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FRUPOR

Produzir qualidade comunicar verdade

2016-05-17
A Frupor, empresa de produção agrícola instalada no Brejão, é uma das primeiras empresas de horticultura a fixar-se no concelho de Odemira.

A Frupor, empresa de produção agrícola instalada no Brejão, é uma das primeiras empresas de horticultura a fixar-se no concelho de Odemira. O seu fundador, Ole Martin Siem, conta um pouco do percurso desta empresa que cultiva couves, plantas ornamentais, cenoura e uva.

 

Enquanto economista sabia que assim que Portugal e Espanha se unissem à Comunidade Europeia e uma vez que as condições para a prática agrícola melhorassem e que as pessoas começassem a usar a terra e a acrescentar-lhe valor, os preços da terra subiriam. Ole Martin achou que “a oportunidade estava ali e se eu quisesse fazer alguma coisa em Portugal deveria vir e começar imediatamente”, revela.

 

 

 

Quando Ole Martin aqui chegou, em 1985, a grande maioria das propriedades não tinha qualquer uso, “tirando algum gado que pastava anarquicamente sem que alguém se importasse com isso porque havia uma certa liberdade em dar de comer às vacas”, diz.

 

Com água em abundância, o sol português, terra plana e arenosa, boa para as produções de inverno, e mão-de-obra disponível, porque o desemprego nesta zona era grande, Ole Martin sabia que “com algum capital, conhecimento e iniciativa, tinha aqui todas as condições críticas necessárias para a criação de uma produção hortícola de sucesso”.

 

 

A EMPRESA

 

A empresa Frupor, criada na Noruega por razões naturais e de proximidade com os advogados, cedo foi transferida para Odemira porque, para Ole Martin, “é aqui que temos a nossa produção, é neste lugar que temos as pessoas que trabalham connosco, é neste concelho que queremos pagar os nossos impostos, de ter a capacidade de estar próximo do poder local e de fazer parte da comunidade e isto tem tudo a ver com a forma de como gostamos de tratar as pessoas e de compreender a comunidade e nos relacionar com ela”.

 

Empresas como a Frupor, inspiraram outras companhias e outros investidores de sucesso a instalarem-se no concelho de Odemira. Mas o fantasma do fenómeno Thierry Roussel, que foi um desastre com efeitos muito negativos para toda a agricultura, está ainda presente na memoria coletiva local. “O problema é que ele nunca foi um homem de negócios, muito menos um agricultor”, explica Ole Martin, “Thierry Roussel era um Playboy que infelizmente tinha poder e dinheiro ‘a mais’ (Thierry Roussel foi casado com Christina Onassis, filha e herdeira do bilionário Aristóteles Onassis) e desperdiçou tanto dinheiro e causou tantos danos que acabou por nos prejudicar a todos deitando por água abaixo todo o nosso esforço na construção da credibilidade de uma agricultura mais amiga do ambiente, mas sobrevivemos a tudo isso e continuamos a crescer e a criar postos de trabalho”.

 

 

OS PRODUTOS

 

Quando a Frupor se instalou não se sabia que produto teria aqui uma “vantagem natural”. Fizeram-se experiências com vários tipos de vegetais e chegou-se à Couve Chinesa, um vegetal da família da couve Brassica e com as mesmas propriedades nutricionais em termos de prevenção do cancro, por exemplo, mas que aparenta ser uma mistura entre aquele tipo de couve e a alface iceberg, podendo comer-se crua ou cozinhada. “Acabámos por servir o mercado do norte da Europa desde o início de novembro até ao fim de maio, de cada ano, sendo que no mês de setembro fazíamos as primeiras plantações”, explica Ole Martin.

 

Mas no regresso às temporadas, Ole Martin ia perdendo os seus melhores trabalhadores “porque as pessoas gostam de férias, mas não de tantas, porque precisam de ganhar a sua vida e, por isso, procuravam trabalhos mais estáveis e permanentes”, diz.

 

Para manter uma atividade produtiva o ano inteiro, sobretudo na época em que a Couve Chinesa não exigia tanta mão de obra (de junho a outubro), a Frupor em 1988 começou a produção de plantas decorativas que em 1991 se consolidou anual e permanente.

 

E outros produtos foram surgindo como recentemente as Cenouras Snack, um produto saudável que substitui os snacks processados e, há oito anos atrás, o vinho.

 

“O que fizemos foi aproveitar alguma terra que tínhamos, com características menos próprias para a produção de vegetais, e plantar vinha”, explica Ole Martin “mas eu não queria comercializar o vinho até que este atingisse um nível de qualidade que me desse garantia de sucesso e, por isso, só no ano passado lançamos o nosso primeiro vinho, com a marca ‘Vicentino’, este ano já lançamos mais dois e num futuro próximo mais virão”, diz.

 

A marca foi criada, o marketing foi desenvolvido e dadas as características especiais do vinho aqui produzido junto à costa alentejana, e “também pela distinção do nosso enólogo, Bernardo Cabral, como o enólogo do ano”, acrescenta Ole Martin, o ‘Vicentino’ tem atraído a atenção da comunidade vinícola e dos media que o recomendou em 2016 como um dos dez vinhos a não perder.

 

AS PESSOAS

 

Alguns anos após o início da sua atividade a Frupor empregava entre 100 e 250 pessoas, consoante a época. “No início as pessoas vinham a pé ou de bicicleta e depois de mota e ainda me lembro quando, pela primeira vez, um dos meus primeiros trabalhadores trouxe o carro” recorda Ole Martin.

 

Hoje o automóvel é o meio de transporte de praticamente todas as pessoas. Para Ole Martin “este pode não ser um critério para medir o sucesso mas é certamente um bom indicador de desenvolvimento positivo da economia porque com o seu salário as pessoas podem comprar os carros no stand local, fazer compras nas lojas locais, ir aos restaurantes locais, e tudo isso desenvolve a economia local e contribui fortemente para a descida do desemprego”.

 

Sendo Odemira nessa altura vista como um dos lugares mais pobres de Portugal o concelho era pouco atrativo para os portugueses que procuravam trabalho. E com o aumento da produção agrícola tornou-se necessária a importação de mão-de-obra de várias partes do globo. Os primeiros emigrantes vêm dos países do Leste Europeu “e ainda temos muitos a trabalhar connosco”, diz Ole Martin. Mais tarde, há uns sete anos, começam a vir também da Tailândia e de outros países do Oriente. “E também temos vários a trabalhar desde então”, acrescenta.

 

A FORMAÇÃO E A EQUIPA

Na Frupor “nenhum negócio é mais importante do que as pessoas que nele trabalham, elas são o recurso mais importante que temos, por isso é preciso formar e trabalhar no sentido de garantir que toda a equipa está confortável e contente”, diz Ole Martin, “e a prova disso é termos cerca de 20 pessoas a trabalhar na Frupor há mais de 25 anos e muitas outras há mais de 15 e 20 anos, até os emigrantes permanecem por grandes períodos de tempo, o que revela que as pessoas aqui estão contentes com a forma como são tratadas, com o que fazem e com o que ganham e tudo o resto”, acrescenta.

 

Na Frupor a formação das pessoas é continua relativamente à segurança no trabalho, ao ambiente, ao manuseamento de produtos químicos e dos novos equipamentos mas também aos trabalhos de escritório.

 

Desde o primeiro ano a Frupor organiza dois eventos especiais para os trabalhadores, um em junho, no fim da campanha, e outro no primeiro fim de semana de cada ano. Todas as pessoas, dos quadros ou contratadas, e suas famílias são convidadas. Normalmente cerca de 250. Ole Martin conta que “ali não há hierarquias, comemos uma boa refeição, bebemos uns copos e dançamos um pouco, e conversamos uns com os outros e tudo isto ajuda a conhecermo-nos melhor”.

 

Existem ainda outros eventos de teambuilding como o Concurso de Pesca na charca da empresa. São pescarias matinais que vão até cerca das onze da manhã. “Temos prémios para o maior peixe, para o peixe mais pequeno, para o melhor sorriso, o melhor estilo, para tudo”, conta Ole Martin, “é um dia bem passado, temos no jardim um churrasco e todos aproveitamos par relaxar, num sábado, fora do trabalho e ao ar livre a conviver uns com os outros”.

 

 

A RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

Em termos de cuidados de saúde, todos os anos os trabalhadores da Frupor fazem um ‘check-up’ de rotina. A média do peso das pessoas e os níveis de açúcar no sangue subiam e algumas doenças relacionadas com uma alimentação pouco saudável aumentavam. Foram, então, tomadas iniciativas de sensibilização relativamente a uma alimentação equilibrada, e a tudo o que respeita uma vida saudável.

 

Daí ter surgido, há nove anos, a “Corrida Para a Vida”, uma iniciativa da Frupor onde toda a comunidade é convidada a participar. Não é necessário correr. Pode-se andar. E há duas metas: 6 e 10 km. E tem tido um enorme sucesso a julgar pelo número de participantes que começa a aproximar-se dos 1000. “E isso põe o exercício físico na ordem do dia o que me dá uma enorme satisfação e, ver nos meus ‘crosses’ matinais de fim de semana colegas de trabalho a correr para se manterem em forma, é tudo o que importa”, diz Ole Martin.

 

A Frupor apoia algumas instituições e coletividades. Nem sempre as mesmas mas maioritariamente a APCO (Associação de Paralisia Cerebral de Odemira) e o Clube de Futebol local para crianças e jovens. “Estou muito feliz de poder contribuir para a atividade da APCO e por contribuir para uma melhor educação física dos jovens”, diz Ole Martin.

 

 

O AMBIENTE

 

Nos anos 80 do século passado havia ainda pouca consciência ambiental em Portugal. Ole Martin fez questão de transmitir aos seus funcionários a necessidade de se manter os espaços comuns limpos. Mas cuidar do ambiente está longe de ser apenas isso. Ole Martin também faz agricultura na Noruega, de forma biológica, já o fazia antes de vir para Portugal. Por isso, parte dos produtos da Frupor são também de cultura biológica “e aqueles que não o são, são produzidos com práticas de proteção integrada com o recurso mínimo de químicos, o uso de herbicidas está quase no nível zero porque temos maquinaria muito sofisticada que utiliza GPS, por exemplo, e sabemos exatamente onde está cada planta, cada linha e, quando é preciso eliminar as ervas, fazemo-lo mecanicamente e cortamos praticamente tudo menos o nosso produto”, explica.

 

Na produção de vinho a Frupor utiliza formas menos tradicionais de plantação da vinha quer na altura das sebes quer na distância entre as linhas para uma melhor circulação de ar permitindo à uva estar mais longe do solo e secar mais rapidamente. “Dessa forma a utilização de fungicidas é muito menor e como as uvas estão mais altas são mais fáceis de apanhar, tudo isto faz-nos todo o sentido”, diz Ole Martin.

 

Outra das preocupações da Frupor é a reciclagem. Todo o lixo é selecionado. O vidro e o plástico vão para recolha municipal mas o papel e cartão é devolvido ao fornecedor das caixas de cartão.

 

“Temos nas nossas quintas uma série de parcelas reservadas ao crescimento e desenvolvimento da flora e fauna natural local, uma espécie de ilhas para a natureza respirar, um abrigo especial”, conta Ole Martin, “praticamos também uma agricultura ‘verde’, depois da colheita fazemos um intervalo e semeamos outro tipo de plantas para devolver à terra os nutrientes de que precisa, sobretudo para fixar o azoto e com isso o uso de fertilizantes é mínimo, e no verão semeamos erva para que os terrenos sofram a menor erosão possível”.

 

 

A QUALIDADE

 

Os produtos Frupor têm vários certificados como o GlobalGap (certificação de boas práticas agrícolas) e o BRC (certificação de qualidade para os retalhistas britânicos) entre outros “e isso tem a ver com o respeito pelo ambiente, com a correta utilização dos produtos químicos, dentro de todas as leis e restrições, com a maneira como as pessoas são tratadas, etc.”, explica Ole Martin, que diz aplicar muitas destas regras hoje existentes, por sua própria iniciativa, muito antes de serem obrigatórias e que facilmente tem “todos os certificados exigidos pelos grandes retalhistas” e acrescenta que “hoje o consumidor tornou-se muito exigente, as pessoas estão informadas e preocupam-se com a saúde, com aquilo que ingerem e quando compram uma Couve Chinesa como a nossa têm toda a confiança de que foi produzida de forma correta, sem produtos químicos, de que é bom para si mas também para o ambiente, porque isso é bem comunicado”.

 

Há também um conhecimento agrónomo por detrás de um bom produto que diz quando deve ser plantado, regado, com que quantidade de água, e em que condições deve ser colhido, mas, para Ole Martin “a qualidade é mais do que isso, tem a ver também com a estabilidade do produto, com a capacidade de fornecimento ao longo do tempo, com a boa comunicação com o cliente, e atempada, e a esse respeito temos feito um bom trabalho”.

 

A Couve Chinesa da Frupor é mais cara 25% do que a dos produtores espanhóis concorrentes e, segundo Ole Martin, isso só é possível através da garantia de qualidade, porque se o processo de colocar um produto fresco num expositor de um supermercado é dispendioso, comprar um produto mais barato mas de qualidade inferior pode torná-lo ainda mais dispendioso, porque metade pode ir para o lixo. “Se se enviar apenas produto de qualidade, bem embalado, nas quantidades certas consoante a capacidade de escoamento, este mantém-se sempre com bom aspeto nas prateleiras e o cliente final tem qualidade garantida”.

 

 

O MERCADO

 

O mercado da Frupor começou na Noruega. Ole Martin conhece bem o mercado do seu país e os seus problemas. Com uma população de apenas cinco milhões que vive dispersa num país que é quatro vezes maior que Portugal, cuja distância entre o norte e o sul é como do sul da Noruega ao sul de Itália e com lugares onde só se chega de barco, a distribuição de produtos é bastante complicada. Para chegar ao mercado Norueguês a Couve Chinesa pode demorar cinco dias de viagem de camião, mais dois ou três na distribuição dentro do país.

 

“Portanto parte do nosso sucesso está primeiramente na qualidade intrínseca da Couve Chinesa que pode viajar em melhores condições aos mais remotos lugares da Noruega que uma qualquer alface, mas também na qualidade do nosso produto e de saber exatamente quando colhe-lo e arrefecê-lo à temperatura certa e, se tudo for feito como deve ser, a Couve Chinesa ainda pode durar três semanas na prateleira”, explica Ole Martin.

 

Quando a Couve Chinesa entrou no mercado Português ninguém sabia o que era mas hoje encontra-se à venda em todo o país. Ole Martin conta que “tudo começou com o desenvolvimento do mercado em Lisboa na época de produção, entre novembro e maio e o mercado foi-se alargando e a procura foi crescendo até que fez sentido produzirmos Couve Chinesa durante os meses de verão e, neste momento, o produto é produzido o ano inteiro, até porque descobrimos que no verão também seria fácil exportá-lo para Espanha”.

 

 

A GESTÃO

 

A filosofia da empresa é que ‘as más notícias devem circular mais depressa do que as boas’, e isso é algo que Ole Martin leva muito a sério porque “quando isso acontece vamos sempre a tempo de resolver os problemas que vão surgindo”, diz.

 

No início, Ole Martin teve o seu período de adaptação às diferenças culturais entre o seu país de origem e Portugal. A sua abordagem nórdica de gestão teve de ser ajustada mas nunca perdendo as suas convicções profissionais. Ole Martin diz que “agora as mentalidades são outras e hoje temos reuniões semanais com todos os diretores, assistentes e supervisores e o tema é equipa e equipa e equipa e que todos temos de remar para mesmo lado, que temos de estar sincronizados e de saber para onde queremos ir porque eu não tenho a capacidade de estar em todo o lado, a toda a hora, e por isso cada decisão tem de ser tomada no seu respetivo nível e é muito importante que se chegue a este patamar de entendimento e de comunicação”.

 

Para Ole Martin todo o investimento que a Frupor faz em Odemira é uma mais valia para o concelho e para as pessoas que aqui vivem porque “ninguém consegue pegar numa propriedade, colocá-la no bolso, e levá-la daqui, por isso se eu me for embora todas as mais valias ficam cá, e a única coisa que posso fazer é vendê-las a quem quiser dar continuidade ao processo”.

 

A Frupor, até hoje, nunca distribuiu dividendos aos seus acionistas, onde se incluem Ole Martin e os seus irmãos. Todos os lucros foram reinvestidos em Odemira, na empresa, em novas produções, em novos edifícios, em melhores condições de trabalho “e temos muito orgulho nisso”, afirma Ole Martin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

por Pedro Pinto Leite