CAIXA DE PANDORA

A emoção do desalento

Se não exigimos melhor, merecemos o que temos


Por:Paulo Barros Trindade

2016-05-17
É possível sobreviver neste mundo sem prestar atenção ou importância aos políticos eleitos e ao que estes fazem pela nossa comunidade.

Depois do interregno de um mês, em que não me foi possível escrever por razões profissionais (simplesmente não consegui ter tempo) volto à rotina destas linhas, mas desta vez num registo algo diferente, pois escrevo num contexto um pouco mais emotivo do que me é habitual.

 

Acabei de chegar do Porto onde fui fazer aquilo que qualquer um faria, ou seja, visitar um amigo ao Hospital. Um amigo de há mais de 13 anos e que trabalha comigo há 8. Dedicado como poucos, não me lembro de nestes 8 anos ele ter faltado um dia, seja por doença, seja por qualquer outra razão. Essa dedicação valeu-lhe algumas promoções e complementos salariais, que lhe permitiram dar à esposa e ao filho uma vida digna e respeitável. E tudo pelo seu próprio mérito!

 

Tem 44 anos e encontrei-o na cama atingido por um AVC e um pequeno enfarte do miocárdio quase simultâneo, com o lado direito substancialmente afectado.

 

Sendo da minha idade e tendo eu um ritmo de vida ainda superior ao dele, trabalhando normalmente muito mais horas do que o razoável esquecendo muitas vezes que existem férias e que é preciso descansar, é natural que tenha feito as devidas associações e extrapolações.

 

Mas saindo da esfera do eu, fiquei igualmente a pensar no que muitos têm de fazer para conseguir garantir um futuro melhor para os seus, muitas vezes com sacrifícios pessoais. Estão dedicados ao trabalho e ao sucesso das empresas onde trabalham, assegurando assim os seus empregos e a continuidade da progressão da sua carreira, com o intuito de garantirem uma melhor vida para si e para os seus, o que não deixa de ser o objectivo que todos temos, ainda que uns se esforcem mais por isso que outros.

 

Sendo um acérrimo defensor da Meritocracia, não posso deixar de assinalar o grande contraste que existe quando se compara o sacrifício destas pessoas com a forma como funciona hoje a classe política em Portugal. Ainda há um ou outro que, com sólida formação e experiência, acredita no dever público e aceita ir exercer funções políticas, muitas vezes com remunerações bem mais baixas do que as que obteriam no sector privado e sujeitando-se à pressão que os media colocam sobre esta classe.

 

No entanto, quando se pensa nos políticos exclusivos que grassam por este país fora vemos, na sua maioria, pessoas que não sabem o que são sacrifícios, que com fraca preparação, desde tenra idade se agarram às J partidárias, para conhecerem os players, os bem relacionados que, em troca de vassalagem e apoio político, os colocam no caminho certo para virem a ocupar a miríade de lugares públicos que emergem dos diferentes organismos do estado, sobretudo nas fases de troca de governos, criando assim uma cadeia artificial para catapultar os elementos mais empenhados na vassalagem, criando um sistema que não tem absolutamente nada a ver com a Meritocracia.

 

Estes cenários políticos passam-se a nível nacional, mas obviamente também a nível regional e concelhio e até sendo mais evidentes a este nível, pois ai até classificam a população, dividindo-a em alinhados, indiferentes e não alinhados. E, claro, se aos alinhados basta ir favorecendo aqui e ali, sempre que necessário, aos não alinhados, pelo contrário, interessa desacreditar, colocar umas pedras no caminho e prejudicar, sempre que a boa oportunidade surja. 

 

Os indiferentes, que infelizmente são a maioria, são o rebanho de ovelhinhas que quer apenas viver o seu dia a dia, sem chatices, demitindo-se totalmente das suas responsabilidades enquanto cidadãos e até abstendo-se na sua maioria, de exercer o direito de voto deixando para os outros o seu próprio destino, que é algo muito mais confortável do que as chatices. Para estes últimos, os políticos exclusivos, nos quatro anos de mandato, reservam sempre um ou outro pequeno presente, mais não seja pintar de alcatrão a estrada que passa lá perto de casa, na véspera das eleições, ou por lá aparecer na campanha enaltecendo a importância que esses indiferentes têm os quais, inspirando baforadas de ar, colocam os peitos ao alto, para ficarem bem na fotografia ao lado dos senhores que mandam, dos senhores importantes, que os esquecem nos segundos seguintes.

 

Esquecemo-nos sempre que é sobre o sacrifício do nosso trabalho que o Estado cobra impostos e que são esses impostos que pagam os salários e demais regalias de todos os políticos exclusivos que, em vez de nos responderem numa abordagem humilde, de quem sabe o seu lugar, de quem sabe que foi eleito para servir a comunidade, assumem a posição senhorial de reizinhos de trazer por casa, a quem todos devemos a respectiva vassalagem, se não queremos problemas.

 

É possível sobreviver neste mundo sem prestar atenção ou importância aos políticos eleitos e ao que estes fazem pela nossa comunidade, mas também talvez seja essa a razão pela qual não há mudança. Se não exigimos melhor, merecemos o que temos. 

 

Nestas últimas eleições presidenciais, uma das candidatas foi bastante penalizada por defender a reforma vitalícia para os políticos. Até há poucos anos atrás o cumprimento de 3 mandatos numa Câmara Municipal dava o direito a uma subvenção vitalícia, nome pomposo para quem não quer assumir o real – uma reforma para o resto da vida. Foram inúmeros os políticos que em tenra idade, muitos com pouco mais de 40 anos, tiveram direito a essa subvenção. Odemira não foi excepção. 

 

Qualquer comum mortal terá de trabalhar até aos 66 ou 67 anos para conseguir uma reforma, mas políticos com 40 e poucos anos conseguem obter esse direito. Fizeram mais sacrifícios do que os demais? Sacrificaram mais a sua saúde? E nós, os cidadãos deste País, vamos assistindo a estes disparates impávidos e serenos.

 

É esta abstração colectiva, esta demissão de responsabilidades que faz com que sejamos geridos por gente mal preparada e disposta a tudo para manter os seus lugares, que não são mais do que os seus empregos.

 

E os políticos estão à espera dessa abstração, dessa demissão de responsabilidades de cada um de nós como cidadãos, pois interessa-lhes. Perpetuam-se no poder e nós, os cidadãos, continuamos a sacrificar-nos até que um AVC ou qualquer outra sigla igualmente assustadora nos coloque de “férias”, finalmente com a nossa tão merecida reforma, ainda que tenhamos de passar o resto da nossa estuprada vida a decidir entre comprar o pão ou os medicamentos.