NA PRIMEIRA PESSOA

Emigrantes, Imigrantes e os outros habitantes

Rejeitemos a Xenofobia e o Racismo


Por:Manuel Cruz

2016-07-18
Unamos as mãos para transformarmos o mundo num paraíso onde em paz e amizade todos possamos viver

Teria eu 11 ou 12 anos e estava empregado no comércio. No estabelecimento transaccionavam-se produtos alimentares e bebidas e também existia o posto de correio e o telefone público.

 

Entre servir um copo de vinho tinto e aviar 250Gr de Arroz ou açúcar, distribuía-se o correio. Recolhiam-se as cartas do recipiente postal existente na parte de fora do estabelecimento; seleccionava-se o destino, atavam-se em molhinhos, que arrumávamos no saco cinzento azulado dos CTT. Depois de selado e fechado, com o respectivo cadeado, estava pronto para ser recolhido e seguir o caminho em direcção aos destinatários, primeiro transportado para a Estação da CP de Odemira (Luzianes-Gare) em rodovia e em comboio seguia para o seu destino 

 

O posto de telefone público servia toda a comunidade, pois nas redondezas, só havia telefones particulares nas herdades do Reguengo Pequeno e no Novo Reguengo /Casas Novas).

 

Recordo um dia de ter havido a recepção de uma chamada telefónica, urgente, para o José do “Pelome”. A chamada vinda do serviço de emigração, onde o destinatário se tinha inscrito para emigrar para a Alemanha. A urgência obrigava a que a mensagem teria de imediatamente seguir o seu caminho, pois a selecção dos candidatos seria no dia seguinte. Fui então incumbido de levar a boa nova, transcrita num papel pardo que habitualmente servia para embrulhar os produtos da mercearia. Correndo fui a sua casa. Como não estava, perguntei por ele na vizinhança. Com esta ajuda lá o consegui encontrar, a trabalhar o campo, depois do “Poço da Condessa”, a cerca de três km do inicio da minha jornada. No regresso já com passo normal, vim pensando no que seria emigrar, no que seria ir viver para longe do lugar que eu sentia ser, talvez, o centro do universo, o sítio onde nascemos e vivíamos. Pensei como seria a vida dos seus filhos, putos como eu, embora mais novos, com o pai longe, sem poderem ter presente o seu carinho e amparo. Confesso que senti pavor ao pensar que o meu pai pudesse seguir os mesmos passos.

 

Com o tempo fui vendo partir os meus vizinhos. Uns partiam para a cidade, e presenciava o choro dos familiares que ficavam, ao se despedirem na partida da “camioneta da carreira” que os levaria até Cacilhas ou Barreiro; outros saíam para a França ou Alemanha e outros para o Canadá; todos procurando melhores condições de vida para si e para os seus familiares, pois os tempos eram difíceis e o único trabalho que havia na região era na agricultura.

 

Sentia que muitos dos que migravam para a periferia de Lisboa não conseguiam ter o êxito que esperavam e os familiares que cá ficavam lá iam ajudando com o envio de umas sacas de batatas e umas galinhas que a transportadora fazia chegar-lhes. Verificava que para os que emigraram para a Alemanha e para a França, a vida lhes corria melhor, embora sentisse a sua tristeza por estar longe da família e dos amigos. Mas na Páscoa, no verão e no Natal era uma festa. Chegavam eles com vivências e histórias para compartilhar e a alegria do seu convívio era gratificante para todos.

 

Rebusquei da memória esses momentos, quando, nestes dias de presença em França da nossa selecção sénior de futebol de 11, presenciámos, através da Televisão, a euforia que acompanhou os nossos jogadores e equipa técnica, por parte desses emigrantes que partiram e pelos seus descendentes que já nasceram e cresceram em França, Luxemburgo, Suíça, Holanda, Alemanha ou Bélgica, mostrando o orgulho de pertencerem a esta “Raça Lusitana” e que só em França estarão mais de 1.000.000 de portugueses emigrados. E o contentamento de ver a destreza, a entrega, o sacrifício e o crer de elevar bem alto o nome do país. E o melhor, com a conquista da taça de campeões da Europa, foi lindo, foi emotivo, foi indescritível ver o sentir e o orgulho com as suas raízes portuguesas. Eles vivem fora, são emigrantes no país que os acolheu, mas no seu sangue estão os genes daqueles heróis: Viriato, Afonso Henriques, Os nossos descobridores, Camões, e tantos outros que elevaram bem alto a honra e o gosto de ser Português.

 

De lamentar foi o facto de verificarmos que por parte de alguns franceses, os emigrantes, continuarem a ser tratados como emigrantes e não como cidadãos duma Europa comum.

 

Portugal - neste caso o nosso futebol - foi  visto como de um país da segunda divisão europeia, desconsiderado e menorizado, revelando um chauvinismo que pensávamos ultrapassado. Graças ao “São” Fernando Santos e seus jogadores, tivemos a alegria de lhes mostrar quão pequenos são perante o trabalho e brio português e ganhámos-lhe a taça que já chamavam sua!!! “Boa” !!! 

 

Sou levado a meditar quando ouço vozes correntes, no nosso concelho, de como abordam a existência de imigrados, trabalhadores nas quintas na apanha da produção dos pequenos frutos, onde frequentemente aparecem medos sobre o seu comportamento e sobre a sua integração na nossa sociedade. Sim passámos a conviver com povos de origens e culturas tão distantes que além de europeus mais de leste, vêm também da Ásia. Independentemente de nestes imigrantes poderem vir pessoas não desejáveis são acima de tudo trabalhadores. Homens ou mulheres que também saíram das suas terras, deixando os seus familiares e amigos, chegaram para trabalhar à procura de melhores condições de vida e vêm ajudar ao desenvolvimento da nossa terra. Ao olharmos para estas pessoas temos que sentir o respeito que merecem, a compreensão para com o seu modo de viver, diferente do nosso, e ajudá-los com o mesmo acolhimento que desejamos e exigimos para todos os nossos emigrantes onde quer se encontrem no mundo.

 

Vivemos num concelho com uma costa extensa de cerca de 50Km, onde dizemos (sem pobreza na ambição), existem as mais belas praias do “mundo”. “Sendo verdade pois o meu filho é verdadeiramente mais bonito que o teu”.

 

Desde décadas que por cá passam, especialmente no Verão, gentes de grande parte do mundo, invadindo os nossos areais e as nossas vilas e aldeias atlânticas. Causam alguns transtornos à monotonia dos nossos hábitos do quotidiano, quer no estacionamento, quer no supermercado ou no bocadinho de areia onde queremos estender a toalha, mas orgulhamo-nos da qualidade, cortesia e empenho como os recebemos, tendo contribuído para que muitos ficassem e sejam hoje uns dos nossos. Porque nunca nos interrogamos donde vêm, porque vêm, como vivem ou quão bons ou maus cidadãos possam ser? São turistas e pronto… está tudo bem. São gente pura e de bem.

 

Esta vivência, penso eu, dá-nos a certeza de que será possível também com estes novos habitantes, trocarmos amizade e conhecimento, que ajudará na sua integração e quiçá também como nos outros que vieram em lazer, que gostem e fiquem povoando um concelho em deficit demográfico. Deixemos o medo de lado e ajudando tornemos a sua integração mais rápida, condigna e eficaz.

 

Nos tempos que correm, continuamos a constatar que emigram por ano mais de 100.000 portugueses, que continuam a não ter no nosso país as condições de vida que aspiram.

 

Optei por ficar no canto do país que me viu nascer mas tenho muito respeito e admiração por todos os migrantes, quer por procurarem trabalho, por conhecerem novos povos ou por fugirem a flagelos da Guerra ou de outra qualquer opressão. No Mundo Global onde vivemos existem pessoas diferentes na cultura e na cor da pele mas iguais na cidadania. Somos todos cidadãos do Mundo.

 

Rejeitemos a Xenofobia e o Racismo.

 

Emigrantes, Imigrantes, ou Autóctones, unamos as mãos para transformarmos o mundo num paraíso onde em paz e amizade todos possamos viver.