CAIXA DE PANDORA

Coragem uma virtude em extinção

Uma característica tão estimada por todos


Por:Paulo Barros Trindade

2016-06-17
Como disse Confúcio, “saber o que é correcto e não o fazer é falta de coragem”

Este mês revisito um tema sobre o qual já escrevi noutros locais, mas que continua cada vez mais na actualidade. Escrevo sobre essa característica humana que se chama coragem. A etimologia da palavra coragem provém supostamente da palavra em latim “coraticum” em que “cor” significa coração e “aticum” uma acção relacionada com a palavra anterior, ou seja, em tradução livre, significaria qualquer coisa como uma acção proveniente do coração ou aquilo que fazemos com o coração.

 

De todas as definições que encontrei sobre coragem, a do escritor Norte-Americano Mark Twain foi a que mais me inspirou – “A coragem é a resistência ao medo, a dominação do medo; não a ausência de medo”.

 

Sempre admirei e continuo a admirar esta característica nas pessoas. Há uns anos visitei a Normandia, porque queria perspectivar a coragem que teria sido necessária para aqueles homens, há mais de 70 anos, fazerem aquele desembarque, com a morte certa a poucas dezenas de metros. Foi essa viagem que me inspirou a perder mais algum tempo a pensar sobre este tema da coragem. Ainda tenho dúvidas se esse episódio da história Europeia terá sido um exemplo de coragem ou apenas de desespero (o cenário que os aguardava era mais ou menos desconhecido da maioria dos homens envolvidos) mas, reflectindo durante algum tempo sobre a loucura do que ali se passou e acreditando na definição do Mark Twain, porventura terá sido um verdadeiro exemplo de coragem.

 

Ainda durante a investigação realizada, surgiu igualmente a definição do filósofo Grego Aristóteles – “a coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”. Se, de acordo com a definição dos Romanos, a coragem é uma acção que vem do coração, sendo este um órgão central na pessoa humana (quer em sentido literal, quer em sentido figurado), também parece fazer sentido a definição de Aristóteles, o que coloca a coragem no centro das características humanas e a sua presença ou ausência como definidora da “qualidade” da pessoa.

 

Só pelo facto de estar a citar Aristóteles, dá para perceber que a coragem é uma questão que já ocupa algumas mentes humanas há muitos séculos.

 

Se olharmos para a indústria cinematográfica, sobretudo a Norte-Americana feita para as grandes massas, também se percebe que o tema vende, ou seja, de uma forma geral, a grande maioria das pessoas valoriza esta característica, o que faz com que os grandes blockbusters norte-americanos sejam quase sempre sobre um personagem heróico, alguém corajoso capaz de fazer algo muito para além do comum mortal. Portanto, a temática da coragem não desapareceu ao longo dos séculos. Antes pelo contrário, continua bem viva nas sociedades humanas.

 

Mas com este cenário a grande questão que se coloca é – Porque não se manifesta mais frequentemente nas pessoas?

 

Se pensarmos um pouco e olharmos à nossa volta, vemos assim tantos actos de coragem praticados por quem nos rodeia? Quando nos olhamos ao espelho vemos esta característica em nós próprios?

 

É curioso que uma característica que é supostamente tão valorizada pela sociedade humana, se manifeste de forma tão escassa, seja tão pouco frequente.

 

O Fernando Pessoa, na sua forma algo esquizofrénica, também arriscou uma definição para coragem – “A coragem (...) começa interiormente (...); faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua alma.”

 

Eu diria que a coragem define-se pelo seu antónimo, ou seja, é o contrário da cobardia. É a característica humana que permite, mesmo estando presente o medo, o pavor, a intimidação, confrontar as origens desses receios e seguir em frente, seguir a vida, evoluir.

 

Mas, reforço, por que razão uma característica tão amada e tão desejada é tão pouco frequente?

 

Durante séculos o mundo Ocidental foi dominado pela Inquisição, impondo o medo divino – quem não cumpria a verdade divina ia para o inferno. Desapareceu a Inquisição e vieram os regimes ditatoriais que, mais uma vez se impuseram pelo medo, seguindo a velha máxima “quem não está connosco, está contra nós”.

 

Portanto, passámos séculos a alimentar uma cultura baseada no medo.

 

Chegados aos nossos dias, continuamos com o medo presente, seja o imposto pelos políticos tiranetes, a quem um poder supostamente democrático e dado pelo povo, rapidamente se transforma num poder absoluto baseado no medo, seja pelo povo temer represálias, perder regalias ou ser ostracizado.

 

Nos nossos lares encontram-se, igualmente e muitas vezes, os pequenos tiranetes que acham que um contrato nupcial lhes dá o poder absoluto sobre um ser humano, controlando e mantendo pelo medo. Ou aqueles que, mesmo na ausência de tiranetes, não encontrando a felicidade, aprisionam-se, não conseguindo assumir novos rumos, seja por pressão familiar, social ou por mera inércia.

 

Os meios de comunicação social, talvez mais um dos tiranetes que por ai andam, dizem-nos como devemos pensar, como devemos vestir, como devemos comportar-nos. Já alguma vez viram, caros leitores, uma televisão ou jornal nacional dar-nos, como linha editorial, conteúdos que nos conduzam a sermos corajosos? A questionarmo-nos? A não aceitarmos como verdade tudo o que nos oferecem? Não.

 

Em suma e deixando as conclusões para os leitores, a tal coragem, a tal característica tão estimada por todos e que vende tão bem nos filmes Norte-americanos e livros de ficção, é uma característica humana em extinção.

 

Para aqueles que acreditam que existem outras vidas para além desta, podem esquecer a tal coragem e dar-se ao luxo de serem perdulários e deixar os outros decidir por vós e definir por vós como deverão viver, mantendo a esperança que na próxima vida tudo será melhor.

 

Para aqueles que acham que é melhor jogar pelo seguro e acreditar que esta é a única vida que temos para viver, talvez seja a altura de promoverem a vossa própria reflexão sobre este tema.

 

Como disse Confúcio, “saber o que é correcto e não o fazer é falta de coragem”.