EDITORIAL

Os hipopótamos comilões

Tudo não passa de um jogo


Por:Pedro Pinto Leite

2016-07-18
A Feira da Horta é um pretexto para o encontro entre as pessoas. É um lugar de integração.
O que ali se passa é uma verdadeira socialização popular

Os hipopótamos comilões é um jogo, lançado no final dos anos 70, que consiste em cada jogador fazer o seu hipopótamo comer o maior número de bolinhas possível pressionando repetidamente a cauda do animal que é o que faz abrir e fechar a sua boca para que coma as ditas bolinhas.

 

A Feira da Horta é uma pequena feira de pequenos produtores hortícolas locais, situada junto à Casa do Benfica, em Vila Nova de Milfontes, que funciona todos os domingos, das 09:00 às 12:00 desde há mais de cinco anos.

 

E com o tempo vieram os hábitos e eventualmente a tradição.

 

A Feira da Horta foi também fonte de inspiração para outros eventos semelhantes no concelho, incluindo o de Odemira promovido pelo município.

 

A ideia primeira da Feira da Horta, uma vontade espontânea de alguns pequenos produtores locais, seria fazer escoar o excesso de produção das suas hortas. Não é que isso não se faça mas, efetivamente, o que ali se passa é uma verdadeira socialização popular. Esse é o segredo da sua longevidade e sucesso.

 

A Feira da Horta é um pretexto para o encontro entre as pessoas. É um lugar de integração. É a terapia semanal que faz atenuar o luto pela perda de alguém muito querido, que faz reduzir os efeitos de uma depressão, que ameniza uma vida de solidão... São três horas de convívio que fazem também parte da rotina dos muitos que a visitam.

 

Há ali pessoas cuja vida retomou um sentido e que nunca falharam um único domingo desde o dia 29 de maio de 2011 (data da primeira Feira da Horta e que já ninguém se lembra).

 

A partir daquela altura tratar da horta, mais do que uma necessidade ou uma ocupação, passou a ser um desígnio. E levar aos domingos uma caixa cheia de hortaliça para o largo da Casa do Benfica, como é conhecido, passou a ser uma emoção.

 

É verdade que aquela ‘feira’ se realiza num espaço não regulamentado para o efeito mas também é verdade que as pessoas que lá vão com os seus produtos só o fazem porque o presidente da câmara o transigiu. Sem essa benevolência como teria sido possível a Feira da Horta ter persistido todo este tempo? Aliás, a Feira da Horta chegou a ser anunciada na Agenda Municipal variadíssimas vezes.

 

Apesar da benevolência, o facto é que nada foi feito para regulamentar aquele espaço. E isso apenas compete à câmara. Agora que a GNR, por ordem superior devido à publicação do Decreto-Lei nº85/2015, visitou o local e avisou os produtores que não poderiam ocupar o espaço para aquele fim, parece que as entidades e as personalidades despertaram para a importância social e política do evento Feira da Horta.

 

A presidente de junta de Vila Nova de Milfontes procurou inteirar-se da situação e de procurar saber quais as possibilidades de se continuar com aquele evento semanal. E essa vontade, uma vez que o espaço em causa não está dentro da jurisdição da freguesia, resultou na regulamentação do espaço exterior da praça de Vila Nova de Milfontes para que, pelo menos até que a câmara municipal regulamente o Largo da Casa do Benfica, haja uma alternativa legal a este espaço.

 

Odemira diz que a questão será devidamente tratada. Seja lá o que isso queira dizer, espera-se que permita a continuidade da Feira da Horta e espera-se que a inexistência de casas de banho públicas não sejam um impedimento para a sua regulamentação, ou pelo menos para a permissão da sua continuidade no espaço junto à Casa do Benfica, casa essa cujos arrendatários disponibilizam as suas instalações sanitárias.

 

Se tal for impedimento, nesse caso será possível fazer-se uma feira de Natal no Jardim Público ou outra feira qualquer na Barbacã? será possível, no verão, vender-se artesanato e outros produtos ou prestar-se qualquer tipo de serviços, como por exemplo os ‘térérés’ ou as pinturas de tatuagens temporárias na Rua Custódio Brás Pacheco? será possível que vendedores ambulantes literalmente acampem junto à rua e montem uma ‘loja’ feita de paus de eucalipto, rede e chapa de zinco, durante todo o verão? ou ainda será possível o atendimento local ao munícipe, promovido pelo município, nos quiosques do Balcão Único?

 

Há de haver uma maneira de tornar possível a ocupação semanal do espaço em causa, pelos pequenos produtores e, eventualmente, isso será possível com relativa facilidade. Haja vontade. E isso só depende da Câmara Municipal.

 

Então, porquê tanto alarido?

 

Isso é típico do posicionamento político de pré-campanha às eleições autárquicas por parte de supostos candidatos que pretendem comer o maior número de bolinhas possíveis na esperança de ganhar algo com isso.