A MÁQUINA DO TEMPO

O Dia da Raça

Data ideal para sublinhar a originalidade do povo português


Por:Artur Efigénio

2016-06-17
Só quem nunca passou nenhum 10 de junho fora de Portugal junto de outras comunidades portuguesas é que nunca sentiu o prazer de o comemorar

Comemorou-se a 10 de junho o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. É o dia que assinala a morte de Luís Vaz de Camões em 1580, mas é também o dia dedicado ao Santo Anjo da Guarda de Portugal. O tal que apareceu aqui bem perto de nós a Afonso Henriques, predestinando a vitória na Batalha de Ourique.

 

Mas nem sempre assim foi. Durante o Estado Novo era também designado como o “Dia da Raça”. Epíteto criado por Salazar aquando da inauguração do estádio do Jamor, construído segundo a traça das obras emblemáticas de Duarte Pacheco para exaltação do líder e para dar enquadramento cénico às cerimónias e aos discursos inspirados nas mais modernas tendências da propaganda da época, iniciadas com Mussolini, Hitler ou Franco. Ah!… E também para se jogar futebol.

 

Esta era a data ideal para sublinhar a originalidade do povo português e a sua diferença face aos outros países, pois Portugal é dos mais antigos da Europa e tinha um império colonial como poucos possuíam. Um povo aparentemente frágil, mas com valores que permitiam realizações a nível global.

 

Aos mitos da fundação e da restauração, o regime aliou o mito da epopeia marítima, sendo Camões, como escritor do clássico da literatura épica “Os Lusíadas”, o símbolo máximo de toda esta gesta de heróis da expansão.

 

Salazar sabia que a propaganda, que hoje se apelidaria de “marketing” político, era a mais eficaz arma para enaltecer a sua doutrina, e a utilização dos heróis da nossa História era a pólvora mais apetecível para esses propósitos.

 

Ele sabia que o culto do líder e a encenação das suas aparições públicas eram também uma fonte de legitimação do poder. Esta era uma técnica já utilizada por vários reis portugueses, mas que foi exemplarmente explorada pelo Major Sidónio Pais, breve Presidente da República, também designado por Fernando Pessoa como Presidente-Rei, tragicamente assassinado pelo nosso conterrâneo das zonas de Garvão, José Júlio da Costa, quando se apresentava em público, exemplarmente fardado, e passava revista às suas guardas de honra montado no seu alazão.

 

Talvez o corolário do conceito de propaganda política tenha acontecido durante o Estado Novo aquando da Exposição do Mundo Português, realizada em 1940 em Belém para a dupla comemoração dos 800 anos da Fundação e dos 300 anos da Restauração. Aqui o empenho político resultou da compreensão do que estava em jogo: Passar ao ato, em forma de comemoração, a consagração pública de uma legítima representatividade própria, eminentemente ideológica, que implicou a renovação urbana da zona ocidental de Lisboa na zona dos Jerónimos. Quem já visitou o Portugal dos Pequenitos em Coimbra, poderá, por momentos, e em ponto pequeno, imaginar o ambiente vivido por esses dias. Foi uma Expo98, mas dedicada apenas ao Portugal colonial e folclórico. (curioso que a História volta sempre a repetir-se!).

 

A partir de 1963, com o estalar da guerra dois anos antes, a data do 10 de junho passou também a homenagear as Forças Armadas, numa exaltação da Guerra e do poder colonial, passando as cerimónias a serem realizadas no Terreiro do Paço num ato de evocação dos novos heróis que combatiam em África.

 

O Dia de Camões, de Portugal e da Raça vigorou até ao 25 de abril de 1974, tendo a partir de 1978 passado também a evocar as comunidades da diáspora portuguesa espalhadas pelos quatro cantos do mundo, designando-se nos dias de hoje como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

 

Seremos verdadeiramente diferentes? Não sei. Sei, isso sim, que como povo somos comprovadamente apreciados, conceituados e elogiados quando comparados com outros e quando estamos no estrangeiro. Seja pelo nosso trabalho, pelo nosso humanismo, pelo nosso humor, mas também pela nossa capacidade de improviso e criação de valor, contrariando as correntes internas de lamúrias, melancolias e do tal “fado” que querem fazer passar como estando eternamente destinados.

 

E só quem nunca passou nenhum 10 de junho fora de Portugal junto de outras comunidades portuguesas é que nunca sentiu o prazer de o comemorar, comendo um bom cozido à portuguesa, um bom bacalhau, ou até saboreando um simples pastel de nata, sentindo-se, aí sim, verdadeiramente português e diferente de um qualquer outro povo, e sem ser necessário nenhum “marketing” político.

 

Viva Portugal!