OPINIÃO PÚBLICA

Como gado que se encaminha para o matadouro

Como se de atração irresistível se tratasse


Por:Fernando Almeida

2016-04-11
Continuamos a caminhar para o abismo, sem coragem de mudar seja o que for nas nossas vidas

Como se de atração irresistível se tratasse, assim vamos nós, dia após dia, mês após mês, ano após ano, caminhando rumo à catástrofe ambiental mais grave que alguma vez afetou a espécie humana. Está prevista, tem causas identificadas e soluções conhecidas, mas incompreensivelmente nada na nossa vida muda e a situação agrava-se continuamente. A Terra não para de aquecer, sabemos ser nós, com as nossas atividades, os responsáveis pela catástrofe que se avizinha, mas parece que uma cegueira coletiva se apoderou das gentes, mais preocupadas com ridículas insignificâncias do quotidiano que com o futuro de todos nós e das gerações que estão para vir.

 

O planeta neste último mês de fevereiro teve o fevereiro mais quente desde que há registos, mas já o mês de janeiro tinha sido o janeiro mais quente de sempre; a NASA afirma que o ano de 2015 foi o mais quente de que há memória, mas já antes dele, 2014 tinha sido também o mais quente conhecido até essa data. Especialistas mostram que o planeta Terra conheceu os 15 anos mais quentes de sempre nos últimos 16 anos.

 

Esse aquecimento global provoca antes do mais a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos. Sucedem-se as tempestades de violência sempre crescente, as crises de seca e as cheias de dimensões bíblicas multiplicam-se, há vagas de frio e de calor como nunca, e a imprevisibilidade das condições meteorológicas torna-se rotineira. Os climas mudam a um ritmo que a Natureza e o Homem têm dificuldade em acompanhar. Fundem-se os gelos polares, crescem os desertos, sobe o nível do mar… e nós, dia após dia, mês após mês, ano após ano, continuamos nas nossas pequenas vidas, achando que de algum modo aparecerá uma solução milagrosa que não nos obrigue a mudar os nossos hábitos e rotinas. Não vemos que a fé cega na ciência é mais irracional que a fé no sobrenatural… 

 

São já milhões os refugiados ambientais, mas em breve serão muitos mais. O Conselho Mundial da Água já em 1999 dizia que havia mais pessoas refugiadas devido a problemas ambientais do que devido a guerras. Algures, falta a água para que as culturas cresçam, falta a água mesmo para beber, e os povos não podem senão emigrar. Noutros locais será o mar a entrar terra adentro e a expulsar as gentes. Só após 1992, o nível médio das águas do mar subiu 8 centímetros mas o ritmo está a acelerar. Alguns estudos admitem uma subida de cerca de dois metros até 2100, o que provocaria o alagamento de algumas regiões, como o Bangladesh e do estado americano da Florida. Aos que fogem da seca e do crescimento dos desertos vão somar-se os que fogem da subida das águas. 

 

Mas previsível é igualmente a redução generalizada da produção agrícola, como consequência da inconstância meteorológica, com destruição das culturas e redução da produtividade em vastas áreas. Os que fogem à fome somar-se-ão aos que fogem à sede e à invasão do mar. Novas vagas de refugiados deverão surgir, e nós apenas esperamos não ter que fugir, nem estar na rota dos que fogem. Pensando bem, a probabilidade de tal acontecer é realmente muito baixa.

 

A fome é má conselheira, e isso sabe-se. Assusta só imaginar o que pode acontecer se às cidades deixar de chegar alimento: milhões e milhões de cidadãos urbanos com fome, divagando em hordas pelos campos em razias de rapina… talvez que nem a mais ousada ficção tenha ainda alguma vez imaginado o cenário de caos que pode surgir nesta situação. 

 

Os políticos que nos dirigem, mais vendedores de ilusões que estadistas de verdade, escondem-nos a gravidade da situação. Enquanto nos entretêm com problemas menores, não coordenam competentemente o combate ao aquecimento global nem preparam a defesa para as suas consequências. Mas nós não andamos melhor. Vemos o que se aproxima, vemos o que poderíamos evitar, mas nem os gestos mais simples (que geralmente também nos dariam vantagem económica) como poupar energia, dar preferência aos produtos locais ou reduzir o consumo de carne, somos capazes de impor a nós mesmos. 

 

E dia após dia, mês após mês, ano após ano, como gado que se encaminha lentamente para o matadouro, continuamos a caminhar para o abismo, sem coragem de mudar seja o que for nas nossas vidas. Os nossos filhos e netos nos julgarão por isso.