EMPRESAS

ZMAR

O resort que se atreve a propor experiências infinitas

2016-04-11
o primeiro eco campo do país, um lugar rústico moderno que surpreende à medida que se vai conhecendo cada espaço

Abril foi o mês de visitar o Zmar, João Ribeiro Ferreira, administrador executivo, foi o anfitrião. 

 

A visita começou pelas instalações da zona central, depois a pé na zona do Sobreiro, de carro elétrico, pela zona do Lago e do Prado e acabou à mesa do FreZco (restaurante) com uma conversa animada bem ao estilo do anfitrião, pessoa simpática, generosa e calorosa. 

O MERCÚRIO procurou saber como surgiu o Zmar e qual o caminho percorrido até aqui e quais as perspetivas de futuro. João faz questão de dizer que o Zmar é fruto de um homem visionário, Francisco Mello Breyner, presidente do conselho de administração, “que tem uma capacidade ‘fora de série’ de ver à frente e que criou este projeto, no ano de 2006, com uma forte vertente ecológica, moderna e diferenciada” mas que vai abrir no ano de 2009 em plena crise do subprime, “uma fase horrível para os negócios”, acrescenta.

 

 

O CONCEITO

 

Como todos os projetos inovadores, a criação do Zmar foi um processo muito trabalhoso. “Temos de estar sempre a afirmar o conceito, a inventar coisas novas”, explica João “e hoje o Zmar é um conceito que está, cada vez mais, na ordem do dia e é por isso que o Francisco é um visionário”.

 

João integra os quadros no ano de 2013 enquanto administrador executivo. Porque a sua tarefa era a de fazer algumas ‘reformas’ no processo de gestão, pensou encontrar alguma resistência à sua atuação mas esclarece “que desde o primeiro momento o Francisco percebeu que eu era seu parceiro e tem sido ‘super’ correto comigo. É uma ótima pessoa, com um coração enorme, honesta, diz tudo o que pensa mas dá-me carta-branca para eu exercer o meu trabalho”.

 

“Quando aqui cheguei apercebi-me logo do potencial gigante que o Zmar tinha”, conta João, “mas também do imenso trabalho que me esperava”, confessa. João começa por “arrumar a casa”, construir uma equipa e inteirar-se nas contas.

 

Ainda em 2013, João convida várias pessoas para o ajudar a pensar o que é o Zmar, como se define, como se comunica. Gente ligada à gestão, ao marketing, à comunicação e às artes. A partir daí nasceu o plano de ação e o respetivo orçamento económico e começou-se a trabalhar a nova estratégia.

 

Em 2014, tempo de grandes incertezas, atreve-se a construir um plano estratégico a três anos com um crescimento ambicioso - “é mesmo um grande atrevimento porque não se sabe o que é o dia de amanhã”, diz – e com grandes objetivos económicos, de qualidade, de bem-estar social e ecológicos “e definir muito bem onde é que queremos estar em 2017”, acrescenta.

 

 

O MODELO ECONÓMICO

 

Para João o Zmar é efetivamente um resort do ponto de vista das suas características de tipologia hoteleira. “Isto é muito mais do que um parque de campismo e, por isso, merece um público mais diverso”, comenta. A ideia foi criar um espaço para todos sem perder de vista o seu conceito e saber muito bem para onde se quer ir e como é que se vai. Daí a criação do nome ‘Zmar Eco Campo’, uma vertente da vertente ecológica inicial.

 

Foram então instituídos dois modelos de serviço. Um de verão e outro de inverno. O verão com uma matriz de animação, mais virado para os espaços exteriores; e o inverno com um serviço mais personalizado e acolhedor, mais virado para os espaços interiores. Os espaços foram adequados aos novos conceitos. Transformou-se o supermercado na Sala Zambujeira e adaptaram-se todos os espaços que a circundam. “Foram criados uma série de serviços como os ‘pacotes românticos’ que têm tido um sucesso enorme”, explica João exclarecendo que “aqui não temos luxos mas as pessoas que nos visitam têm uma série de confortos simples, diferentes, alternativos e de uma autenticidade muito grande”.

 

Dentro desta perspetiva e ainda em 2015 foram apresentadas várias submarcas com uma comunicação mais segmentada. No fundo, como diz João, “é ‘embrulhar’ o Zmar com diferentes possibilidades de utilização e daí o lema ‘Atreva-se a viver experiências infinitas’”. A ideia é oferecer a uma mesma pessoa várias possibilidades de utilização do Zmar: com a família o Zmar Experience; como espaço de relaxamento o Zen Experience; como espaço de atividades ao ar livre e desporto o Zsport Experience; como espaço de festas de aniversário, casamentos ou batizados o Party Experience; como espaço de reuniões de trabalho ou ‘team building’ o Corporate Experience... “ou seja, uma pessoa pode vir ao Zmar com a família, com os colegas da empresa, com o grupo desportivo, pode vir em retiro de silêncio ou fazer um detox e o Zmar adapta-se bem a qualquer destas utilizações e foram também sendo construídos novos conceitos e dada resposta às mais variadas utilizações e isso só é possível na forma brilhante como a que as pessoas aqui o fazem”, diz entusiasmado.

 

Para poder realizar toda esta oferta de novos serviços com qualidade efetiva, o caminho escolhido foi o de uma maior profissionalização de cada departamento e uma grande aposta no crescimento sustentável. Só assim foi possível captar para ações de corporate empresas como a Nestlé, a Coca-Cola, a Toyota, a Siemens ou a Fundação Champalimaud. Como consequência disso, neste momento o Zmar já duplicou a faturação de 2013.

 

No entanto há coisas que são incontornáveis como o problema da sazonalidade, “que qualquer unidade hoteleira que esteja a mais de 100km de um aeroporto tem”, elucida João.

 

A área total do Zmar é de 81 hectares. Só para a sua manutenção há 10 pessoas a trabalhar a tempo inteiro. O número total de camas a atingir é de 1500, e a taxa média de ocupação em época alta e muito alta é de 95% o que promove uma quantidade considerável de pessoas a trabalhar quando se pretende níveis de qualidade razoáveis. “A construção de uma equipa”, confessa João, “foi dos maiores desafios que aqui tive”.

 

 

A EQUIPA

Quando João entra em funções o Zmar tinha 54 pessoas no quadro base. Neste momento, por força do crescimento e dos turnos, são cerca de 90 no quadro base e mais cerca de 120 a trabalhar em época alta e muito alta. Todas passam por um processo de seleção e por um processo de integração. Para cada lugar é preciso encontrar a pessoa certa com o perfil certo para o lugar certo.

 

O concelho de Odemira tem escassos recursos humanos com formação específica. Mas tudo se compôs e João admite que hoje tem gente “dedicada e empenhada a trabalhar” consigo e que tem “imenso orgulho” na equipa que acabaram por construir.

 

Desde o início que João informa a equipa acerca dos objetivos a atingir e como atingi-los, “de forma muito clara e objetiva”, diz. A informação passa por todos os setores. Quanto é que cada um custa, o que é que cada um tem de vender e o resultado final de tudo isso. “Assim cada pessoa fica com uma perceção muito mais real do que é o Zmar e percebe que isto só funciona com trabalho conjunto”.

 

Foram ainda implementados um plano anual de formação, de avaliação de desempenho e uma politica de prémios e incentivos e ações de ‘team building’. “Tudo isto funcionou e, portanto, temos as ferramentas básicas da gestão de recursos humanos que, no fundo, é o mais complicado de gerir”, diz João.

 

Quem vai ao Zmar é atendido de forma simpática e despretensiosa. A primeira impressão é a de que existe um bom ambiente de trabalho e que as pessoas que ali trabalham são bem tratadas. “Mas também é verdade que trabalham muito e que parte do seu trabalho é duro, mas sentem-se bem por cá, estão de boa vontade e de alma e coração porque isto não é só um emprego para elas”, acrescenta João. E continua “para mim tem sido uma experiência fabulosa do ponto de vista humano e criativo também e tenho aqui a oportunidade de provar a minha crença de que numa liderança próxima das pessoas, com simplicidade nas relações e no trato, que se põe ao lado delas, que ultrapassa o distanciamento e os estatutos, e discute os assuntos, não há limites e também não há louros individuais, só coletivos e, por isso, estou convencido que aqui as pessoas crescem enquanto seres humanos”.

 

A sazonalidade faz com que muitas pessoas passem pelo Zmar por mais ou menos tempo, “mas por pouco tempo que seja, levam sempre alguma coisa com elas porque há uma marca que fica que tem a ver com os contrastes deste lugar: ‘Verde Para Crer’ e ‘Puro e Duro’”, acrescenta João.

 

É política da empresa permitir às pessoas desenvolver a sua criatividade à volta das tarefas que desempenham. Existe também alguma mobilidade nas tarefas quando alguém não está completamente motivado. E ainda a oportunidade de promoção quando demonstrada capacidade e competência, “e sempre que haja lugares disponíveis para os ocupar, queiram ‘tocar guitarra’, por exemplo: ainda agora nomeei uma nova diretora administrativa e financeira que já trabalhava no departamento, uma pessoa jovem de 31 anos, inteligente, empenhada, trabalhadora e que ‘toca guitarra’ à séria!”, diz João, orgulhoso da sua “aposta”.

 

O Zmar continua a crescer e o grande objetivo de João é reduzir a sazonalidade e atingir taxas médias de ocupação anuais de 60%. Se conseguir o quadro base passará para 130/140 pessoas e mais 100/120 pessoas extra nos picos.

 

 

A PARCERIA COM A EPO

 

Há um projeto de recursos humanos que o Zmar tem desenvolvido com a Escola Profissional de Odemira faz já algum tempo. “Nota-se que há uma grande disponibilidade efetiva por parte das pessoas da EPO em apoiarem-nos e ajudarem-nos na formação de jovens para integrar o Zmar”, confidencia João. 

 

“Eu gosto de parcerias e gosto de estabelecer relações simples mas inteligentes com as pessoas e a EPO é um parceiro preferencial uma vez que nós podemos ajudar na otimização dos seus próprios curricula e a escola pode ajudar-nos com o fornecimento de mão-de-obra qualificada e mais ajustada às nossas necessidades”, acrescenta.

 

Na base desta colaboração está a abertura das instalações do Zmar para aulas práticas, aos estágios profissionais e a contratação preferencial de pessoas da zona de Odemira criando assim maior estabilidade quer para a empresa quer para as pessoas que nela trabalham. João tem já a experiência de contratar gente de fora que, por esse motivo, acabam naturalmente por ir embora mais cedo ou mais tarde.

 

“Este não é, nem poderia ser, um trabalho pontual, é um trabalho realizado o ano inteiro que se traduz na criação de postos de trabalho e não irá beneficiar apenas o Zmar mas todo o turismo local”, diz João.

 

 

O QUE É O ZMONTE?

 

Neste momento o Zmar está dividido em 3 grandes áreas: o Sobreiro, o Lago e o Prado.

 

Não estando ainda terminado todo o processo de alojamentos, foi criado o conceito Zmonte que prevê a oportunidade de um particular arrendar uma parcela do Eco Campo, colocar nesse espaço uma casa de madeira, prefabricada e amovível, adquirida a um dos construtores certificados e indicados pelo Zmar, e usufruir de todos os seus espaços públicos.

 

Estes Zmontes podem ser arrendados a turistas diretamente pelo proprietário ou pode ser ‘entregue’ ao Zmar para o fazer, pagando naturalmente uma comissão pelo serviço prestado.

 

Este modelo tem tido bastante sucesso. Nas épocas altas, quando a procura é maior, o Zmar consegue aumentar a sua oferta; existe também, por parte dos proprietários, algum empenho na divulgação do Zmar; a oferta do estilo das casas e da sua tipologia é mais diversificada; e nas épocas mais baixas os proprietários acabam por desfrutar das suas casas dando algum movimento ao Eco Campo.

 

João faz questão de mencionar que “o Zmonte é, mais uma vez, um conceito do Francisco Mello Breyner, é ele quem o traz para cima da mesa” acrescentando que “este tipo de alojamento, de oferta mais diversa e mais ‘divertida’, foge à standardização típica dos hotéis, daí o nosso lema ‘atreva-se a ter experiências infinitas’ e posso dizer que em 2015 o rendimento médio do investidor foi de 15% por cada Zmonte, em termos do rendimento auferido versus o investimento realizado, o que nos dias que correm é um belíssimo investimento e, dado o propenso crescimento de todo o Zmar, a tendência é também para crescer”.

 

 

AS PRÁTICA ECOLÓGICAS

 

A ecologia está na génese do Zmar. Todas as construções são em madeira, assentes em estacaria. “Se amanhã nós tirássemos daqui toda esta estrutura, tudo ficaria praticamente como estava antes da sua construção”, diz João, “aqui não há absolutamente nenhuma impermeabilização dos solos”.

 

Relativamente a outras práticas ecológicas do Zmar há dados importantes a registar: toda a água, que tem origem na barragem de Santa Clara e que é recolhida no canal, é tratada numa ETA (Estação de Tratamento de Águas) e é analisada 4 vezes por dia em função da sua dureza e do estado biológico monitorado e é corrigida e sai completamente segura para consumo humano. “Tudo é registado sistematicamente e certificado”, informa João.

 

“A água do esgoto é recolhida numa ETAR (Estação de Tratamento de Águas Residuais), que depois de tratada é utilizada na rega”, acrescenta.

 

Para além dos painéis fotovoltaicos existem ainda 600 painéis solares para aquecimento de água. João salienta que “os consumos de eletricidade são muito reduzidos, o consumo de gás só é significativo entre novembro e fevereiro e nos restantes meses é praticamente nulo”.

 

O Zmar dispõe ainda de uma central de separação integral de lixo. Todo o lixo produzido é separado e enviado para a central de reciclagem da AMBILITAL (empresa intermunicipal que explora um sistema integrado de recolha e tratamento dos resíduos sólidos urbanos) . Parte do lixo orgânico vai para os animais e outra parte para compostagem. Há ainda uma grande parte da decoração do Zmar que é feita com lixo reciclado.

 

João não deixa de salientar a disponibilidade do Município de Odemira neste processo: “sempre que é necessário podemos contar com os serviços do município, seja com algo simples seja com algum equipamento mais específico para a resolução de algum problema que surja e que nós não possamos resolver internamente”.

 

Em Portugal cada pessoa produz em média cerca de 1,8 quilos de lixo por dia, “nós conseguimos ter aqui, com todo este processo, uma produção real de lixo diário por pessoa de apenas 60 a 100 gramas, que é essencialmente lixo indiferenciado que sobra da ETAR”, diz João, orgulhosamente, “nós somos certificados pela TÜV a 98% em tudo” e acrescenta que “toda a equipa tem uma consciência ecológica e uma preocupação constante com a poupança dos recursos e um respeito enorme pela natureza e pelo bem-estar”.

 

No Zmar não existem vídeo jogos. A lógica de animação é toda virada para a natureza e para a atividade física, para um lado ativo e saudável.

 

 

RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

A forma mais imediata de responsabilidade social do Zmar é o seu próprio projeto ecológico.

 

Há também uma política de desconto de 50% na entrada para todos os residentes do concelho de Odemira.

 

De todos os eventos realizados no Zmar alguns revertem parte das suas receitas para instituições sociais do concelho de Odemira. “Não é muito, nunca foi, mas é alguma coisa e é a forma que temos para ajudar e contribuir para o bem-estar social do concelho” diz João. Em 2015 foram dois cheques distribuídos: um para o Centro de Dia de Zambujeira do Mar e outro para o Lar de São Teotónio.

 

Existe ainda uma grande abertura para parcerias e integração de projetos no Zmar. “Por exemplo o Sr. Joaquim que vem animar a nossa pista com os seus carrinhos telecomandados ou o Pedro que vem fazer passeios com as crianças no seu pónei e toda uma série de parceiros que no fim do verão tiram aqui um rendimento simpático”, conta João, e esclarece que “no fundo é uma forma informal de empregabilidade”.

 

Pedro Pinto Leite