DE QUEM É O OLHAR

Europa – que vergonha!

Acordo entre a União Europeia e a Turquia


Por:Monika Dresing

D. Amato
2016-04-11
Através deste acordo a União Europeia vai mandar para a Turquia todos os refugiados que cheguem “ilegalmente” à Grécia, ou seja, à União Europeia

Começo a escrever isto no dia 19 de Março, um dia após o acordo entre a União Europeia e a Turquia – um acordo entre uma união que se autoproclama detentora de valores ocidentais (supostamente valores positivos mas sempre sem definição concreta) e que alegadamente respeita a Carta das Nações Unidas bem como a Declaração Universal dos Direitos do Homem e um país onde estes mesmos direitos são desrespeitados quase diariamente.

 

Através deste acordo a União Europeia vai mandar para a Turquia todos os refugiados que cheguem “ilegalmente” à Grécia, ou seja, à União Europeia (como se existisse, para qualquer refugiado, uma maneira legal de chegar à Europa!). A Turquia, por seu lado, promete “acolher” estes refugiados, recebendo para o efeito milhares de milhões de euros e a promessa de um dia se tornar membro da União Europeia.

 

O objectivo é o de reduzir o fluxo de refugiados para a Europa, mantendo-os fora das nossas fronteiras. Assim já não somos responsáveis pelo seu acolhimento, pelo seu bem-estar, pela sua integração, etc. Toda a miséria deles fica longe dos nossos olhos. É mais uma pedra para se fechar o muro à volta da Europa.

 

Nalguns países europeus, entre outros na Alemanha que depois da Suécia recebeu mais refugiados per capita, houve no ano passado uma grande vaga de solidariedade e apoio aos refugiados por inúmeros voluntários. Também a chanceler Merkel afirmou “Nós vamos conseguir”, afirmação contra a qual houve muita resistência até no seu próprio partido. Ao mesmo tempo apareceram cada vez mais pessoas a contestar a chegada dos refugiados, exprimindo receios pouco concretos. A maior parte deles virou-se para os partidos da direita ou mesmo extrema-direita.

 

Acontece que depois da euforia inicial que existiu nalguns países europeus foi a vida política normal que regressou, quer dizer, aproximaram-se eleições em vários países e os dirigentes dos partidos políticos voltaram para a sua preocupação principal – o número dos votos para o seu partido. Os refugiados já não eram vistos como pessoas em situações extremamente difíceis e que precisam da nossa ajuda, mas falou-se da crise (para os nossos países) dos refugiados, da vaga dos refugiados, do caos e do perigo causados pelos refugiados, como se duma catástrofe natural se tratasse contra a qual se deveria proteger. Os refugiados transformaram-se em objectos perigosos cujo armazenamento deveria ser compensado.

 

Sabemos que tais medidas não vão reduzir o número de pessoas que fogem da guerra e da miséria, apenas servem para tornar a vida deles ainda mais miserável. Os refugiados têm e vão descobrir outros caminhos para chegar a países seguros, só que os custos para eles vão subir, em dinheiro e em vidas humanas. A Europa rica dispõe de todos os meios para atenuar o sofrimento destes refugiados, pode acolhê-los cá e/ou dar apoios financeiros e logísticos aos enormes campos dos refugiados nas proximidades dos locais de crise. Ao fazer pouco ou nada, a Europa é uma das grandes culpadas, uns países mais, outros menos.

 

Sei que há outros países que podem ser responsabilizados pela falta de ajuda – entre outros a Arábia Saudita e os Estados Unidos – mas a Europa somos nós, e é sempre melhor olharmos primeiro para o nosso lado.

 

O que se sente é grande impotência perante uma realidade em que milhões de pessoas sofrem e outros milhões olham para o outro lado embora sejam capazes de ajudar. Ao mesmo tempo existe o perigo concreto do aumento de xenofobia, nacionalismo, extremismo, terrorismo. Neste quadro, o que seria importante e deveria ser tarefa prioritária também dos políticos é promover a solidariedade e fornecer esclarecimentos sobre os factos e os seus contextos para que os aliciadores da extrema-direita não tenham sucesso.

 

Monika Dresing