OPINIÃO PÚBLICA

Do sonho ao pesadelo?

Já se viu que não passou de um sonho


Por:Fernando Almeida

2016-07-18
Nigel Farage, acusou os deputados do Parlamento Europeu de nunca terem trabalhado na vida, o que é infelizmente verdade.

Acho que ninguém imaginava que isso viesse a acontecer. A União Europeia era um espaço que parecia ser sempre crescente, a juntar novos países, a aprofundar uma união que alguns queriam que fosse uma federação. Julgámos (penso que todos) que era um processo para muitos anos, feito para durar, crescer e consolidar, como forma de manter a Europa como potência mundial, num tempo em que no mundo outros poderes se elevam no horizonte.

 

Em tempos até chegámos a pensar que era um espaço de solidariedade e entreajuda dos povos europeus, coisa romântica, bonita de ser vista e vivida. A Europa, finalmente, como continente que tinha aprendido dolorosamente com a experiência de duas guerras, liderada por homens prudentes e sábios, dava lições ao mundo, baseada numa democracia madura, assente no respeito e cooperação entre nações, com a solidariedade a caminhar de mão dada com o desenvolvimento e a pujança da economia.

 

Aos poucos os mais atentos foram percebendo que esse sonho lindo afinal não passava disso mesmo, um sonho lindo. Percebeu-se mesmo que não só essa realidade não existia como também que esse sonho lindo não estava na agenda dos dirigentes europeus para o futuro. Os mais atentos não conseguiram deixar de ver que a mesma crise que tinha desgraçado alguns, tinha enriquecido outros, e que aquilo a que costumam chamar de “mercados” eram em boa medida os agentes da finança dos países poderosos a extorquir os povos dos países pobres.

 

Aos poucos o sonho, que já não era lindo, parece querer tornar-se em pesadelo. A violação das normas passa a ser penalizada em função do estatuto do país: um país poderoso pode violar as normas sem problema, enquanto os países periféricos podem ser penalizados. Dirigentes que ninguém elegeu e burocratas emproados da U. E. falam com arrogância e humilham povos milenares; a “Europa” sem uma verdadeira política externa comum, vagueia ao sabor dos interesses das principais potências internas e do seu aliado americano; não tem exército que lhe garanta autoridade militar, mas também não tem autoridade moral, e tanto a situação da Síria como a da Ucrânia mostram isso mesmo. Decide-se a política externa em função das vantagens de alguns. Não há respeito pela verdade, pela própria democracia, pelos direitos humanos. Tudo o que em tempos foram ou pareciam ter sido bandeiras e princípios, não passa agora de discurso de circunstância ou argumento vago quando interessa justificar algumas decisões.

 

A crise dos refugiados mostra também a inoperância da União Europeia e o desnorte da sua política externa. Mesmo sabendo as responsabilidades que muitos dos países da U. E. têm na situação de guerra do Iraque e da Síria, a Europa não assume a sua responsabilidade, e continua-se a fechar os olhos aos desmandos da Turquia face ao povo curdo, a troco da retenção em solo turco dos que fogem à guerra e à fome.

 

Nigel Farage, acusou os deputados do Parlamento Europeu de nunca terem trabalhado na vida, o que é infelizmente verdade. E desgraçadamente não o é só no que se refere aos membros do Parlamento Europeu… Vivemos cada vez mais governados por gente que nunca criou ou trabalhou numa empresa, nunca foi empregado de ninguém, gente distante, que se habituou a controlar os outros através de uns números, uns índices… mas que nunca viveu realmente a vida como qualquer cidadão normal.

 

É claro que o sonho lindo de uma Europa unida, sem fronteiras, solidária e fraterna, já se viu que não passou de um sonho. É claro que a hegemonia alemã incomoda e traz à memória imagens que ninguém quer lembrar. É claro que a perda de capacidade de decisão dos povos, acompanhado por um certo despotismo de gente que não foi eleita, desagrada. É claro que a falta de verdadeiros estadistas, com visão de futuro, na direção da União Europeia, não ajuda nada. E é claro que os povos, mais cedo ou mais tarde se vão sentir mal e questionar tudo isto. Os ingleses foram só os primeiros.

 

Além dos problemas que as falhas da União trazem aos cidadãos e ao seu futuro comum, toda esta situação cria solo fértil para o desenvolvimento de nacionalismos e todo o tipo de extremismos. Esperemos que os piores cenários nunca se venham a concretizar.