EDITORIAL

Ponha os óculos!


Por:Pedro Pinto Leite

2016-08-22
O hábito de dar e receber presentes e a troca de favores ou o tráfico de influências já é tão ‘banal’ que, para muitos, já nem são considerados subornos

Um dia, uma rapariga de 15 anos foi ao oftalmologista, pela primeira vez. Não que ela achasse que necessitaria de óculos mas porque os pais perceberam (finalmente) que ela teria algum problema de visão. Essa rapariga era, e é, completamente astigmática - astigmatismo é uma doença ocular que dificulta ver ao perto e ao longe - mas nunca tinha dado por isso porque achava ‘normal’ não ver bem. Não conhecia outra realidade. Aliás, ela ficava muito surpreendida com as colegas de escola que, na paragem do autocarro, se levantavam antes do autocarro chegar. “Como é que elas sabiam que o autocarro vinha aí?”, mais, “como é que sabiam que era o autocarro certo?”.

 

O facto é que para ela a realidade foi, durante muito tempo, distorcida pela sua falta de visão. Isso acontece com muita gente.

 

É impressionante como as pessoas se adaptam à distorção da realidade. Umas porque nunca conheceram outra e outras porque se foram conformando à forma distorcida de ver as coisas.

 

É comum as pessoas, a partir de uma certa idade, começarem a ter presbiopia - presbiopia é a chamada ‘vista cansada’ que se traduz na dificuldade de ver ao perto. E também é comum, pelo menos no início, não terem exata consciência desse facto ou pelo menos não quererem aceitá-lo. Por isso vão-se adaptando a uma realidade distorcida e à sua dificuldade de ver com pouca luz, de focar pequenos objetos ou letras pequenas.

 

Enquanto essa dificuldade for pessoal e não interferir com os outros, nem colocar ninguém em perigo, tudo bem.

 

Mas quando essa falta de visão, essa ideia distorcida da realidade, se torna numa visão coletiva ‘normal’, com a falta de discernimento, a falta de juízo crítico, quando já não se é capaz de distinguir o certo do errado, o bem do mal, quando os valores éticos e morais deixam de existir e se compromete a liberdade, o bem-estar comum e a coisa pública, isso é assustador.

 

Por exemplo, a decisão de um secretário de estado ou um autarca de aceitar um presente de uma grande empresa, por pequeno que seja, não é ética nem moralmente aceitável. Mas como a visão de algumas pessoas é tão distorcida, aceitá-lo é tão ‘normal’ que nem o próprio consegue ver onde está o ‘mal’ e acha que devolvendo o presente aceite, pelo valor correspondente em dinheiro, resolve o assunto.

 

O hábito de dar e receber presentes e a troca de favores ou o tráfico de influências já é tão ‘banal’ que, para muitos, já nem são considerados subornos. A falta de consciência da responsabilidade dos cargos e a das consequências dos atos praticados em função é arrepiante.

 

Aparentemente, o cidadão, no geral, sofre menos de miopia - miopia é uma doença ocular que dificulta ver ao longe - do que das restantes doenças oculares.

 

Há uma tendência para ver relativamente melhor aquilo que está longe e discernir que, por exemplo, o ex presidente da Comissão Europeia aceitar determinado cargo no maior banco de investimento do mundo não é compatível, ainda que legal, com o seu estatuto anterior.

 

Mas, aparentemente também, o cidadão comum, de tanto ver atitudes obscuras, sofre bastante de ‘vista cansada’ tendo maior dificuldade em discernir aquilo que lhe passa mesmo frente ao seu nariz.

 

E os meios mais pequenos não são como as grandes cidades onde se vive um maior anonimato. Os eleitos estão mais ‘próximos’ dos eleitores. Toda a gente sabe quem é quem, o que faz e até se tem alguma coisa pendente na autarquia à espera de aprovação.

 

Parece haver mais tolerância quando algum governante local recebe ‘presentes’ ou toma decisões pouco claras, e quando faz algum tipo de ameaça ou retalia uma empresa ou um cidadão por causa das suas ideias ou posições (políticas ou outras) ou porque tornou públicas algumas verdades ‘inconvenientes’ ao poder instituído é comum ouvir-se alguém dizer “então, estava à espera do quê? com o que escreve (o que diz, as posições que toma ou o que faz)”, como se aquilo tudo fosse ‘normal’, como se a ganância, a corrupção, o abuso de poder e o trafico de influências fossem aceitáveis, dadas as circunstâncias.

 

Não o é!

 

Mas há pouco discernimento e são poucos os que optam por usar um par de óculos e raríssimos os que se decidem por fazer uma cirurgia, resolvendo o problema de uma vez por todas.

 

E continua-se a achar que tudo é ‘normal’. E é por isso que há tanto poder e tanta obediência, tanto medo instalado, tão pouca vontade de ‘dar a cara’, de tomar posição, de denunciar. E isso passa-se ao nível pessoal, do cidadão comum, mas também no meio empresarial ou político. As pessoas não se querem expor, basicamente para não sofrer consequências.

 

E quando finalmente alguém o faz, os recados e/ou as retaliações estão lá à sua espera.

 

Já não é a primeira vez que se aborda parte desta questão no MERCÚRIO mas nunca é demais dizê-lo, porque estamos perante mais um ‘ensaio sobre a cegueira’ (obra de Saramago), num lugar onde há poucas ‘mulheres do médico’ - as únicas pessoas capazes de ver num mundo de cegos. Só que desta vez não é ficção e como diz o ditado: mais cego é aquele que não quer ver.