NA PRIMEIRA PESSOA

Crescer e viver com um coração vermelho que gosta do Sport Lisboa e Benfica

Tinha sete e oito anos quando o Benfica se tornou em 1961 e 1962


Por:Manuel Cruz

2016-04-11
Vem toda esta lembrança a propósito de estarmos a viver momentos de muita mediatização em volta dos assuntos do futebol

Recordações das primeiras paixões vividas sobre o desporto que hoje, move, em Portugal, na América Latina e na Europa, grandes multidões apaixonadas; que na América do Norte ganha adeptos, em África na Ásia ou na Oceânia, cresce exponencialmente e se transformou numa actividade empresarial de espectáculo, talvez mais que desportiva, que gera milhões que se chama FUTEBOL.

 

Tinha sete e oito anos quando o Benfica se tornou em 1961 e 1962 o Campeão Europeu de Futebol de Onze.

 

Na mesa, que na minha casa servia de mesa de cozinha, de sala de jantar ou de recepção às visitas, colocada no centro de uma única divisão que tinha as valências referidas, estava colocado um Rádio de Transístores de marca Philips, alimentado por 4 pilhas secas de carvão.

 

Tinha a novidade de receber emissões de rádio em onda média, onda curta e onda marítima. Naqueles tempos muito poucos havia com Ondas Curtas, aquelas que recebiam as emissões a partir do estrangeiro.

 

Em volta da mesa, o meu pai, com os seus amigos, escutavam, com uma atenção e silêncio quase religioso, o relato dos jogos da participação gloriosa do Benfica no Campeonato dos Clubes Campeões Europeus de Futebol, nas noites de quarta-feira de jogos Europeus.

 

O meu pai permitia-me que ficasse com eles, numa cadeira um pouco mais distante, participar naqueles momentos de verdadeira paixão e tantas vezes premiada com a glória da conquista de resultados vencedores.

 

Aos Domingos à tarde assistia aos jogos da malha no Castelão e sentado no muro ouvia os relatos da bola dos jogos do Campeonato Nacional de Futebol em que o Benfica jogava. Sim os jogos do Benfica. Pois na comunidade, com cerca de uma centena de pessoas, eram quase todos adeptos do glorioso, só conhecia um adepto do Belenenses e três do Sporting.

 

Recordo o nervosismo que sentia quando o locutor relatava os movimentos atacantes dos adversários e também o sofrimento que me levava a contorcer e a movimentar a perna e o pé direitos, tentando ajudar os avançados do Benfica a marcar golos.

 

Um conjunto de jogadores notáveis, que tornaram possível que num pobre país, que estava a sofrer o flagelo de uma guerra em África, para onde tiveram de partir uma grande parte dos seus jovens, em volta de um clube popular de nome Benfica, criaram um misto de orgulho e alegria, num grande número de Portugueses apaixonados pelo jogo da bola e adeptos do clube da camisola vermelha apelidados por “encarnados de Lisboa”.

 

Jogadores brilhantes que levaram aos campos nacionais e europeus o nome de Portugal e ajudaram a cimentar o gosto da prática deste jogo colectivo e apaixonante que é o futebol.

 

Fui crescendo e fui vivendo os êxitos e os momentos menos conseguidos do clube. De clube, que, estatutariamente, só lhe era permitido ter jogadores portugueses até aos dias de hoje em que, liberto dessa exigência, em tempos recentes, passámos a jogar só com jogadores estrangeiros, mas com a esperança de que esta situação volte a inverter-se. De clube desportivo a Sociedade Anónima Desportiva. De atletas dedicados ao amor à camisola a jogadores de milhões oriundos de todas as partes do mundo.

 

Muitos anos passaram, os meios da sua divulgação são muitos e estão a toda a hora à nossa disposição. Hoje, sempre que posso, acompanho com calor e emoção a prática desportiva do clube e mantenho o sentimento de partilha ao gostar de assistir ao desenrolar do jogo em conjunto com os meus amigos.

 

Vem toda esta lembrança a propósito de estarmos a viver momentos de muita mediatização em volta dos assuntos do futebol. Todos os dias, as várias televisões dedicam horas à discussão do tema. Quase só se fala de casos e cada vez menos se discute o bom que o futebol tem, e se utiliza o tempo de antena para programas recreativos de maldizer, tendo os ditos adeptos dos clubes, a competir no desempenho de qual deles consegue dizer pior, levando ao descrédito dum desporto tão popular.

 

Nesta época desportiva os atletas que representam o Benfica estão a dignificar o passado glorioso daqueles jovens jogadores que conquistaram a Europa do Futebol nos tempos da minha infância. No Futebol estão a cinco jogos de poderem ser campeões nacionais e no jogo da 2ª. mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões Europeus, em desvantagem por um golo sofrido no primeiro jogo, em competição com o poderoso Bayern de Munique da poderosa Alemanha e apesar da grande diferença de meios entre as duas equipas continuo com aquela esperança de que os briosos rapazes que vestem a gloriosa camisola vermelha (já não é encarnada), com sofrimento mas com ambição mostrem a “Mística Benfiquista” e como guerreiros lusitanos levem de vencida a jornada e sonhem com um bom jogo no jogo seguinte.

 

Nas modalidades voltámos a estar em grande. Com outros parâmetros, com muitos mais meios, o Benfica continua a ser um clube ecléctico, um clube com muitos adeptos em todo o mundo. Os seus atletas continuam a engrandecer o nome de Portugal.

 

Aprendi com muitos desses atletas, que mais faz quem acredita e quer, que muitas vezes fazem aqueles que podem.

 

Que vença o Benfica, mas acima de tudo que seja um jogo exemplar de desportivismo que nos orgulhe e envaideça. Que permaneça também o sonho renovado da criança que existe em cada um de nós.

 

Que apesar de o mundo mudar a uma velocidade vertiginosa, possamos ter e cultivar dedicações e amores de uma vida.

 

É preciso acreditar para poder atingir os sucessos sonhados. Como escreveu o poeta António Gedeão num dos versos da “Pedra Filosofal” e Manuel Freire deu Voz:

 

“Eles não sabem nem sonham / Que o sonho comanda a vida / E que sempre que o homem sonha / O mundo pula e avança / Como bola colorida / Entre as mãos duma criança”.

 

Manuel Cruz