CICLISMO

Foi atropelado, recuperou e veio vencer a ‘Alentejana’

Odemira contribui para vitória colectiva de equipa norte-americana de esperanças

2016-04-11
Ciclista algarvio que só queria vencer a última etapa entrega de forma insólita a camisola amarela ao maiorquino Enric Mas e tira o pão da boca ao norueguês Krister Hagen

Bem se pode dizer que Enric Mas tem queda para o ciclismo. O maiorquino celebrou 21 anos em Janeiro, cumpre as primeiras semanas de profissional pela Klein Constantia - equipa satélite da equipa belga de elite Quick-Step - e veio a Portugal ganhar a Volta ao Alentejo, prova de ciclismo que se disputou entre os dia 16 e 20 de Março e teve passagem por Odemira.

 

Mas como os grandes campeões teve que superar algumas dificuldades. Nos inícios de Março aparecia numa fotografia publicada na rede social Twitter numa cama de hospital com escoriações na cara e pescoço, resultado de quedas na estrada. “Duas semanas antes de aqui chegar ao Alentejo fui atropelado e estive internado”, conta. “Nunca pensei estar em forma para esta prova, mas o trabalho que fiz em casa e os cuidados que tive deram resultado”, relata com o largo sorriso que o caracteriza.

 

Ter uma equipa motivada também ajudou. No início dos derradeiros 172,3 quilómetros da quinta e última etapa, entre Santiago do Cacém e Évora, a liderança do norueguês Krister Hagen (Coop-OsterHus) estava presa por um segundo de diferença para o espanhol.

 

Após a meta volante de Arraiolos, os dois ficaram empatados e a Klein Constantia mete em acção um plano maquiavélico, tentando lançar três ciclistas para bloquear as bonificações de tempo que significariam segundos preciosos que um dos três primeiros lugares na etapa poderiam dar ao norueguês, desfazendo o empate e devolvendo-lhe a camisola amarela.

 

Olhos na meta. O francês Remi Cavagna passa em primeiro. Dois segundos depois passa Maximilian Schachmann. Dois colegas de Mas a cumprir a missão. Hagen chega à frente de Mas, mas... perde o terceiro lugar para um intruso improvável, o algarvio Samuel Caldeira, que alheio à matemática da prova, pretendia apenas ganhar a etapa.

 

“A sério?”, perguntou à agência Lusa o algarvio da W52-FC Porto, completamente surpreendido pelo facto de o seu desejo de ganhar a etapa ter interferido nas contas do homem da Coop-OsterHus. Sim, a sério. Contas feitas, o desempate sorriu ao maiorquino. As regras ditam que se olhe às melhores classificações no conjunto das cinco etapas da “Alentejana” e Enric Mas, por exemplo, ganhou a etapa de Montemor-o-Novo.

 

Gritos de vitória, abraços efusivos, festejos eufóricos para uma vitória tirada a ferros. Depois, mais calmo, Mas sintetiza: “Tínhamos planeado fazer uma fuga para garantir as bonificações e acabei por conseguir na última meta volante os segundos que precisava para igualar o camisola amarela porque ele foi terceiro, recuperei o tempo que me faltava e acabei por chegar à vitória.” Para Hager ficou reservado o suplício de Tântalo por ter ficado com o tempo de amarela, mas não lhe poder tocar.

 

Esta “Alentejana” milimétrica entregou a Enric Mas três camisolas: amarela, a verde clara dos pontos e a branca da juventude. O espanhol mostrou assim a mais-valia da sua formação na Fundação de Alberto Contador. O português Amaro Antunes (LA Alumínios- Antarte) recebeu a verde escura da montanha e Rafael Silva foi o melhor português terminando a prova em quinto.

 

A norte-americana Axeon/Hagens Berma, formação de jovens promessas do ciclismo, ganhou por equipas. Entre os resultados que lhe deram o triunfo, contam-se as três metas volantes que o actual campeão nacional de estrada da Letónia em Sub-23, Krists Neilands, conquistou na quarta etapa, no dia 19 de Março, incluindo a de Odemira, como o MERCÚRIO noticiou.

 

Ricardo Vilhena (não usa AO)