OPINIÃO PÚBLICA

Os lápis azuis

O papel nunca rejeita a tinta


Por:Fernando Almeida

2016-06-17
Numa folha de papel tanto se pode escrever a mais pura verdade como a mais negra mentira

Eu já vivi o bastante para me lembrar do tempo da censura, quando a confiança que havia na informação que nos chegava pela comunicação social era pouco mais que nenhuma. Se as notícias diziam que tinham morrido dois soldados portugueses num acidente em África, nós pensávamos de imediato que na verdade devia ter havido uma emboscada e uma verdadeira chacina. Era assim, sabia-se: os jornais mentiam. Todos sabiam da existência dos “homens do lápis azul”, todos sabiam que nos enganavam, omitiam, inventavam ou deturpavam factos… e de resto nem era propriamente segredo, pelo que só se acreditava verdadeiramente naquilo que se sabia de “fonte segura”, e tanto os jornais e revistas como a televisão e rádio não garantiam seguramente essa verdade, rigor e a isenção que a informação séria exige. 

 

Digo isto porque temos hoje a convicção generalizada que vivemos num mundo livre, onde a informação é independente e rigorosa, pelo que será fiável. Aquele exercício que no tempo da censura se fazia de “ler o que o jornalista não tinha escrito”, de tentar adivinhar o que o censor tinha cortado, em busca da verdade da informação, hoje tem parecido desnecessário. Assim o cidadão comum aceita geralmente como boa, a “verdade” que lhe é servida pela comunicação social. Mas…

 

Se alguém se detiver a pensar séria e cuidadosamente sobre a qualidade da “verdade” que nos é oferecida como informação, e no rigor e isenção das teses que os comentadores nos apresentam sobre ela, as dúvidas necessariamente terão que surgir. Nesta matéria a primeira questão que se coloca (e é claro que estou longe de ser eu o primeiro a colocá-la) é por que motivo alguns grupos económicos aceitam perder milhões na comunicação social. Em princípio ninguém, e ainda menos as empresas privadas que têm por objetivo e vocação o lucro, estão dispostas a perder dinheiro, se não se conseguir algo de muito importante em troca. Também se sabe que, como é costume dizer-se, “quem tem a informação tem o poder”, e acrescento eu, “quem controla a informação, controla o poder”… 

 

Fala-se… fala-se de pressões sobre os jornalistas, condicionando-os na forma de nos dar as notícias; fala-se da escolha dos chefes de redação; fala-se da seleção dos comentadores televisivos; fala-se da autocensura a que os jornalistas se obrigam, para preservar um posto de trabalho num mercado cheio de desemprego; fala-se de mentiras criadas pela propaganda de alguns países, propagadas pelas agências noticiosas internacionais e replicadas sem critério nem crítica pela comunicação social no geral; veem-se gráficos claramente mal feitos que induzem o espetador ou leitor em erro, quantas vezes com inconfessáveis propósitos demagógicos; ouvem-se e leem-se crónicas em que a boa-fé do comentador deixa muito a desejar… De tudo isto se fala, mas sempre à “boca pequena”, sempre a medo, como quem teme dizer que o “rei vai nu”. Mas o rei vai mesmo nu, e de certo modo só não o vê quem andar muito distraído ou quem não quiser mesmo vê-lo.  

 

É verdade que o “homem do lápis azul” já lá não está a controlar o que se pode ou não pode dizer. Mas o controlo da informação pode ser feito de muitas formas diferentes. Observando bem esta realidade não posso deixar de recomendar a todos que não tomem por verdade o que se diz e escreve apenas porque foi dito na televisão ou na rádio, ou porque está escrito. Lembrem-se sempre que “o papel nunca rejeita a tinta” e numa folha de papel tanto se pode escrever a mais pura verdade como a mais negra mentira. Lembrem-se também de quantas notícias foram dadas como verdades absolutas, comentadas por supostos especialistas que as confirmaram e expandiram, e afinal tudo era logro, tudo era falsidade, tudo era feito para nos enganar.

 

Sabendo como sei que a comunicação social está fortemente condicionada por interesses quase sempre bem diversos dos da verdade, da isenção e do rigor, não posso deixar de fazer um apelo à vigilância dos leitores, atitude que deve começar pela leitura atenta e crítica dos meus próprios textos. 

 

Para que não restem dúvidas, nesta qualidade de quem escreve opiniões e ideias, como em qualquer outra faceta da vida, tento ser um homem livre e independente, sem compromissos com nada a não ser com a verdade, com a justiça e com a minha consciência. Por mim, escreva quando escrever, escreva onde escrever, escreva para quem escrever, esses princípios são absolutamente inalienáveis. E como era bom que todos os que transmitem informação pudessem dizer o mesmo!