MIRADOIRO

O insidioso “vírus”

O racismo e a xenofobia são duas perversões que geralmente andam juntas


Por:António Quaresma

2016-07-18
A emergência de feios sentimentos anti-humanistas pode ocorrer em qualquer lado e em qualquer altura

O racismo e a xenofobia são duas perversões que geralmente andam juntas. E se, em algumas ocasiões parecem adormecidas, noutras emergem com toda a agressividade. Tudo depende da conjuntura política, por sua vez relacionada com circunstâncias económicas e sociais. O século XX, o mesmo século XX da afirmação da democracia e do desenvolvimento científico, deu exemplos bem frisantes da barbárie a que podem andar associadas. 

 

Na verdade nem a democracia, nem a ciência, formas superiores do pensamento e da acção das sociedades contemporâneas, foram capazes de obstar à barbárie. Mais ainda, alguns dos acontecimentos mais negros foram praticados em seu nome ou, de alguma forma, em si fundamentados. 

 

Já no início do século XXI, a guerra do Iraque, feita, alegadamente, em defesa da democracia e da liberdade, por países com a democracia política instalada, foi na verdade, como hoje se tornou inegável, pelo menos um crime de guerra que originou uma corrente imparável de inúmeros sofrimentos. Crime, aliás, sem castigo, pois os seus principais autores vivem ricos e em liberdade, acontecendo até que um dos cúmplices é português.

 

Durante a 2.ª Guerra Mundial a perseguição aos judeus provinha de razões económicas e sociais, mas tinha uma base “científica”, os estudos eugénicos. Estes deram consistência a ideologias como o “eugenismo nazi” e a programas como o das esterilizações maciças na Suécia. 

 

Hoje em dia, na Europa da União Europeia, volta a sobressair, virulento, o fenómeno da xenofobia e do racismo, não apenas em países como a Hungria, de tradições pouco democráticas, mas também nos países do Norte da Europa, onde a social-democracia esteve associada a sociedades evoluídas e com assinalável grau de justiça social e de tolerância. Claro que a social-democracia acabou, ou quase, e, em seu lugar, ficou uma amálgama de partidos, de propensão neoliberal, mais identificáveis por terem clientelas diferentes do que por diferentes ideologias. Os partidos socialistas europeus, acompanhando a deriva para a direita imprimida pelo reaganismo/tacherismo, abandonaram a social-democracia, ao mesmo tempo que perdiam apoio social. Em Portugal, o partido autodenominado social-democrata nunca o foi verdadeiramente, e, hoje, de social-democracia nada possui. As coisas estão de tal forma que opções políticas sociais-democratas, por vezes tímidas, são classificadas, depreciativamente, de radicalismo de esquerda! Esta longa divagação foi-me sugerida por uma opinião, muito viva, que começa a correr neste paradisíaco Litoral Alentejano: a de que a agricultura do perímetro de rega do Mira é responsável, entre outros danos, por introduzir na região muitos imigrantes de origem oriental, que, passeando-se na paisagem, lhe conferem uma imagem negativa e prejudicial para o turismo! A ideia percorre facções partidárias diferentes, mas a última pessoa a quem a ouvi é, curiosamente, um eleito do Partido Socialista! 

 

A emergência de feios sentimentos anti-humanistas pode ocorrer em qualquer lado e em qualquer altura, desde que surja oportunidade. Tal como o sistema económico, social e político, hoje globalizado, pode oscilar entre o “capitalismo de rosto humano” e a desumanidade em que os seus próprios postulados são desprezados.