EDITORIAL

Quando o telefone toca

Um programa à vontade do freguês


Por:Pedro Pinto Leite

2016-03-11
Quando o telefone toca, era um programa de rádio que teve início nos finais dos anos 60 do século passado e consistia na escolha de músicas, através do telefone

Quando o telefone toca, era um programa de rádio que teve início nos finais dos anos 60 do século passado e consistia na escolha de músicas, através do telefone, por parte dos ouvintes. Havia toda uma espécie de ritual em que o ouvinte fazia uma série de ‘perguntas-pedidos’ aos quais o locutor ia anuindo. Era obrigatório o ouvinte debitar uma frase comercial ligada à marca patrocinadora. Uma grande parte das vezes as músicas eram dedicadas a alguém.

 

O programa permitia a participação direta dos ouvintes, auscultando-os acerca dos seus gostos musicais em vez de impor a ‘playlist’ do locutor. A grande parte dos temas pedidos eram muito populares. O programa era gravado e quando ia para o ar já estava convenientemente alinhado.

 

Os ouvintes que não gostassem do programa, podiam sintonizar outra frequência de rádio. Havia escolha e liberdade para fazê-lo.

 

Poder-se-á dizer, aplicando os conceitos modernos (ou da moda) que muitas vezes ficam no papel, que era uma forma de auscultação pública e de incentivo à participação da cidadania numa ótica de proximidade.

 

Hoje em dia a auscultação é algo que se espera que os nossos governantes, centrais ou locais, façam quando pretendem candidatar-se a um determinado cargo ou querem tomar alguma decisão importante relacionada com a vida das pessoas. Mas espera-se que o façam antes e não depois.

 

Quando há eleições há quem vote por razões da cor, da simpatia, da utilidade, do contra ou outras. Mas para fazê-lo em consciência é necessário ter algum trabalho, e muita paciência, como ler com cuidado o programa das propostas dos diversos partidos, ouvir o que os candidatos dizem, ter atenção a alguns ‘slogans’ em folhetos e cartazes que podem suscitar maior ou menor afinidade, etc. E tudo isto passa por uma questão de confiança naquilo que se lê, se ouve ou se vê. Não por um ato de fé.

 

Essa confiança supõe que tal programa ou projeto tenha sido feito numa base séria e após auscultação dos cidadãos acerca dos seus anseios e das suas necessidades e, desejavelmente, com uma visão estratégica de futuro de quem lidera cada candidatura ou decisão.

 

É também isso que se espera quanto a obras de fundo como obras de requalificação e valorização, como as do Polis Litoral Sudoeste. Espera-se que a auscultação, e mais tarde a consulta pública, sirva para inspirar e influenciar o projeto a realizar e que este seja inserido numa estratégia bem delineada e com visão de futuro. Espera-se que, quando se der o início da obra, já esteja tudo discutido e definido. Mesmo havendo quem discorde, que há sempre, todos sabem com o que contam.

 

Não é isso que demasiadas vezes acontece, quer a nível central quer a nível local.

 

Estas obras do Polis Litoral não precisariam de tanto projeto e de tanto papel e de tantos ordenados em técnicos especializados se fossem só a ‘mera’ substituição das condutas de subsolo e a repavimentação das vias públicas 

 

São oportunidades únicas de valorização dos lugares e deveriam fazer parte efetiva de uma estratégia para o futuro do território.

 

Ao fim de mais de cinco anos de apresentações, reuniões, auscultações, consultas públicas, e já com as obras iniciadas, continua-se a (não) auscultar e ainda hoje é-se capaz de ouvir o Presidente da Câmara, num determinado minuto, dizer que “tudo isto faz parte de uma estratégia” (sem defini-la) e no minuto seguinte dizer que “isto é aquilo que vocês quiserem” (revelando que tudo está ainda por definir). Desta forma passa-se a responsabilidade de algumas decisões para a comunidade, evitando a responsabilidade de se ter de tomar medidas estratégicas de futuro eventualmente pouco populares no imediato.

 

Em vez de um programa bem estabelecido enquadrado numa estratégia estruturada e clara temos um programa ‘quando o telefone toca’ e em direto. Mas nem sempre o disco tocado é o disco pedido ou nem sempre o disco pedido é sequer tocado.

 

Três exemplos:

 

Chamada do projetista - “Boa tarde. A frase é ‘No Polislon, os projetos podem ser alterados’” ... “Eu queria ouvir o ‘Ó Malhão, Malhão e Pinos à Farta’ pelos ‘Sons da Gravilha’”.

 

Chamada dos pescadores da Azenha do Mar - “Boa tarde” ... “A frase? Consultores do Portinho, quem te avisa teu amigo é” ... “Queria ouvir a música Isso Vai Partir-se! dos Rolling Stones” ... – mas a música que passa é Só Nós Dois é Que Sabemos dos Doutores & Engenheiros interpretada pelos Os Aselhas do Mar. O disco está riscado e toca três vezes.

 

Chamada de um morador – “Posso dizer a frase?” ... “Na minha rua, eu quero um lugar à porta” ... “Queria ouvir Ponho o Carro, Tiro o Carro dos Primitive Reason”.

 

Nestes programas, uma vez a frequência sintonizada, não se consegue mudar de estação de rádio. E muitas vezes, vira o disco mas toca o mesmo.

 

por Pedro Pinto Leite