande como gostaríamos, devido às dificuldades com que nos debatemos”, lamenta. “O Alentejo é a região que tem menos verba para a Cultura no país inteiro”, precisa. Para a responsável o festival é “um dos acontecimentos de referência do Alentejo, muito prestigiado e com uma programação muito bem pensada, que envolve todo o território”. 

 

Apesar dos constrangimentos, a iniciativa é para manter. “Temos mais pedidos de municípios, que são 17 na nossa região, do que aqueles que conseguimos corresponder”, revela José Costa Falcão defendendo a importância de continuar a “furar o isolamento e descentralizar o acesso à música erudita”.

 

O MERCÚRIO foi convidado a assistir ao concerto inaugural do festival, realizado a 27 de Fevereiro, na Igreja Matriz de Santo Ildefonso. Intitulado “Como as Árvores na Primavera”, o concerto incluiu obras de Avison, Avondano e García Fajer interpretadas pelo agrupamento de orquestra Divino Sospiro e pelas solistas Bárbara Barradas (soprano) e Joana Seara (soprano), sob a direcção musical de Massimo Mazzeo. A igreja encheu com mais de seis centenas de espectadores. “Nunca baixámos a fasquia e prova disso é o facto de as igrejas começarem a ser pequenas para receber tanta gente”, orgulha-se o director do festival.