NA PRIMEIRA PESSOA

Diz-se que é de pequenino que se torce o pé ao pepino Será mesmo?

O sentimento do dever e o brio de querer saber e aprender


Por:Manuel Cruz

2016-05-17
Foi também a oportunidade de apelar ao Sr. Bispo no sentido de que possa ser possível à EPO a divulgação da sua oferta formativa junto dos alunos no Colégio Nossa Senhora da Graça

Teria oito anos e já fui chamado a renovar a “opção religiosa”.

 

A primeira prova aconteceu logo após o meu nascimento e como é óbvio não recordo essa vivência.

 

O meu saudoso pai, recordo, não demonstrava a sua crença religiosa, (se é que de facto a tinha), apesar de participar com toda a comunidade nos actos, da religião católica, quando de funerais, baptizados, casamentos ou festas do padroeiro da aldeia, mas lembro-me da minha mãe se orgulhar de que uma vez teria vestido a opa e transportado a Cruz, (a cruz da religião, pois de seu nome Joaquim Cruz sempre a transportou).

 

A minha saudosa mãe, não sendo uma visita permanente na igreja, porque a distância, a que vivíamos dela, o não permitia, era uma devota e temente a Deus e a todos os Santos e Santas que a igreja católica venera. Dizia que o importante era ter fé, e Deus, estando em todo o lado, estava junto dela quando, cerimoniosamente e em silêncio, ia contando as rezas no seu terço de cor preta, com a Cruz de Cristo, prateada, pendurada, e nas suas preces pedia que zelasse e fosse misericordioso, pelos seus familiares e pela paz e amor no mundo.

 

Vem-me à memória a presença permanente do espírito religioso na escola, onde, pendurada na parede da sala de aula, lá estavam a moldura com a figura do Salazar e a Cruz de Cristo, impondo a ligação entre a política e a religião. Revejo a presença periódica do pároco da freguesia e a obrigatória disciplina de educação religiosa. O meu sentimento do dever e o brio de querer saber e aprender, e sentir o orgulho da minha mãe, levaram a que fizesse a primeira comunhão. Uma cerimónia com pompa e circunstância que juntou toda a comunidade numa festa na escola onde, para além da cerimónia religiosa, havia uns bolinhos deliciosos e um chazinho de Alecrim a acompanhar.

 

Recordo também quando estava na terceira classe, de ter participado numa outra acção de cariz religioso. Foi ensaiada uma peça de teatro, onde tive a missão de representar um Africano e recitar um poema, de cariz religioso, que realçava a mensagem de que apesar da cor preta da pele, tinha uma alma de brancura celestial. Desse evento, lembro-me também que o meu pai se aborreceu profundamente comigo e com a professora. Não por representar um preto, mas por me ter sido pintado o rosto com a tisna gordurenta dos tachos que cozinhavam as refeições no lume de lenha no chão, quando, poderia, – dizia ele - ter sido tisnado com o negro de uma cortiça queimada, muito menos agressiva à pele do seu pequeno e frágil rebento.

 

E veio então o meu terceiro “acto de fé”. No seguimento da formação religiosa, um ano mais tarde, já “maduro” com dez anos, a minha mãe levou-me a celebrar a segunda comunhão. Desta vez a cerimónia já tinha um âmbito muito mais abrangente. A festa era de toda a freguesia, na Igreja de São Luiz e a responsabilidade era de um grau elevadíssimo. Estava um dia de grande calor, as ruas da aldeia estavam nobremente engalanadas, a Igreja estava repleta de pessoas e muitas crianças como eu ali estavam a assistir à missa e a receber a celebração, era de facto um dia de grande festividade. Recordo especialmente o momento que decorreu após a me ter sido dada a celebração e depositada na ponta da língua a Hóstia de cor branca e de forma circular. Esta colou-se ao céu-da-boca e fiquei numa grande aflição. A minha mãe queria que a engolisse e eu não conseguia. Como seria um grande pecado, dizia a minha mãe, também não a podia deitar fora. Gerou-se um grande desespero também na minha progenitora, por sentir que o seu adorado filho, não estava à altura, e a deixava, perante os outros, numa situação embaraçosa, esquecendo-se, momentaneamente, que eu era simplesmente um puto. Por sorte alguém acorreu com um copo de água e resolveu-se o assunto.

 

Concluída a 4.ª classe, iniciei a vida profissional, no caminho da minha adolescência e rumo a tornar-me adulto.

 

A vivência profissional, a confrontação com a realidade adulta, o conhecimento do que acontecia no mundo, a conquista da democracia, passaram a ocupar o meu tempo. Então verificou-se, naturalmente, um afastamento da crença religiosa, o conhecimento da existência de um grande número de Religiões que são praticadas no Mundo, a constatação de que as práticas se afastavam das doutrinas, a incompreensão que sentia, pelo facto de, em nome da nobre doutrina religiosa, se acometerem actos indignos do respeito pelo ser humano, as guerras em nome de cada um dos seus Deuses que levam ao sacrifício de seres humanos. Todos estes factores têm contribuído para me tornar cada dia mais Ateu.

 

O grande respeito pela crença e fé de cada um, qualquer que seja a religião que pratique, professe ou venere, leva-me a ter grandes amigos que seguem e praticam credos religiosos tão diversos como: Cristãos, Protestantes, Muçulmanos, Budista, etc., mas também grandes amigos Ateus e leva-me a professar a defesa intransigente da liberdade e da tolerância pelas opções de cada um.

 

O reconhecimento do trabalho humanitário que muitos crentes desenvolvem em prol do seu semelhante é digno do melhor louvor e, felizmente, acontece em todas os cultos (dando meramente como exemplo o trabalho árduo e de entrega a quem precisa praticado pelos crentes católicos nas Misericórdias, mostra-nos que a bondade e amor ao próximo, que todos podemos e devemos ter, acontece independentemente das opções de cada um).

 

Vem todo este olhar para o caminho percorrido para falar da visita do Senhor Bispo da igreja Católica Apostólica Romana, Dom João Marto à Escola Profissional de Odemira.

 

Coube-me a mim a responsabilidade da recepção ao Sr. Bispo, em representação da Administração da empresa da Escola, assim como aos seus acompanhantes - o Sr. Padre Manuel Pato e também o Sr. Presidente da freguesia Mário Santa Bárbara. Foi uma oportunidade para que conhecessem melhor o trabalho que todo o pessoal da escola desenvolvem em prol de Odemira e dos Odemirenses. Foi uma oportunidade da comunidade da Escola Profissional e da Universidade Sénior, mostrarem o seu dom, respeitoso, de bem receber ao presentearem os visitantes com dois momentos de cante e música. Foi para mim, também a oportunidade de apelar aos seus bons serviços, para que interceda no sentido do intercâmbio da Escola Profissional e o Colégio Nossa Senhora da Graça, nomeadamente, para que possa ser possível à EPO a divulgação da sua oferta formativa, que é complementar à oferta do colégio, junto dos alunos naquela instituição, algo que parecendo de decisão fácil, efectivamente nunca lhe foi permitido. O momento do período do almoço proporcionou-nos reflexão sobre religião, passado e presente. Esperando que a tolerância católica releve alguma falha da minha parte, nomeadamente quanto ao desconhecimento das regras da religião, a visita do Sr. Bispo tenha sido do seu agrado, assim como do Sr. Padre da vila e do Sr. Presidente da Freguesia de Salvador Santa Maria.

 

Sendo a escola um ponto de encontro de conhecimentos e saberes onde o objectivo principal é o formar homens e mulheres, são sempre muito importantes os contributos dos nossos visitantes.

 

Temos sido presenteados com contributos de catedráticos, de empresários, de militares, de políticos, de agentes do movimento associativo, e de amigos com saberes muito diversificados, agora tivemos a presença de representantes da Igreja Católica.

 

Estamos sempre de braços abertos para novas visitas de todos estes sectores indicados ou de outros, nomeadamente de outras opções religiosas.

 

Enfim…. Não será necessariamente de pequenino que se moldará o nosso destino.