MIRADOIRO

Dos “esquemas” ao ultramontanismo

Sobre os ‘contratos de associação com os colégios privados'


Por:António Quaresma

2016-06-17
Fico espantado com a posição radical e ultramontana de certo sector político-social

Vou contar uma história com cunho pessoal, mais uma vez não porque considere o meu percurso de vida uma coisa especialmente importante, a não ser para mim próprio, mas porque ela contém alguns elementos que ilustram, de alguma forma, a realidade que quero expor.

 

Na década de 1950, nasceu em Vila Nova de Milfontes, pela mão do arcediago Joaquim Maria Lourenço, um colégio pertencente à Igreja Católica, com internato e externato, destinado ao ensino secundário. Tratava-se naturalmente de uma escola com um carácter elitista muito acentuado, uma vez que as mensalidades pagas pelas famílias dos alunos (aliás alunas, pois era, no início, um colégio feminino) não eram sustentáveis para a grande maioria da população. Apesar de tudo, em Vila Nova de Milfontes alcançava um número significativo de raparigas, porque as famílias não tinham o encargo do internato da maioria das alunas que o frequentavam. Colégio sem “misturas” entre rapazes e raparigas, qualquer coisa impensável na altura e ainda mais numa escola com as características desta. Em Odemira existia então um colégio misto, mas sem internato.

 

Numa altura em que a oferta de ensino secundário oficial estava limitada, em todo o distrito, ao Liceu Nacional de Beja, houve quem aproveitasse este “nicho de mercado”, um pouco por todo o lado, dando sobretudo resposta à procura das elites locais (médicos, advogados, funcionários, proprietários, alguns comerciantes). Parte dos colégios privados pertencia à Igreja ou a clérigos, que assim satisfaziam uma determinada demanda e, ao mesmo tempo, dispunham de um meio de produzir ensino com dimensão confessional. No caso do colégio de Milfontes, ele foi também uma forma de dar função e rendibilidade às instalações de uma colónia de férias infantil, devolutas em grande parte do ano.

 

A certa altura, um grupo de três rapazes, uma escassíssima minoria da juventude masculina milfontense, entre os quais o autor destas linhas, passou a ter aulas num anexo do colégio, em resultado de acordo com o respectivo director. Claro que o custo para estas famílias, que se inseriam no que podemos chamar de classe média baixa, era bastante elevado. No meu caso, recordo um sacrifício de tal ordem, que levou a endividamento familiar quase insustentável. Até ao 5.º ano do liceu, frequentei o colégio de Milfontes, pagando uma mensalidade de 250$00, uma quantia muito significativa para a época e para o meio, a que se juntava o pagamento de mais duas irmãs a estudar.

 

No 2.º e n.º 5.º anos, finais de ciclos, os alunos e alunas do colégio faziam exames nacionais no Liceu de Beja, que ao ensino particular não era dado crédito de ensino oficial, ao contrário do que agora acontece. Assim, lá íamos à cidade, para a terrível provação do exame nacional, de fato e gravata, os rapazes, de farda colegial, as raparigas, sempre separados.

 

Uma anotação marginal: a imensa maioria da população só tinha então acesso ao ensino primário, mesmo assim, frequentemente, com dificuldade, e a Nação era então chefiada, ditatorialmente, por Oliveira Salazar, cujo governo chegou a condecorar o director do colégio, Arcediago Lourenço.

 

Terminado o 5.º ano, dos três rapazes, apenas eu fiquei, na altura, em condições de continuar o 3.º ciclo de estudos. Procurei então um acordo com o director do colégio, que, face à redução da receita da “secção masculina”, achou que não “merecia a pena”. Não que eu fosse gerar prejuízo ao colégio, pois havia um conjunto de professores que estavam dispostos a apoiar-me, como sempre estiveram, mas ele foi inflexível. No fundo, o director tinha um negócio a gerir, e a componente masculina havia deixado de ser interessante, porque perdera escala. Ponto final.

 

Deixemos o registo pessoal.

 

Como se sabe, a Democracia trouxe, entre outras vantagens, o alargamento da escolaridade obrigatória e a difusão da rede escolar preparatória e secundária, para que toda a população portuguesa dela pudesse usufruir. O concelho de Odemira foi dotado de escolas preparatórias e depois de secundárias, não só na sede do concelho, como também em sedes de freguesia (Colos, Sabóia e São Teotónio). O caso de Milfontes era diferente: tinha o já citado colégio privado, que foi integrado na rede pública. Uma “parceria público-privada”, que interessava às duas partes. E é ainda isso que se verifica: o Estado faz aquilo que lhe compete, isto é, garante o ensino público à população; o colégio, por seu turno, presta um serviço acordado com o Estado e recebe deste a competente contrapartida financeira. Faz sentido.

 

Fico espantado com a posição radical e ultramontana de certo sector político-social, sobre os “contratos de associação com os colégios privados”. Cada vez mais me persuado de que estamos num período de regressão mental e ética, ou, pelo menos, numa das suas cíclicas emergências, de que houve nefastos exemplos na história do século XX.