Opinião pública

Nós, a agricultura e o futuro

Desenvolvimento e ambiente


Por:Fernando Almeida

2016-05-17
Mesmo no que respeita às vantagens para a economia que esta agricultura intensiva proporciona, há que ver se o que se ganha nessa atividade não se vai perder em outras

A crise dos últimos anos desmoralizou-nos enquanto povo. Obrigou-nos a emigrar massivamente, criou-nos a ideia de que o futuro nesta terra nunca será brilhante. Por isso valorizamos agora mais os nossos pequenos ou grandes sucessos, olhamos com agrado ou orgulho para as iniciativas de portugueses que são referências no mundo. Desejamos (certamente todos nós) ver a economia a recuperar para que não voltemos a estar nas mãos avaras dos “mercados” ou seja lá de quem for.  Também sabemos que só produzimos em Portugal cinco por cento do trigo que consumimos, dez por cento das leguminosas secas, e que somos de um modo geral deficitários no que respeita ao abastecimento alimentar.  

 

Talvez seja por estes motivos que ficamos particularmente felizes ao ver a retoma do nosso setor agrícola, que depois de uma prolongada fase de decadência, recupera agora com algum vigor, procurando nos produtos tradicionais, mas também em novas culturas, mercados atrativos que viabilizem e dignifiquem quem vive da terra. Acontece o mesmo com a indústria, que parece ter novo fôlego em alguns setores, como é o caso do calçado, depois de alguns “videntes” terem profetizado a sua morte irremediável. Em todos os casos nos alegra ver o sucesso daqueles que na nossa terra lutam para conseguir prosperidade económica. Mas…

 

É claro que, mesmo com a ânsia de conseguir sobreviver na selva concorrencial em que se transformou o mercado de bens e serviços global, há que respeitar criteriosamente valores e princípios na área da relação social e do ambiente. De que nos serviria ter as contas públicas em ordem, se fôssemos todos escravos sem direitos? Ou, de que nos serviria ter empresas prósperas, mas águas contaminadas e impossíveis de utilizar, solos poluídos, ribeiros mortos, mar onde se não pudesse pescar, mariscar, ou simplesmente tomar banho… Há assim que ter o cuidado de procurar um desenvolvimento sustentável para a nossa terra e para o nosso povo (e o nosso povo são todos os que vivem junto de nós, mesmo que tenham nascido em qualquer outro local), o que vai muito para lá do simples crescimento e sucesso da economia. É por isso essencial que as atividades económicas respeitem o ambiente onde se inserem, quer se trate de indústria quer se pense em agricultura. 

 

Por mim fico muito satisfeito quando vejo a agricultura do concelho de Odemira a desenvolver-se, quando vejo novas culturas, camionetas carregadas de produtos da terra que seguem para a Europa criando riqueza e futuro para os nossos jovens. Pergunto-me contudo se estaremos a fazer esse desenvolvimento no sentido certo, no respeito escrupuloso pela natureza, pela água que bebemos, pelo ar que respiramos, pelos alimentos que comemos, pelos seres vivos com que partilhamos a Terra. E muitas informações, provenientes de fontes diversas, dizem-me que não. Dizem-me que às vezes estamos apenas a ganhar dinheiro, mas que a água dos furos e poços em muitos casos está contaminada e já não se pode beber, que quem trabalha em estufas e campos adoece vítima de químicos perigosos, que há troços da costa onde já não se pode apanhar marisco, algas ou peixe. E isto, meus amigos, pode corresponder a crescimento da economia, mas não é desenvolvimento. Do crescimento e sucesso da economia não pode resultar a degradação da qualidade de vida das pessoas, a destruição dos recursos da natureza mais fundamentais como a água, a terra e o ar. 

 

Mesmo no que respeita às vantagens para a economia que esta agricultura intensiva proporciona, há que ver se o que se ganha nessa atividade não se vai perder em outras, como seja o turismo.

 

Por outro lado o progresso da agricultura, para que seja realmente progresso, tem que estar orientado para o futuro, não para o passado. O passado neste caso é a agricultura de “cidas” (herbicidas, fungicidas, inseticidas…) do século XX e o futuro é a agricultura compatível com a qualidade do ambiente que já se desenvolve a todo o vapor no século XXI. O futuro é inegavelmente o exemplo da Dinamarca, que se está a preparar para ter uma agricultura cem por cento sustentável, e que já hoje constitui um caso de sucesso na exportação de produtos provenientes da agricultura biológica. 

 

Quando vejo no nosso litoral nascerem estufas, e as tradicionais culturas agrícolas e pastagens convertidas em agricultura intensiva, percebo que estamos a caminhar depressa no que respeita à nossa agricultura. A dúvida que me assalta e inquieta é se realmente estaremos a caminhar no caminho certo, ou se estaremos de facto a correr, mas para trás, contra a corrente da história.