CRÓNICAS DA ANTIGUIDADE

As Nações Unidas

A ONU é hoje muito diferente de 1945


Por:Artur Efigénio

2016-03-11
pela primeira vez, poderemos ter a oportunidade de ver nomeado um português que se notabilizou como Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados

Versalhes, junho de 1919. Na sequência do final da I Guerra Mundial, as potências vencedoras deste conflito que terminou com a derrota dos Impérios Centrais (Áustria-Hungria, Alemanha e Otomano) reuniram-se aí para negociar um Tratado de paz. Nesse acordo foi prevista a criação de uma organização internacional que tivesse como principal papel a paz entre os Estados. Denominou-se “Sociedade das Nações”, mas a sua eficácia esgotar-se-ia rapidamente.

 

Adolf Hitler, homem franzino que tinha combatido como Cabo na I Guerra, chega a líder do partido Nazi (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) cavalgando a onda de descontentamento do povo alemão, alegadamente pelas condições impostas pelo Tratado de Versalhes, considerado pela Alemanha como uma conspiração judaico-maçónica-comunista para a humilhar. Torna-se Chanceler em 1933, e não mais parou.

 

Em 1 de setembro de 1939, a Alemanha invadia a Polónia. E era o início da II Guerra Mundial, a mais letal da História, tendo durado seis longos anos, alterando de forma global o alinhamento político e a estrutura social mundial. Nela, assistiu-se à tentativa de extermínio do povo judeu, foram alteradas fronteiras, pereceram cerca de 60 milhões de pessoas e para lhe pôr um fim completo assistiu-se ao lançamento de duas bombas atómicas.

 

No final deste conflito foi então criada em 24 de outubro de 1945 a “Organização das Nações Unidas” (ONU), uma herdeira dos princípios da antiga Sociedade das Nações, cujo nome já tinha sido referido por Churchill e Roosevelt em 1942 aquando da assinatura da Carta do Atlântico onde foi estabelecida uma visão para o pós-guerra.

 

Desde então, as Nações Unidas têm cumprido vários papéis, sendo considerada como a única Organização Internacional representativa e aceite pela quase globalidade dos Estados como tal (tem atualmente 193 Estados membros). Portugal viu a sua adesão concretizada em 1955 após ultrapassados os sucessivos vetos por parte da URSS, fruto do nosso alinhamento e pertença à NATO desde 1949.

 

A ONU é hoje muito diferente de 1945. Desde aí, ajudou a equilibrar as tensões da Guerra Fria até 1991; impôs aos Estados a ratificação da Declaração Universal dos Direitos Humanos; teve um papel importante na descolonização de muitos países (Portugal bem sentiu o seu papel e poder entre 61 e 75); estabeleceu objetivos para a erradicação da pobreza; administrou vários territórios em Regime de Tutela (como no caso de Timor-Leste na transição para a independência, e tenta obrigar os Estados a entenderem-se na questão das alterações climáticas, entre outras grandiosas funções para a Humanidade.

 

Mas, após 70 anos de vida, não tem sabido reformar-se. A composição do Conselho de Segurança mantém-se desde 1945, estando hoje desadequada da nova realidade geopolítica. Nos dias de hoje não faz sentido existirem só cinco Estados (Reino Unido; França; Rússia; China e EUA) com verdadeiro poder neste Órgão, através do direito de veto nas questões de segurança mais importantes do nosso frágil equilíbrio mundial.

 

Tem tido uma atuação tímida em alguns conflitos, como nos casos do conflito Israelo-árabe ou da Ucrânia. Devido à sua desmesurada dimensão funcional, chegou atrasada aos genocídios do Ruanda, Sudão ou Chade, ou em algumas catástrofes naturais como o Tsunami asiático de 2006 e o Japonês de 2011 e chegará fatalmente atrasada ao Iraque, ao Afeganistão e à Síria onde os conflitos se eternizam.

 

O atual Secretário-Geral da ONU, o Sul-Coreano Ban Ki-moon terminará o seu mandato este ano. Aí, pela primeira vez, poderemos ter a oportunidade de ver nomeado um português que se notabilizou como Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) para ocupar esse alto cargo.

 

Depois de há uns anos ter passado por dificuldades governativas internas, e ultimamente ter deixado órfã a esquerda portuguesa numa sebastianista candidatura a PR aproveitada por Marcelo, reúne alguns apoios europeus para se lançar nesta corrida à ONU. Não sei se é o homem mais adequado para o cargo, e o caminho até lá não será fácil. Mas, caso o consiga, e independente de, por si só, ser prestigiante para Portugal, será decerto interessante ver como implementará as reformas de que a ONU necessita para gerir os conflitos e “pântanos” do mundo do séc. XXI.

 

E não devem ser assim tão poucos!

 

por Artur Efigénio