A CAIXA DE PANDORA

Sobre o Tudo e Sobre o Nada

Poderia escrever sobre tudo e mais alguma coisa... mas não me apeteceu


Por:Paulo Barros Trindade

2016-03-11
Este mês foi grande a dificuldade de encontrar um tema sobre o qual me apetecesse escrever. Não que Odemira não seja profícua em temas

Este mês foi grande a dificuldade de encontrar um tema sobre o qual me apetecesse escrever. Não que Odemira não seja profícua em temas.

 

Podia apenas publicar a crónica que referenciei na última edição do Mercúrio, sobre a humanização da paisagem, a propósito do profundo disparate feito no Malhão, que em qualquer lado seria enquadrado sobre o epíteto de crime ambiental, mas não me apeteceu ir buscar esse assunto.

 

Poderia escrever sobre a campanha que está a ser promovida por um pequeno conjunto de pessoas contra a horto-fruticultura no Perímetro de Rega do Mira (em especial as culturas forçadas) e, portanto, também dentro do Parque Natural, como se fosse possível o concelho poder abdicar do mais importante sector económico, que é o verdadeiro motor da economia local, não obstante o mito do turismo, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre o facto do sector hortofrutícola ser o grande empregador local, apesar do recurso em massa a trabalhadores estrangeiros. E que esses trabalhadores estrangeiros, não obstante poderem existir situações ilegais, às quais as autoridades competentes devem estar atentas e agir, são também uma fonte geradora de riqueza para a comunidade local, porque compram alimentos (vejam quem constitui hoje em dia a maioria dos clientes das superfícies comerciais que temos no litoral do concelho), porque frequentam e consomem nos cafés, porque alugam casas que, apesar de constituírem na sua maioria economia paralela, movimentam dinheiro que é injectado na economia local, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre a política local, sobre o facto de estarmos a menos de dois anos das eleições autárquicas e de os políticos do poder estarem a acordar e a começar a multiplicar-se em iniciativas para mostrarem aos munícipes que afinal Odemira tem gestão e que o que pareceu não existir nos últimos anos afinal era apenas uma impressão, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre a oposição política local ou melhor, sobre a aparente ausência dela, porque a pouco mais de um ano das eleições ainda não se conhecem as ideias ou os projectos e muito menos as caras, mantendo-se a estratégia de apresentar projectos em cima do joelho, na véspera das eleições, dificultando a chegada da informação aos eleitores e a criação de alternativas de poder, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre as obras faraónicas de Odemira, como a ponte que não dá para lado nenhum ou as obras megalómanas do Polis, cuja manutenção ninguém sabe quem irá assegurar e com que orçamento, mas não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre um interior do concelho completamente desumanizado, onde o homem se tornou a espécie em extinção, onde a aguardente de medronho parece agora ser o ouro negro da serra, podendo eventualmente fixar mais algumas pessoas, mas não sendo de certeza a âncora que permitirá estancar a sangria de população, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre as promessas não cumpridas de um conjunto de políticos, cujo único intuito é garantir mais 4 anos de emprego para si e para os seus, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre o prolongamento de obras na Zambujeira e em Milfontes e da forma como essas obras deficientemente planeadas vão afectar a actividade económica dessas localidades, tendo afectado a dinâmica normal do Carnaval e certamente da Páscoa e quem sabe se não mesmo do Verão, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre o vazio cultural que se sente neste concelho, sobretudo quando olhamos para outros concelhos bem menos povoados, mas que se interessam fortemente por manter um programa cultural que chegue às pessoas e que atraia as pessoas e que eduque as pessoas, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever outra vez sobre a liberdade de expressão em Odemira, sobre o direito de cada um falar o que entende sobre o concelho e a gestão deste sem ser maltratado ou vilipendiado por quem tem cargos públicos e, portanto, sujeitos a sufrágio público, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre a forma absolutamente vergonhosa como a Câmara de Odemira ignorou os 25 anos comemorados pela Escola Profissional de Odemira, entidade fundamental no ensino e formação da população jovem deste concelho, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever também sobre tudo o que de bom acontece neste concelho, como a Rota Vicentina que me merece o maior respeito pelo trabalho que tem feito pelo turismo local ou escrever sobre um conjunto de pequenas associações que intervêm na área social, às vezes contra as forças ocultas que existem no concelho, mas desenvolvendo um trabalho altamente meritório e muito baseado na carolice de um punhado de gente. Poderia escrever sobre um punhado de empresários que muitas vezes também a trabalhar contra as forças ocultas, continuam a investir neste concelho e a criar emprego e riqueza, de forma louvável e normalmente não reconhecida mas... também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre a beleza natural deste local, sobre o prazer de acordar e ter um ninho de rolas no meu alpendre, de ter os abibes, tordos, estorninhos, tarambolas, garças, pardais, alvéolas e toda a miríade de outros esvoaçantes a esparsos metros de casa, envolvendo o meu espaço num verdadeiro parque natural, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre o prazer de estar sentado numa rocha do Almograve, com a cana na água a deixar o pensamento varrer as ondas, mergulhando de quando em vez no azul celestial, fazendo-me entrar facilmente na caixa do nada, mas também não me apeteceu.

 

Poderia escrever sobre tudo isto e mais alguma coisa... mas não me apeteceu. 

 

por Paulo Barros Trindade