MIRADOIRO

Forma e conteúdo

Toponímia


Por:António Quaresma

2016-04-11
“Escreva, escreva, que eu ouvi isto em Beja e gostei”

Um antigo presidente de junta de São Teotónio, ao receber a notícia de que o governador civil de Beja vinha visitar o concelho e se deslocava à sua freguesia, decidiu elaborar um discurso para a recepção da “alta individualidade”. Pediu à funcionária que o dactilografasse, e começou a ditar: 

“Excelência. Do alto destas muralhas eu vos saúdo!” A boa senhora ao ouvir esta introdução perguntou intrigada: “mas de onde é que o senhor vai discursar?” Resposta do tribuno: “Escreva, escreva, que eu ouvi isto em Beja e gostei.” Para o nosso homem, com pendor para as letras e artes, a forma era muito mais importante que o conteúdo. 

Algo diferente, mas também exemplo de discrepância entre forma e conteúdo é a palavra medo, com “e” aberto, no sentido de médão, isto é, a acumulação de areias junto à costa, vulgar no Litoral Alentejano. Até há pouco tempo, a população chamava “medos” ao que agora comummente chama “dunas”. 

Há alguns anos a junta de freguesia de Milfontes decidiu dar o nome de Rua dos Medos, a um velho acesso aos medos, mas temendo que muita gente conferisse sentido diferente ao nome da rua, mandou colocar um acento agudo em “medos” (médos), cometendo erro de ortografia, mas evitando, pensava, que as pessoas lessem “mêdos”. 

Pior a emenda que o soneto, pois imediatamente surgiram forasteiros a criticarem a acentuação da palavra “medos”, palavra que, na sua insciência, só podia ter o significado de “receios”, “temores”. E logo, na Internet, apareceu a adaptação de velhas lendas de sustos e medos (com e fechado), a esta rua, agora pela pena de um qualquer nativo a quem não falta imaginação.

Amostra da submersão do saber local pela ignorância recém-chegada, hoje o azulejo que indica o nome de Rua dos Médos surge, na opinião da maioria, como um caso de erro de ortografia, o que não deixa de ser verdade, mas não pelas razões invocadas por essa maioria. 

Outra curiosidade é a expressão “Costa Vicentina”, nome gerado aquando da criação da Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (depois, Parque Natural), inicialmente designando apenas a costa mais próxima do Cabo de São Vicente e hoje aplicado à costa alentejana. Primeiro por desconhecimento, depois porque a expressão é mais apelativa e mais comercial, cada vez mais a costa do concelho de Odemira é “Costa Vicentina”. Nada a fazer.

A última, vi-a no facebook e no youtube: duas ou três belas fotografias, com o título de “Cascata das Furnas”. Trata-se, para quem não sabe, do ribeiro, hoje engrossado pela descarga de um dos canais de rega, situado no Bosque, na Herdade de Vila Formosa. Porquê então “Furnas”, designação própria da praia junto à falésia, onde existem furnas na rocha? Coisas de concursos televisivos de praias, que acabaram por emprestar o nome de Praia de Furnas ao inteiro areal da margem sul do Mira. Como se fosse pouco, nas citadas fotografias da cascata, o nome torna-se mesmo extensivo, não já apenas ao areal, mas a toda a área adjacente. 

Faz lembrar, de certa forma, o conhecido fenómeno de brainwashing televisivo: 1.º lavagem ao cérebro do sujeito, que o faz “esquecer” o que sabe; 2.º inculcação de novo conhecimento, fabricado e desqualificado, mas com a “autoridade” da televisão. Nada de novo.

Não sou eu quem vai encetar uma cruzada pelo purismo toponímico ou outro, pois, além de coisas inestimáveis como “razão” e “conhecimento”, qualquer um tem a faculdade de subir a inexistentes muralhas medievais e de lá perorar com o talento que possuir. Parece-me, porém, avisado o hábito da reflexão.